PrEP injetável, ISTs e moralismo: o que a ciência diz sobre prevenção, autonomia e cuidado

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Avanços na prevenção ao HIV não estimulam promiscuidade nem aumentam outras infecções, apontam infectologistas; discurso alarmista ignora dados, reforça estigmas e afasta pessoas do cuidado.

Sempre que uma nova tecnologia de prevenção ao HIV ganha destaque, como a recente aprovação da PrEP injetável, um velho argumento volta a circular com força: o de que essas estratégias fariam as pessoas “relaxarem”, abandonarem o preservativo e, como consequência, aumentarem os casos de outras infecções sexualmente transmissíveis. A ideia, repetida em comentários nas redes sociais e até em discursos públicos, soa intuitiva para alguns, mas não encontra respaldo na ciência.

Ao contrário do que sugerem essas narrativas, especialistas ouvidos pela Agência Aids explicam que a PrEP faz parte de um modelo mais amplo de prevenção, fortalece o vínculo com os serviços de saúde e pode, inclusive, ampliar o diagnóstico precoce e o tratamento de outras ISTs. O que está em jogo, segundo eles, não é um problema sanitário, mas um conflito entre evidências científicas e julgamentos morais que insistem em sobreviver.

Prevenção não cria comportamentos, responde a realidades

Para o infectologista Dr. Hilton Alves Filho, a associação automática entre PrEP e aumento de ISTs ignora o que já foi demonstrado por pesquisas no Brasil e no mundo.

“O que sabemos hoje, a partir de estudos brasileiros e internacionais, é que não existe evidência sólida de que a PrEP, seja oral ou injetável, cause aumento de infecções sexualmente transmissíveis. A incidência de ISTs entre usuários de PrEP costuma ser maior porque essas pessoas já tinham maiores exposições de risco antes e, principalmente, porque passam a se testar com muito mais frequência.”

O infectologista Dr. Hilton Alves FIlho | Foto: Acervo pessoal

Ou seja, os números não indicam que a PrEP provoque novas infecções, mas que ela traz à tona diagnósticos que antes passavam despercebidos. Segundo o médico, isso fica ainda mais evidente quando se analisam estudos nacionais.

“No Brasil, pesquisas como o ImPrEP Brasil e o ImPrEP CAB, da Fiocruz, mostram que a sífilis entre usuários de PrEP está associada a fatores como uso inconsistente de preservativo, histórico prévio de ISTs e condições de maior vulnerabilidade social, e não ao uso da PrEP em si. Culpar a PrEP é cientificamente incorreto e desvia o foco das verdadeiras determinantes sociais da saúde.”

O medo do ‘abandono do preservativo’ e o pânico moral

Outro argumento recorrente é o de que a PrEP estimularia o abandono generalizado do preservativo. Para os especialistas, essa leitura mistura saúde pública com moralidade.

“Essa ideia é um clássico exemplo de pânico moral, típico dos primórdios da resposta social ao HIV e à aids”, afirma Hilton. “As evidências mais recentes mostram que a maioria das pessoas que inicia a PrEP já não usava preservativo de forma consistente antes. A PrEP não cria um comportamento; ela responde a um comportamento que já existia.”

A infectologista Dra. Mafe Medeiros reforça que discutir prevenção exclusivamente a partir da camisinha é um raciocínio limitado e ultrapassado.

“Estudar se há ou não abandono do preservativo vai totalmente contra a lógica da prevenção combinada. A camisinha é uma ferramenta excelente, mas, sozinha, ela também pode não proteger completamente e, se usada de forma inadequada, pode até gerar uma falsa sensação de proteção.”

Segundo ela, a centralidade da prevenção hoje está na combinação de estratégias.

“Por isso, sempre estimulamos a combinação de métodos, para garantir mais segurança, mas também para que cada pessoa possa definir o que mais lhe convém dentro da sua realidade.”

O que é, afinal, prevenção combinada

A PrEP não surge isolada. Ela integra um conjunto de ações pensadas para reduzir riscos e ampliar o cuidado em saúde sexual.

“A PrEP é uma ferramenta central dentro do modelo de prevenção combinada do HIV e de outras ISTs, que inclui testagem regular, tratamento rápido e oportuno do HIV, uso de preservativos, redução de danos, vacinas, DoxiPEP, consciência do risco e corresponsabilização”, explica Hilton.

