
No terceiro dia do XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids, nesta quinta-feira (5), três vozes do Sistema Único de Saúde (SUS) compartilharam a mesma inquietação sobre a resposta brasileira à epidemia de HIV/aids. Para Cristina Abbate, Adriano Queiroz e Marly Cruz, apesar dos avanços tecnológicos e institucionais, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para levar informação e atendimento àqueles que mais precisam.
Os especialistas apontaram que o SUS, embora tenha princípios consagrados de universalidade, equidade e integralidade, segue funcionando de forma desigual. “A gente não necessariamente está tendo um SUS que é universal e equitativo. Na realidade, temos produzido uma universalização excludente”, destacou Marly Cruz, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz.

A crítica é compartilhada por Cristina Abbate, psicóloga e coordenadora de IST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, que atua na área desde os anos 1990. Para ela, ainda há obstáculos estruturais relevantes no acesso à prevenção e ao tratamento do HIV.
“O HIV ainda é um desafio importante, apesar de nós termos avançado bastante. Isso porque, fundamentalmente, nós temos que superar no nosso dia a dia as barreiras de acesso, que se alinham nos degraus do estigma, da discriminação, do preconceito”, declarou.
Ideal vs. real: quem está ficando para trás?
Um ponto de convergência nas falas dos três especialistas foi que a desigualdade racial, de gênero e territorial impede o acesso aos serviços de saúde. Para Adriano Queiroz, coordenador do setor de prevenção de IST/Aids na capital paulista, faltam investimentos que se transvestem em ações específicas, construídas com base nos contextos reais de vida das populações mais vulnerabilizadas.
“A população preta e trans têm mais incidência de HIV. A gente já conhece tudo isso, mas isso não está necessariamente sendo revertido em políticas públicas”, afirmou Silva. Segundo o profissional, “para se pensar em equidade, é preciso reconhecer que existe desigualdade”.
Dados alarmantes sobre a saúde da população vulnerabilizada – que possui a maior incidência de infecções sexuais -, trazidos por Marly Cruz, evidenciam o cenário criticado pelos especialistas. No Brasil, a expectativa de vida de travestis e transexuais é de apenas 36 anos de vida, enquanto o restante da população vive em média 73 anos.

“Nós ainda somos racistas na forma de implementar uma política que tem mais de 15 anos e que é considerada não implementada. A gente hoje tem indicadores assustadores no que diz respeito à morte de mulheres negras, à morte materna”, disse, referindo-se à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.
Para Cruz, o estigma e a discriminação são barreiras para que as pessoas que precisam de cuidados procurem o sistema único de saúde. Segundo Adriano da Silva, o SUS precisa incluir na sua composição equipes diversas e multiprofissionais, que entendam a realidade de quem porta a doença e consigam desmistificar o tema.
Além disso, Marly Cruz também pontuou que o próprio SUS ainda não se organizou efetivamente para atender a todos os grupos sociais. Durante a palestra de Cristina Abati, por exemplo, a psicóloga e especialista em IST afirmou que, em São Paulo, as unidades costumam funcionar das 7h às 19h, horário que dificulta os trabalhadores e trabalhadoras a se diagnosticarem.
Pensando nos obstáculos existentes para que o SUS atinja a equidade, os profissionais listaram projetos pensados para uma maior garantia do acesso à saúde.
Iniciativas que rompem barreiras
Os especialistas também apresentaram soluções práticas que têm transformado o cenário da prevenção e do cuidado em algumas regiões do país. São Paulo, por exemplo, eliminou a transmissão vertical do HIV em 2019 e vem registrando queda de casos pelo oitavo ano consecutivo. “Nosso último boletim mostrou quase 54% de redução e 59% de redução entre jovens, que é o segmento etário mais importante. Esse é o resultado que temos tido por essa combinação de estratégias”, celebrou Cristina.
Ela se refere à chamada “prevenção combinada”, que articula diversas estratégias para alcançar o maior número possível de pessoas com diferentes perfis. Entre elas estão o CTA itinerante, micro-ônibus que circula em regiões periféricas com alta concentração de jovens, população preta, LGBT e profissionais do sexo, e a Estação Prevenção Jorge Beloqui, inaugurada em uma estação de metrô, para facilitar o acesso a testagem e PrEP (medicamentos antirretrovirais que previnem o HIV).
A cidade também implantou o SPrEP no aplicativo e-saúdeSP, um sistema digital de atendimento por aplicativo, disponível todos os dias da semana, com prescrição das profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP). Funciona em horários alternativos aos serviços de saúde tradicionais.
“Depois de quatro décadas, o Brasil está em um outro cenário. Isso demanda respostas diferentes. Modelos do passado, muitas vezes, não atendem mais a realidade atual. A linguagem é diferente, os grupos já se comportam de formas diferentes, e somos nós que temos que nos atualizar”, disse Cristina.
Adriano também apontou avanços importantes. Um deles foi a ampliação da prescrição de PrEP e PEP para enfermeiros, dentistas e farmacêuticos: “Faz toda a diferença no acesso, porque eu não consigo ter todo dia um médico à noite ou numa casa de prostituição, né? Ter um enfermeiro, um dentista e um farmacêutico que medem e compõem a equipe ajuda a gente a conseguir ampliar o acesso e dar mais rapidez na prevenção.”
Enfrentamento ao estigma e cuidado
Com foco no fortalecimento da comunicação e no combate ao estigma, o projeto A Hora é Agora, coordenado por Marly Cruz, promove testagem gratuita, entrega de PrEP em casa, armários digitais com autotestes e ações de engajamento comunitário.
Iniciado em Curitiba, mas expandido a capitais, a ideia é aproximar os serviços da realidade de quem mais precisa, incluindo pessoas que historicamente não acessam os serviços por medo de discriminação ou experiências traumáticas.

“As fotos que vocês estão vendo não são de modelos. São pessoas da cidade: mulher trans, travesti, trabalhadora do sexo, queiram contribuir para trazer sua imagem para o projeto”, disse.
Cristina é direta ao falar do papel da gestão pública: “Nós gestores não temos que ficar dando aula de como é que transa, com quem transa, quando acontece. Isso não é o nosso papel. Nosso papel é o seguinte: você faz o que você bem entender da sua vida, o que for bom para você, mas eu preciso te ajudar oferecendo as ferramentas, os equipamentos e sugestões para que você possa fazer isso da melhor forma possível, trazendo menos risco para sua vida e para a sua saúde.”
Comunicar é agir
A conclusão central da discussão foi a necessidade de mapear territórios, entender práticas sexuais diversas e moldar políticas públicas com base em evidências e marcadores sociais: entender quem é o público, aproximar-se dele e dar-lhe as ferramentas para se prevenir, da forma como preferir, sem imposições.

Os três profissionais da saúde pública convergiram num chamado claro: é possível mudar — e agora. “Hoje nós temos a possibilidade de eliminar a transmissão horizontal do HIV, não é só São Paulo. Se tiver vontade política, a gente consegue com certeza reduzir as infecções por HIV. E baseado nas evidências, porque esses documentos existem. E se eles não existem, nós temos que produzi-los”, disse Adriano.
Bruna Aragão, especial para a Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids


