Preocupados, ativistas reagem as informações reveladas pelo relatório do Unaids que aponta “uma bomba-relógio humanitária no combate ao HIV

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O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), que lançou na última quinta-feira (11) o relatório “Aids, Crise e o Poder de Transformar”. O documento revela que o colapso dos serviços apoiados por países como os Estados Unidos pode resultar em até 6 milhões de novas infecções e 4 milhões de mortes adicionais entre 2025 e 2029.

A diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, disse que os cortes “não representam apenas uma lacuna de financiamento”, mas sim “uma bomba-relógio humanitária”. O desaparecimento de serviços em diversos países “aconteceu da noite para o dia”, deixando populações inteiras sem acesso a cuidados essenciais.

Reflexos em Moçambique e Angola que tiveram serviços interrompidos e profissionais demitidos

Os cortes do apoio internacional em Moçambique, atingiram mais de 30 mil profissionais da saúde que atuavam na resposta ao HIV. O país é um dos mais dependentes do Pepfar — Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para Alívio da Aids — programa que financia mais de 60% das despesas com a epidemia em diversas nações da África subsaariana e de outras regiões em desenvolvimento.

De acordo com o Unaids, muitos países beneficiários do Pepfar não têm capacidade de substituir esse apoio de forma imediata. O financiamento internacional não cobre apenas medicamentos e insumos, mas também a infraestrutura, a qualificação da força de trabalho e a logística necessária para manter os serviços em funcionamento.

Outro exemplo citado no relatório é Angola, onde os gastos com a dívida pública são quase cinco vezes maiores que os investimentos em saúde. Esse descompasso compromete a sustentabilidade dos serviços de prevenção, testagem e tratamento do HIV e impede o avanço de tecnologias que já estão disponíveis em países de alta renda.

Resposta brasileira é considerada um exemplo positivo: compra de antirretrovirais pelo país é realizada com recursos nacionais

No relatório, o Brasil aparece como caso de sucesso em financiamento doméstico. Toda a compra de antirretrovirais pelo país é realizada com recursos nacionais. O Unaids também destaca os efeitos positivos das políticas de transferência de renda, como o Programa Bolsa Família. Segundo o relatório, entre os beneficiários do programa, a incidência de HIV foi 41% menor e a mortalidade 39% mais baixa.
Apesar dos avanços pontuais, o relatório reconhece que os esforços ainda são insuficientes. Cerca de 25 dos 60 países analisados projetam aumento nos orçamentos nacionais para HIV em 2026 — um crescimento médio de 8%, que não supre a lacuna deixada pelos cortes internacionais.

Agência Aids tem trazido opiniões de ativistas sobre o corte dos investimentos para contribuir com ações que barrem o crescimento do HIV.

Conheça o que pensam e dizem a seguir:

 

Silvia Alóia  – integrante do Movimento das Cidadãs Posithivas

É inadmissível  saber que no mundo, com tantos recursos tecnológicos,  9,2 milhões de pessoas com HIV, não tem acesso, que 630 mil pessoas morreram por aids em 2024 e que temos lugares no mundo que tem 570 infecções por dia. Só no Brasil sabemos que apesar da redução, ainda temos cerca de 11.000 mortes registradas em 2023 e aumento dos casos de HIV em 2024.

Com os cortes de financiamentos, que já foram anunciados na primeira candidatura do Trump, pode acontecer sim, a  “higienização” que muitos queriam e muitos ainda querem. Também acredito que é nesses momentos de crise que surgem oportunidades, como é colocado no relatório do UNAIDS, assim como  e também aprendizados, mas não podemos ignorar que isso, de certa forma, foi anunciado. Estamos atentas e juntas nessa luta pela vida das pessoas vivendo com HIV/AIDS

 

Beto Volpe – ativista, autor do livro- Morte e Vida Posithiva

Infelizmente podemos esperar uma piora na questão do financiamento internacional, já que o governo ?rump vem tomando atitudes isolacionistas e cortando subsídios.. Há que se louvar que países que antigamente negavam a epidemia hoje estão custeando quase que completamente seus esforços nacionais para combater a epidemia.

 

Camille Cabral – médica, fundadora do  PASTT em Paris ( Prevenção, Ação, Saúde e Trabalho para os Transgêneros)

O Banco  Mundial e os BRICS devem financiar a PrEP por injeção semestral isso seria já um ação super prioritária para tentar de jugular a pandemi sobretudo em países pobres.Unaids o que propõe?

O dinheiro está indo pra financiar guerras, guerras guerras!

 


Tadeu di Pietro – ator, diretor,  integrante do Instituto Cultural Barong

A solidariedade é o amor em movimento! No mundo atua l essa frase parece ficção científica. No entanto, cada vez mais se torna necessário pensar sobre ela.

Com a falta de visão de governos , organizações  e  até da sociedade, os recursos para prevenção,  tratamento e esclarecimento sobre o HIV ,vem caindo drasticamente. 

Milhões de pessoas estão morrendo (ou mal sobrevivendo)pela falta de recursos que até então eram dirigidos aos programas a elas destinados.

Se ficarmos na expectativa de que governos, instituições ou organizações tomem a frente da questão , a situação só tende a piorar.

