PrEP de longa ação amplia opções contra o HIV e desafia serviços de saúde, apontam especialistas

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No 15º Congresso Paulista de Infectologia, Dr. Ricardo Vasconcelos apresentou dados da implementação do cabotegravir no Brasil; Dr. Anton Pozniak analisou o presente e o futuro dos antirretrovirais de longa duração e Dra. Denize Lotufo alertou para desafios de diagnóstico e resistência

A prevenção do HIV está entrando em uma fase de maior diversidade, com medicamentos capazes de ampliar de dois para até seis meses o intervalo entre as doses. Nesta quinta-feira (27), durante o 15º Congresso Paulista de Infectologia, em São Paulo, três especialistas discutiram o potencial dessas novas tecnologias e os desafios para transformar a alta eficácia observada nos estudos em proteção efetiva na vida real. O evento acontece até sábado (29), no Centro de Convenções Frei Caneca.

Foi justamente essa passagem da pesquisa para a vida real que orientou a apresentação do infectologista e pesquisador Dr. Ricardo de Paula Vasconcelos, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Depois das falas do Dr. Anton Pozniak, médico britânico, professor da London School of Hygiene & Tropical Medicine e ex-presidente da International AIDS Society (IAS), uma das principais lideranças globais na área do HIV, e da Dra. Denize Lotufo Estevam, infectologista, especialista em genotipagem e integrante do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Dr. Ricardo lançou a pergunta que conduziu sua exposição:

“Isso tudo que eles falaram na vida real, o que a gente vai fazer com isso?”

A questão resume um dos principais desafios desta nova etapa da PrEP. Medicamentos de longa ação reduzem a necessidade de uso frequente de comprimidos, mas não eliminam a necessidade de adesão, acompanhamento e organização dos serviços.

Quando a escolha muda a adesão

Dr. Ricardo destacou que a PrEP oral continua sendo uma ferramenta altamente eficaz, mas lembrou que tomar comprimidos de forma consistente pode não ser simples para todas as pessoas. “Será que é todo mundo que consegue tomar no mínimo quatro comprimidos por semana? […] Não vamos cair no mesmo erro”, afirmou.

A longa ação surge, portanto, não como substituta da PrEP oral, mas como uma ampliação das possibilidades de prevenção.

Um dos exemplos apresentados foi o cabotegravir de longa ação, antirretroviral administrado por via intramuscular e, após as doses iniciais, aplicado a cada dois meses.

Em um estudo brasileiro de implementação realizado em serviços do SUS, 83% dos jovens que puderam escolher entre a PrEP oral e o cabotegravir optaram pela modalidade de longa ação. No primeiro ano, 94% das aplicações ocorreram dentro da janela prevista, segundo os dados apresentados pelo pesquisador.

Os resultados mostram uma elevada aceitação da estratégia entre a população estudada, mas Dr. Ricardo chamou atenção para uma diferença fundamental entre comprovar que uma tecnologia funciona e conseguir implementá-la em larga escala.

“Quem vai correr atrás das pessoas? Porque ensaio clínico é uma coisa”, provocou, ao discutir atrasos nas aplicações, acompanhamento dos usuários e capacidade dos serviços de manter o calendário adequado.

O infectologista também reforçou que cabotegravir de longa ação não é uma vacina. Trata-se de um antirretroviral e, embora dispense o comprimido diário, continua dependendo da adesão às aplicações periódicas.

Outro ponto levantado foi a necessidade de considerar características concretas das populações atendidas. Em mulheres trans e travestis que utilizam silicone industrial, por exemplo, a aplicação intramuscular pode exigir atenção especial dependendo da região do corpo onde o produto foi colocado. Para Dr. Ricardo, questões desse tipo mostram por que a implementação precisa ser planejada a partir da realidade de quem utilizará a tecnologia.

O futuro já começa a mudar a PrEP

A dimensão científica dessa transformação foi apresentada pelo Dr. Anton Pozniak, que cuida de pessoas com HIV desde os primeiros anos da epidemia e acumula mais de 400 artigos científicos publicados.

