Se a primeira mesa do evento “Tributo ao Cuidado Ético e às Existências Trans” se debruçou sobre as práticas institucionais do cuidado, a segunda ampliou o debate para o campo da política, da representação e da disputa direta com o Estado. Reunindo gestoras públicas, parlamentares e ativistas trans, a mesa evidenciou como saúde, trabalho, autonomia corporal e participação política estão profundamente entrelaçados.
O debate partiu de uma constatação comum entre as participantes: não é possível falar em saúde sem falar em condições concretas de vida. Trabalho, renda, moradia, segurança e reconhecimento institucional apareceram como determinantes centrais da saúde mental e física das pessoas trans, especialmente em um contexto marcado pelo avanço de discursos antitrans e pelo uso eleitoral da violência simbólica.
Empregabilidade como política de sobrevivência
Ao trazer a perspectiva da gestão municipal, Leonora Áquilla, coordenadora municipal de Políticas LGBTI+ da Prefeitura de São Paulo, destacou que o atual cenário político impõe desafios inéditos à formulação de políticas públicas. Para ela, a ascensão da extrema-direita transformou pessoas trans em alvo estratégico. “Eles descobriram que bater em pessoas trans dá voto”, afirmou, ao descrever um ambiente de retrocesso e insegurança que atravessa inclusive quem ocupa cargos institucionais.

Leonora ressaltou que, diante desse contexto, sua principal bandeira na gestão passou a ser a empregabilidade. Segundo ela, não há possibilidade de cuidado, dignidade ou saúde com o estômago vazio. “De barriga vazia, não dá”, disse, ao defender que o acesso ao trabalho precisa ser tratado como prioridade absoluta dentro das políticas públicas voltadas à população trans. Para a gestora, garantir emprego é garantir sobrevivência e autonomia, além de reduzir a exposição à violência e ao sofrimento psíquico.
A coordenadora também defendeu a ocupação de espaços institucionais como estratégia política. “Quem não se representa é representado. Quem não governa é governado”, afirmou, ao sustentar que pessoas trans precisam estar dentro das estruturas de poder para disputar orçamento, decisões e prioridades. Para ela, a saúde da população trans passa, necessariamente, pela presença trans nos lugares onde as políticas são definidas.
Transmasculinidades, invisibilização e disputa no SUS
A dimensão institucional do debate foi aprofundada por Amanda Paschoal, vereadora da cidade de São Paulo, que trouxe para a mesa a discussão sobre transmasculinidades e saúde mental. A partir da audiência pública realizada por seu mandato no final de 2024, Amanda apontou a invisibilização histórica dessas vivências no SUS e a dificuldade de transformar diagnósticos políticos em políticas públicas concretas.
Para a vereadora, um dos principais entraves está na própria estrutura de poder. Mesmo com representatividade, ela explicou que a atuação parlamentar é atravessada por disputas ideológicas, burocracia e resistência institucional. “Não é sobre a minha pessoa ou sobre a Leonora. É sobre escolhas políticas”, afirmou, ao relatar dificuldades para executar emendas e implementar políticas em uma gestão municipal marcada pelo conservadorismo.

Amanda destacou experiências de enfrentamento dentro e fora do parlamento, como a inclusão de transmasculinidades em políticas de saúde sexual e reprodutiva, a judicialização de projetos barrados pela Câmara e a criação da Casa de Acolhida João W. Nery, voltada exclusivamente para homens trans. Para ela, garantir protagonismo às transmasculinidades exige articulação constante entre mandato, movimentos sociais e secretarias.
A vereadora também ressaltou que a construção de políticas públicas para a população trans é marcada por tensão permanente entre confronto e mediação. “Às vezes é briga, às vezes é diálogo”, disse, ao defender a necessidade de estratégias múltiplas para avançar em um ambiente institucional hostil. Ainda assim, reforçou que o cuidado em saúde mental passa por reconhecer o direito à cidadania plena, independentemente de identidade de gênero ou orientação sexual.
Autonomia corporal
Última das palestrantes, Carolina Iara, co-deputada estadual de São Paulo pela Bancada Feminista do PSOL, trouxe uma análise que articulou saúde, autonomia corporal e direitos humanos a partir das vivências trans e intersexo. Doutoranda em antropologia social e ativista histórica da luta por direitos das pessoas vivendo com HIV/aids, Carolina apontou os paradoxos que atravessam as políticas de saúde no Brasil.
Ao comparar os tratamentos dados a pessoas intersexo e a pessoas trans, Carolina destacou a contradição entre a rapidez com que cirurgias de “normalização” são realizadas em bebês intersexo e a longa espera imposta a pessoas trans adultas para acessar cuidados básicos. “Por que para uma população são dez dias e para outra são dez anos?”, questionou, ao problematizar a autoridade médica sobre os corpos.