Num mundo onde a competitividade substitui a solidariedade e a individualidade prevalece sobre a coletividade, precisamos sim pensar no título deste texto.

Não podemos esperar que ” Alguém ” faça algo. É hora de seres humanos agirem por e para outros seres  humanos. A desinformação, ignorância, o preconceito e  a passividade podem nos  levar a um caos sem retorno.

Precisamos nos vestir de humanidade e AGIR, sem esperar ou transferir as responsabilidades. Milhões de pessoas precisam de nossa atuação,  consciência e engajamento para fazer frente  a essa crise.

Não estamos falando apenas de recursos ou dinheiro, mas de SOLIDARIEDADE. Cada um tem de  procurar se informar,saber como ajudar, se aliar , compartilhar,  atuar e cobrar a quem de direito .

Nunca somos um, quando nos unimos aos que lutam. Vamos resgatar algo que anda raro , a solidariedade. Assim resgataremos nossa humanidade.por nós e pelos outros. Vamos sim falar de amor, sem vergonha de sermos felizes e repassar esse sentimento aos que precisam.

Agir é nossa melhor forma de amar. Vamos à vida!

 

Mycaela Ciryno – ativista

Os números são alarmantes e o relatório nos faz entender der que sem justiça social não há fim para epidemia de Aids no mundo. Cortes de financiamento, estigmas e desigualdades raciais e de gênero colocam em risco décadas de avanços e para mulheres negras e crianças, isso significa vidas interrompidas, retrocessos, ausência de cuidado e um ciclo de vulnerabilidade que se repete.

Nossa luta pela Cura e outros avanços significativos ficam cada vez mais distante. É lamentável e assustador pensar o impacto que isso causará a  curto e longo prazo. Precisamos retomar a força dos movimentos sociais, sobre tudo de juventude e entender coletivamente qual o melhor caminho a seguir!

 

 

Lucian Ambrós – ativista, fundador do  Posithividades

O problema não é o que os ativistas podem fazer, mas por que ainda se espera que eles resolvam uma crise que é estrutural. São mais de 620 mil crianças sem tratamento e 570 novas infecções por dia entre jovens mulheres. Isso não é novo. Esses números se repetem há anos. O que falta não é informação ou solução, é aplicação prática e responsabilidade política.

Ativistas já fazem o que podem: informam, acolhem, pressionam, constroem redes. Pedir mais é desviar do ponto. A responsabilidade é dos governos, das instituições multilaterais, da indústria farmacêutica e de quem detém poder. As ferramentas existem, mas são barradas por desigualdade, desinteresse político e um sistema que naturalizou o abandono de certas populações.

As redes sociais como Instagram, TikTok e Kawaii são ferramentas ambíguas nesse cenário. Por um lado, permitem que vozes antes invisibilizadas alcancem muitas pessoas. Criadores de conteúdo sobre HIV conseguiram romper bolhas, produzir informação acessível e criar identificação em massa. Por outro lado, essas mesmas plataformas silenciam conteúdos sobre saúde sexual, impõem punições arbitrárias, derrubam perfis, limitam o alcance de temas sensíveis e seguem reféns da moralidade digital. A tecnologia que poderia democratizar a informação também reproduz estigmas e comercializa a ignorância.

O HIV continua avançando onde a vida vale menos. E as decisões que sustentam isso são intencionais. Ativistas resistem. Mas resistir não é o mesmo que resolver. A continuidade desse cenário não é uma falha, é uma escolha. E enquanto o debate seguir preso entre relatórios e hashtags, o essencial continuará fora do centro: a vida das pessoas mais afetadas.

Salvador Côrrea – psicólogo e escritor:

“O poder de transformar a epidemia de HIV e aids está na capacidade de materializar ações de prevenção, de tratamento, de direitos humanos, com garantia dos recursos financeiros necessários para todas as pessoas que necessitem de ações em saúde. Não podemos tratar a saúde como algo secundário. O que é mais importante do que ter saúde e viver bem a vida? É urgente cuidarmos das pessoas com HIV e em situação de vulnerabilidade. Precisamos da manutenção do financiamento para a resposta ao HIV e a AIDS. Temos o desafio de expandir o tratamento, ampliar a prevenção, fomentar novas lideranças, garantir os direitos humanos. Nesse momento, a lógica da escassez e de cortes, discursos de ódio contra diversidades, ataques xenofóbicos parecem querer liderar as decisões globais; querem a morte da resposta exitosa que já tivemos. No entanto, já sabemos o resultado: horror e crueldade. Precisamos manter nossa resistência e força. Por vezes, superar o cansaço de tanto tempo nublado, é o caminho para manter a vida de milhares de pessoas cientes de que o sol haverá de nascer de novo. Que saibamos honrar o êxito do passado, com os pés no agora, cientes de que precisamos seguir vivos, sensibilizando o mundo, de que nossa vida importa! Toda vida importa, com ou sem HIV. Saúde é um direito global! Que venha uma era de solidariedade e força numa transformação em movimento. Como nos lembra Betinho: “O que somos é um presente que a vida nos dá. O que nós seremos é um presente que daremos à vida.”

Dicas de entrevista:

@silvia_aloia

@betovolpehighlander

@ tadeudipietro

@lucianambros

 

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