Proposta de reestruturação do CRT de São Paulo preocupa e provoca inquietação no movimento aids; Governo esclarece que mudanças trarão mais autonomia e agilidade ao centro de referência

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A possibilidade de mudanças e reestruturação na Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo têm tirado o sono do movimento social de luta contra aids. Segundo informações que circulam nas redes sociais e em grupos de whatsapp, o atual governo vai extinguir a Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD), órgão responsável pelo Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo (CRT). Os ativistas temem que o CRT, que existe de 1983 e atende mais de 6 mil pessoas vivendo com HIV/aids, fique subordinando ao Instituto de Infectologia Emílio Ribas ou seja administrado por uma organização social.

“Seria um retrocesso na saúde sexual dos paulistas, inclusive porque o Instituto Emílio Ribas não daria conta de toda essa demanda. O CRT não faz apenas atendimentos e tratamentos em seu prédio na Santa Cruz. Ele municia, coordena e instrui todos os programas regionais e municipais de IST/Aids do Estado de São Paulo. Também faz um serviço importante de saúde da mulher e de LGBTIA+”, escreveu a co-deputada estadual Carolina Iara, em seu perfil no Instagram.

Preocupada com as informações desencontradas, Carolina informou que enviou junto a Bancada Feminista do PSOL um requerimento de informação, pedindo explicações e solicitando que o CRT não seja alterado.

Assim como Carolina, o ativista Américo Nunes, do Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids e do Instituto Vida Nova, também se manifestou. “Sou paciente do CRT e não aceito retrocessos. A luta contra aids não é uma política de governo. O CRT tem sido fundamental para o avanço do enfrentamento a doença no Estado. Sem visibilidade, vontade política e investimento, jamais vamos acabar com a aids como problema de saúde pública.”

Do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, a ativista Jenice Pizão também saiu em defesa do CRT nas redes sociais. “O CRT fez história e continua fazendo para a saúde de nós, pessoas que vivem com HIV/aids. O CRT é nosso, ninguém mexe.”

Outro lado

REGIANE A. CARDOSO DE PAULA - Fórum Brasil ImuneEm entrevista à Agência Aids, a epidemiologista e atual coordenadora da Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD), Regiane Cardoso de Paula, garantiu que não haverá mudanças no CRT. “Nesse momento, o que a Secretaria de Estado de Saúde está discutindo é realmente uma reestruturação que vai transformar as coordenadorias em subsecretarias. Não vai haver extinção da CCD, e sim a criação de uma subsecretaria de Vigilância em Saúde, com as mesmas atribuições, só que num patamar diferenciado. Neste pós-pandemia, a gente tem um legado de levar mais agilidade, resposta e preparação à população de todo o Estado de São Paulo e do Brasil.”

De acordo com a gestora, as autoridades em saúde do Estado estão olhando para o CRT com o desafio de tornar o Centro mais dinâmico, acessível e mais amplo para toda a população que precisa. “Eu quero agradecer a oportunidade de levar essa informação para todos, para que a gente possa ter muita tranquilidade nesse processo e avançar. A ideia do Estado de São Paulo, do Governador Tarcísio e do próprio secretário de Saúde é que a gente possa avançar nesse processo, levando um SUS com mais qualidade a toda a população.”

Ao exemplificar na prática as mudanças, a gestora apontou que o erro da Coordenadoria de Controles de Doenças já começa pelo nome. “Eu não controlo doença nenhuma, na verdade o que a gente faz é a Vigilância em Saúde do Estado de São Paulo. Então, eu estou dando o devido nome a essa subsecretaria. Dentro dessa subsecretaria, eu tenho as minhas outras divisões que vão ter o CRT, que vai ter vigilância epidemiológica, vigilância sanitária, Instituto Adolfo Lutz… Ou seja, teremos mais agilidade para coordenar debaixo de uma mesma subsecretaria toda a vigilância num processo mais didático, de maior entendimento para a população e também de maior resolutividade.”

Questionada sobre a data em que as mudanças ocorrerão, a epidemiologista afirmou que é um projeto para 2024. “Isso está em discussão. Nada vai mudar dentro do CRT, pelo contrário. Ganha-se maior agilidade. Os ambulatórios, as distribuições de medicamentos, tudo vai acontecer com muito mais agilidade. Eles vão ganhar até autonomia para trabalhar esse processo dentro da subsecretaria de Vigilância em Saúde. Todos os atendimentos serão mantidos.”

Ambulatório Trans

A dra. Regiane Cardoso de Paula também garantiu a continuidade do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, que fica no prédio que abriga o CRT. “A gente continua trabalhando na mesma lógica, São Paulo continua sendo um estado que acolhe, que olha e que percebe essa população e dá o atendimento necessário e oportuno. E, para isso, a gente tem que capacitar os serviços e estar em processo de implantação de novos serviços, matriciamento também com outros serviços e outros municípios, para a gente poder atender de forma mais rápida e ágil a essa população.”

A epidemiologista considera o CRT é um dos maiores centros de referência em IST/aids, não só do Brasil, mas também como uma referência para o mundo. “É justamente um espelho para o mundo daquilo que é feito dentro do serviço. O que a gente pretende é aumentar a nossa capacidade, inclusive, de prestação de serviços. Hoje, a nossa principal meta é conseguir trabalhar para ampliar serviços, melhorar a qualidade dos serviços e proporcionar novos serviços. E para isso a gente tem feito uma conversa com a equipe de dentro do CRT.

Referência

Criado em 1983, há 40 anos o CRT é responsável por “elaborar e implantar normas relativas às ISTs/aids, no âmbito do SUS no Estado; elaborar propostas de prevenção; prestar assistência médico-hospitalar, ambulatorial e domiciliar a pacientes com DST/aids; propor e executar ações de vigilância epidemiológica e controle das DST/aids; desenvolver programas de formação, treinamento e aperfeiçoamento, como também desenvolver e apoiar pesquisa científica em seu campo de atuação e promover o intercâmbio técnico-científico com outras instituições nacionais e internacionais”.

Na unidade, que está no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo, trabalham 800 servidores, entre os três turnos. Os profissionais são de diversas áreas: médicos, sanitaristas, infectologistas, pediatras, neurologistas, enfermeiros, dentistas, biologistas, entre outros.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde

Tel.: (11) 3099-8640

Carolina Iara

Instagram: @carolinaiara

Instituto Vida Nova

Tel.: (11) 2297-1516

MNCP

Site: www.mncp.org.br

 

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