A co-deputada também abordou os avanços recentes na política de HIV/aids, como o monitoramento específico da população trans pelo Ministério da Saúde, ao mesmo tempo em que alertou para desigualdades persistentes, especialmente quando atravessadas pelo racismo. Segundo ela, apesar dos avanços, travestis e pessoas trans negras seguem enfrentando maiores barreiras de acesso ao cuidado.
Ao falar sobre infâncias e adolescências trans, Carolina denunciou a perseguição institucional a serviços de saúde e profissionais que atuam com esse público, lembrando episódios como a CPI das crianças trans e resoluções que inviabilizaram atendimentos em hospitais de referência. Para ela, o debate sobre infância revela o limite do reconhecimento de direitos no Brasil, onde crianças ainda são tratadas como propriedade dos adultos.
Ao longo da mesa, ficou evidente que as disputas em torno do cuidado trans extrapolam o campo da saúde. Elas atravessam eleições, orçamento público, moral religiosa, conselhos profissionais e projetos de poder. Ainda assim, as falas também revelaram uma estratégia coletiva construída ao longo de décadas: ocupar espaços, tensionar estruturas e produzir políticas a partir das próprias experiências.
Assim como na primeira mesa, a segunda deixou claro que o cuidado ético não se faz apenas por meio de protocolos. Ele se constrói na disputa política, na representação institucional e na defesa inegociável da autonomia sobre os corpos e as vidas trans — dentro e fora do Estado.
HIV, prevenção e os limites do apagamento
Ao anunciar o encerramento da mesa, a pesquisadora e educadora comunitária Pisci Bruja, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, retomou a centralidade da epidemia de HIV e aids na própria constituição do movimento trans no Brasil. Segundo ela, grande parte da organização política, da produção de conhecimento e das estruturas de cuidado que hoje existem foram viabilizadas por investimentos historicamente vinculados à resposta à aids.

Pisci destacou, no entanto, que esse campo ainda carrega lacunas profundas. Apesar dos avanços, faltam dados epidemiológicos específicos sobre pessoas transmasculinas e pessoas não binárias, o que impede a compreensão real dos problemas de saúde que atravessam esses grupos. “A gente sabe que existe um problema, mas não consegue dimensionar qual é, porque não há dados”, apontou, ao ressaltar que a ausência de informação também é uma forma de apagamento.
A mediadora chamou atenção ainda para as desigualdades na prevenção. Se, por um lado, a epidemia historicamente estigmatizou pessoas trans, responsabilizando seus corpos pela aids, por outro, também apagou mulheres cisgêneras, transmasculinos e pessoas não binárias das estratégias de cuidado e prevenção. Para Pisci, pensar prevenção hoje exige revisitar tecnologias, protocolos e critérios de inclusão em pesquisas clínicas.
Ela destacou que pessoas transmasculinas e não binárias enfrentam barreiras constantes para participar de estudos, muitas vezes reduzidas exclusivamente à possibilidade de gestar. “Parece que vira um útero ambulante”, afirmou, ao criticar uma lógica que impede a produção de conhecimento científico sobre esses corpos. Sem pesquisa, reforçou, não há política pública.
Como exemplo dos limites históricos do sistema, Pisci lembrou que apenas em 2023 foi possível ampliar o acesso à PrEP para mulheres cisgêneras que não são profissionais do sexo, após articulação junto ao Ministério da Saúde. Para ela, o dado revela o quanto o debate sobre HIV, gênero e prevenção ainda é tardio e fragmentado. “O buraco é muito mais embaixo”, concluiu, ao agradecer a presença das participantes e reforçar a urgência de seguir produzindo conhecimento, dados e políticas públicas que contemplem a diversidade real das existências trans.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevista
Leonora Áquilla
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Amanda Paschoal
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Carolina Iara
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Pisci Bruja
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