Disputando uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, portugueses e espanhóis também se destacam por políticas públicas que ampliaram o acesso ao tratamento da epidemia de HIV
Nesta segunda-feira (6), às 16h (horário de Brasília), Portugal e Espanha entram em campo pelas oitavas de final da Copa do Mundo em busca de uma vaga nas quartas. Além da tradicional rivalidade no futebol europeu, os dois países chegam ao confronto com outro ponto em comum: ambos construíram respostas sólidas ao HIV, combinando acesso ao tratamento, políticas de prevenção e ampliação da testagem.
Nas últimas décadas, Portugal e Espanha investiram em estratégias que contribuíram para reduzir novas infecções e melhorar a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV. Embora ainda enfrentam desafios específicos, os dois países são frequentemente citados como referências na resposta à epidemia.
Portugal mantém queda nas novas infecções
Portugal consolidou uma das respostas ao HIV mais consistentes da Europa. Em 2024, o país registrou 997 novos diagnósticos, permanecendo pelo terceiro ano consecutivo abaixo da marca de mil notificações anuais. Em comparação com uma década atrás, a redução das novas infecções chega a cerca de 35%.
Atualmente, aproximadamente 50 mil pessoas vivem com HIV no país, e cerca de 94% delas conhecem seu diagnóstico, indicador considerado essencial para ampliar o acesso ao tratamento e interromper a transmissão do vírus.
Os resultados são fruto de uma política pública baseada no acesso universal aos antirretrovirais, campanhas permanentes de prevenção e programas de redução de danos. Somente em 2024, o sistema público distribuiu mais de seis milhões de preservativos e quase um milhão de seringas esterilizadas para pessoas que usam drogas injetáveis.
Os investimentos também contribuíram para reduzir em cerca de 43% os casos de aids na última década, consolidando Portugal como uma referência europeia em prevenção, diagnóstico e assistência.
Diagnóstico tardio ainda preocupa
Apesar dos avanços, especialistas alertam que diferentes perfis da epidemia exigem estratégias específicas.
Os homens que fazem sexo com homens, especialmente os mais jovens, concentram aproximadamente sete em cada dez novos diagnósticos. Já entre pessoas heterossexuais com mais de 50 anos, o HIV frequentemente é identificado apenas em estágios mais avançados da infecção, o que aumenta o risco de complicações e dificulta o controle da transmissão.
Espanha fortalece prevenção, mas enfrenta barreiras de acesso
A Espanha também apresenta uma das respostas mais consolidadas da Europa. Segundo o Unaids, cerca de 160 mil pessoas vivem com HIV no país, e 92,5% já conhecem seu estado sorológico.
Em 2024, foram registrados aproximadamente 3.200 novos diagnósticos, enquanto a prevalência entre adultos de 15 a 49 anos permanece em torno de 0,3%.
Os homens que fazem sexo com homens representam cerca de 56% das novas infecções, enquanto as transmissões por relações heterossexuais correspondem a aproximadamente um quarto dos casos.
Apesar da ampla disponibilidade de tratamento e métodos preventivos, especialistas apontam que o principal desafio atualmente é garantir o acesso aos serviços de saúde para todos os grupos populacionais.
Durante o 22º Congresso Nacional sobre Aids e ISTs, realizado em Valladolid, a diretora do Plano Nacional sobre HIV/Aids da Espanha, Julia del Amo, destacou que cerca de metade dos novos diagnósticos ocorre entre migrantes em situação administrativa irregular. Barreiras burocráticas acabam atrasando o acesso aos testes, às consultas e ao início do tratamento.
Combate ao preconceito segue como prioridade
A Espanha também continua avançando na redução do estigma. Em 2025, a Justiça do país reconheceu como discriminatória a decisão de reduzir pela metade a validade da carteira de motorista de uma pessoa apenas por ela viver com HIV. A decisão foi considerada histórica por organizações da sociedade civil e reforçou que o combate à discriminação continua sendo parte fundamental da resposta à epidemia.
Além disso, o país ampliou o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), oferecida gratuitamente pelo sistema público desde 2019 e, mais recentemente, também disponível na versão injetável para pessoas elegíveis.
Dentro de campo, Portugal e Espanha disputam uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo. Fora dele, os dois países mostram que políticas públicas permanentes, acesso universal ao tratamento e investimento contínuo em prevenção seguem sendo ferramentas fundamentais para enfrentar o HIV.
Redação Agência de Notícias da Aids



