Plano contra a AIDS até 2030 mobiliza sociedade civil e expõe desafios históricos em abertura de encontro estadual

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Na abertura do XVI EEONG, discussão do plano paulista reforça metas ambiciosas, cobra participação social e escancara entraves no acesso, diagnóstico e prevenção

A abertura do XVI Encontro Estadual de ONG/AIDS de São Paulo, realizada na quarta-feira (15), foi marcada por um chamado direto à ação: eliminar a AIDS até 2030 é possível, mas exige enfrentar desigualdades persistentes e fortalecer a articulação entre governo e sociedade civil. A discussão ocorreu na reunião pré-EEONG, com a apresentação do Plano de Ação Estadual conduzida por Jean Carlos de Oliveira Dantas, do Centro de Referência e Treinamento em DST/AIDS (CRT).

Logo no início, Jean destacou que o plano nasce de um compromisso nacional pactuado entre União, estados e municípios. “Desde as pactuações, foi acordado que cada estado construísse o seu plano”, afirmou, reforçando que São Paulo já faz parte de uma base estruturada, mas precisa alinhar metas mais amplas para atingir os objetivos até 2030.

Segundo Jean, o plano é resultado de um processo coletivo. “Esse plano está sendo construído a várias mãos, com oficinas, com participação da sociedade civil, dos municípios e de diferentes setores”, explicou. A proposta reúne cerca de 35 metas e mais de 100 ações, organizadas em cinco eixos principais, que vão da prevenção ao cuidado integral.

Ampliação da prevenção e acesso à PrEP
Jean ressalta a prioridade de ampliar o acesso à prevenção, especialmente à PrEP. “A gente quer ampliar em 35% o número de usuários de PrEP, com foco nas populações em maior vulnerabilidade”, disse. Para isso, uma das estratégias é descentralizar a oferta. “A ideia é que a PrEP saia do serviço especializado e vá para mais perto das pessoas, nas unidades básicas”, completou.

Apesar das metas ambiciosas, o debate escancarou dificuldades práticas. Profissionais de saúde relataram barreiras no acesso à profilaxia e falhas na organização dos serviços, especialmente fora dos grandes centros. Diante disso, Jean reconheceu que a implementação ainda é um desafio. “A gente precisa capacitar profissionais e fortalecer parcerias com a sociedade civil para que essas estratégias realmente cheguem na ponta”, afirmou.

Diagnóstico precoce e vinculação ao cuidado
O diagnóstico tardio apareceu como uma das principais preocupações. O plano prevê alcançar 95% das pessoas vivendo com HIV diagnosticadas, mas ainda há um número significativo de casos identificados em estágios avançados.

Para enfrentar esse cenário, Jean destacou a importância de ampliar a testagem em diferentes espaços. “É pensar onde a saúde não chega e como a sociedade civil pode ajudar a levar essa testagem até lá”, disse.

Jean também chamou atenção para a necessidade de garantir continuidade no cuidado após o diagnóstico. “Não basta testar. A gente precisa garantir que essa pessoa chegue ao serviço, inicie o tratamento e permaneça nele”, afirmou. E reforçou: “Hoje a recomendação é iniciar o tratamento em até sete dias. Esse é um ponto fundamental para a gente avançar”.

Estigma, discriminação e desafios persistentes
O estigma continua entre um dos maiores entraves no enfrentamento da epidemia. “A gente avançou muito no manejo do HIV, mas a discriminação ainda é um grande desafio”, reconheceu Jean, ao defender ações voltadas à humanização do cuidado e ao combate ao preconceito.

Na área da prevenção, o plano mantém a distribuição em larga escala de insumos, como preservativos e gel lubrificante, mas busca qualificar essa estratégia. “Não é só distribuir. É entender onde está chegando, onde não está e por quê”, explicou.

Comunicação e papel da sociedade civil
A comunicação em saúde também ganha destaque, com a proposta de ir além das campanhas tradicionais. “A ideia é manter um fluxo contínuo de informação, usando redes sociais e diferentes formatos, para dialogar melhor com as populações”, disse.

Ao longo da apresentação, Jean reforçou que o sucesso do plano depende diretamente da participação social. “A gente precisa desse diálogo constante. Esse plano não se sustenta sem a construção conjunta”, afirmou.

Entre o planejamento e a realidade
A mesa deixou evidente que São Paulo possui um planejamento robusto e alinhado às metas internacionais, mas que o maior desafio está na execução. Entre metas e realidades, o caminho até 2030 passa, necessariamente, por transformar diretrizes em ações concretas e acessíveis a quem mais precisa.

O XVI EEONG segue com debates ao longo da semana, reunindo ativistas, gestores e profissionais de saúde em torno de um objetivo comum: fazer com que o fim da AIDS deixe de ser apenas uma meta e se torne realidade.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Dica de entrevista

Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS

(11) 5087-9911

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