Ao percorrer o presente e o futuro dos antirretrovirais de longa duração, Dr. Anton destacou os resultados obtidos com o cabotegravir nos grandes ensaios de prevenção.

Ao comentar os estudos, resumiu que a estratégia “não só funciona, mas também é superior”, referindo-se aos resultados comparativos apresentados nas pesquisas.

Mas Pozniak também chamou atenção para pontos que precisam acompanhar o entusiasmo com as novas opções: reações às aplicações, resistência aos medicamentos, necessidade de comparecimento aos serviços e definição da melhor estratégia para diferentes pessoas.

A apresentação apontou para um cenário em que a PrEP deixa de estar associada a uma única forma de prevenção medicamentosa. Além do cabotegravir bimestral, medicamentos capazes de permanecer ativos por períodos ainda maiores começam a ampliar esse horizonte.

Entre eles está o lenacapavir, administrado por via subcutânea a cada seis meses. Dr. Ricardo destacou a elevada eficácia demonstrada nos estudos e discutiu como um intervalo semestral pode mudar tanto a rotina dos usuários quanto a organização necessária para ofertar a prevenção.

Quando a infecção acontece durante a PrEP

A expansão das novas estratégias também traz desafios para o diagnóstico. Esse foi o foco da Dra. Denize Lotufo Estevam, que discutiu as situações, consideradas raras, em que uma pessoa adquire o HIV enquanto está em uso da PrEP.

O problema exige atenção porque os antirretrovirais podem interferir na dinâmica inicial da infecção, reduzindo a carga viral e alterando o aparecimento dos marcadores utilizados para o diagnóstico. Isso pode tornar a identificação precoce mais complexa.

“A gente tem que ter esse conhecimento para poder lidar com isso da melhor forma”, afirmou.

Outro ponto central é a resistência. “A outra questão é a resistência”, destacou Dra. Denize.

Sua apresentação diferenciou situações em que a pessoa já estava em uma fase muito inicial da infecção quando começou a PrEP, episódios relacionados à adesão inadequada e os chamados casos de breakthrough, em que a aquisição do HIV ocorre apesar do uso adequado da profilaxia.

Esses últimos são raros, mas tornam fundamentais o diagnóstico precoce, o acompanhamento laboratorial e a investigação de possíveis mutações de resistência — área diretamente relacionada à genotipagem.

Estudos recentes do ImPrEP CAB Brasil também têm investigado justamente as dificuldades da detecção precoce do HIV em usuários de cabotegravir de longa ação no sistema público brasileiro.

Discussão já chegou ao SUS

O debate ocorre em um momento decisivo para o Brasil. O cabotegravir para profilaxia pré-exposição ao HIV está em consulta pública na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

A Consulta Pública nº 76/2026 começou em 10 de agosto e recebe contribuições até 31 de agosto.

Durante a apresentação, Dr. Ricardo incentivou a participação e destacou que a discussão não deve ser simplesmente sobre trocar uma modalidade de PrEP por outra.

“Em nenhum momento a gente está pensando que [a longa ação] vai substituir a PrEP oral”, reforçou.

O princípio defendido pelo pesquisador é o da ampliação das escolhas: algumas pessoas poderão preferir continuar com comprimidos, enquanto outras podem se adaptar melhor a medicamentos administrados a cada dois ou seis meses.

Dr. Ricardo encerrou a apresentação sintetizando esse raciocínio: “O melhor método de prevenção para cada indivíduo é aquele que o indivíduo escolhe e é capaz de usar de forma consistente.”

As três apresentações mostraram que a longa ação amplia de forma importante o arsenal de prevenção do HIV, mas também desloca novas questões para o centro da resposta: como diagnosticar rapidamente as raras infecções que podem ocorrer durante a PrEP, como acompanhar possíveis resistências, como organizar os serviços e, principalmente, como garantir que diferentes opções estejam disponíveis para quem precisa delas.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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