“Nenhuma dessas estratégias funciona sozinha. A PrEP não é uma solução isolada ou individual, mas um componente que, quando integrado às demais ações éticas e políticas, reduz drasticamente a transmissão do HIV.”

Mafe reforça que essa visão integrada é fundamental porque a PrEP atua especificamente contra o HIV.

“A PrEP previne apenas o HIV. Por isso, precisamos pensar também nas demais infecções sexualmente transmissíveis, já que se infectar com uma IST pode aumentar o risco de aquisição do HIV.”

PrEP, estigma e a ideia de ‘promiscuidade’

Para os dois especialistas, a associação entre PrEP e “comportamento promíscuo” diz muito menos sobre ciência e muito mais sobre preconceito.

“Esse discurso não tem base científica. Ele tem base moral”, afirma Hilton. “Associar PrEP ou sexo não reprodutivo à ‘promiscuidade’ reforça estigmas históricos, afasta as pessoas dos serviços de saúde e prejudica a resposta efetiva ao HIV e à aids.”

A infectologista Dra. Maria Felipe Medeiros | Foto: Acervo pessoal

Mafe aponta que essa lógica nasce de um conceito que já não se sustenta.

“Essa associação vem de um estigma histórico de que sexo seguro seria apenas sexo com preservativo, o que hoje já é um conceito ultrapassado.”

Hilton complementa destacando que buscar a PrEP é, na verdade, um movimento de responsabilidade.

“O que a ciência séria e comprometida com uma abordagem interseccional mostra é que buscar a PrEP é um ato subjetivo, baseado na consciência de risco e na busca por autonomia sobre a própria saúde sexual e reprodutiva. É uma ferramenta que empodera.”

Mais testagem, mais cuidado, menos transmissão

Longe de piorar o cenário das ISTs, o acompanhamento regular de pessoas em PrEP pode ampliar o cuidado e interromper cadeias de transmissão.

“O acompanhamento de quem usa PrEP é, na verdade, uma oportunidade de ouro para diagnosticar e tratar ISTs precocemente”, explica Hilton. “A recomendação internacional é que usuários façam rastreamento trimestral ou quadrimestral, o que permite identificar ISTs antes mesmo do aparecimento de sintomas, tratar rapidamente e interromper cadeias de transmissão.”

Mafe concorda e acrescenta que o cuidado vai além dos exames.

“Para além da testagem regular, a pessoa usuária de PrEP é estimulada a tomar vacinas para hepatites virais e HPV, passa a conhecer melhor os sintomas das ISTs e, com isso, conseguimos diagnósticos mais precoces e menos complicações.”

Tecnologia só funciona com acesso e equidade

Os especialistas também chamam atenção para o desafio de garantir que as novas tecnologias cheguem a quem mais precisa.

“Ampliar o acesso à PrEP reduz a incidência de HIV, especialmente em populações mais vulneráveis”, afirma Hilton. “No Brasil, estudos mostram que a expansão da PrEP está associada à queda de novas infecções, embora ainda existam barreiras estruturais, como desigualdade regional, racismo, estigma e falta de profissionais capacitados.”

Para Mafe, pensar em inovação sem pensar em acesso é insuficiente.

“É muito importante que pensemos em novas tecnologias de PrEP, mas é essencial também pensar em estratégias para que essas tecnologias cheguem a quem hoje não acessa, como pessoas jovens e pessoas trans.”

Informação como antídoto ao medo

Diante de tantas narrativas alarmistas, os especialistas defendem que a comunicação em saúde seja clara, acessível e baseada em evidências.

“A mensagem é simples e poderosa: a PrEP é segura, eficaz e deve ser integrada a outras estratégias de prevenção”, resume Hilton. “O foco precisa ser a promoção da saúde, não o medo; a autonomia sexual, não o controle moral; e o combate ao estigma, não o reforço de preconceitos.”

Mafe concorda e aponta o caminho.

“Os dados dos estudos precisam ser mais traduzidos em uma informação palatável para quem não tem vivência na área da saúde, para que possamos desmistificar fake news e interpretações equivocadas.”

Em um cenário marcado por desinformação, moralismo e julgamentos, os especialistas são unânimes: falar de prevenção é falar de cuidado, de direitos e da possibilidade de escolhas informadas — sem medo, sem culpa e sem estigma.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dicas de entrevista:

Dra. Mafê Medeiros

Instagram: @mafeinfectologista

Dr. Hilton Alves Filho

Instagram: @drhiltonsaudelgbt

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