A pesquisadora e educadora comunitária Pisci Bruja, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER), de São Paulo, apresentou nesta quinta-feira, durante a 20ª Conferência Europeia de Aids (EACS 2025), a experiência inédita de estruturação de um ambulatório específico para pessoas trans e travestis vivendo com HIV, baseado em um modelo de cuidado integrado, comunitário e afirmativo de gênero.
O trabalho, intitulado “Experiência de estruturação de um ambulatório de HIV específico para pessoas trans no Instituto de Infectologia Emílio Ribas: um modelo de caminho de cuidado integrado”, foi desenvolvido por ela, juntamente com uma equipe multidisciplinar do IIER e evidencia o impacto da escuta ativa, da formação técnica e da participação comunitária na construção de um serviço de saúde mais acolhedor e livre de discriminação.
Cuidado integrado e afirmativo de gênero
A iniciativa teve início em setembro de 2023 e integrou o manejo da infecção pelo HIV aos cuidados de saúde afirmativos de gênero, reconhecendo que a população trans enfrenta barreiras históricas no acesso e na permanência nos serviços de saúde.
O modelo foi construído por meio de reuniões semanais de coordenação multidisciplinar, treinamentos técnicos para profissionais, revisões bibliográficas e consultas diretas com usuárias e usuários trans. O processo foi fundamental para identificar prioridades em saúde e redesenhar fluxos de atendimento que considerassem vulnerabilidades sociais, identidade de gênero e necessidades psicossociais.
Um caminho de cuidado centrado na pessoa

A assistência oferecida pelo ambulatório abrange acolhimento estruturado, consultas médicas, atendimento psicológico, fonoaudiologia e aconselhamento social.
A educação comunitária tem papel central no modelo: a antropologa Pisci Bruja, representante da própria população trans atua como elo entre o serviço e os pacientes, conduzindo ações de engajamento, formação de equipe e educação em saúde — sempre com foco na despatologização das identidades trans e na promoção de um ambiente de cuidado mais seguro e respeitoso.
“A presença da comunidade dentro do processo de cuidado foi essencial. Isso fortalece o vínculo, promove confiança e garante que o serviço seja realmente feito com as pessoas trans, e não apenas para elas”, destacou Pisci, que também é pesquisadora do IIER.
Desafios e inovações institucionais
Durante a implementação, a equipe enfrentou desafios estruturais importantes: a necessidade de garantir o uso do nome social nos prontuários, corrigir lacunas de identificação de gênero, criar mecanismos institucionais para denúncias de transfobia e ampliar a capacitação de profissionais em todas as áreas do hospital.
Para isso, o grupo desenvolveu instrumentos técnicos e administrativos voltados à padronização do cuidado específico para pessoas trans, além de um questionário de mapeamento de conhecimento aplicado aos trabalhadores de saúde — base para expandir a formação a outros setores da instituição.
Resultados e impacto
Com 32 pessoas acompanhadas até o momento, o projeto demonstra que modelos de cuidado integrados e afirmativos são eficazes para promover equidade, melhorar a adesão ao tratamento e fortalecer o vínculo das pessoas trans com os serviços de saúde.
“Esse trabalho mostra que é possível transformar o cuidado em HIV em uma prática verdadeiramente integral, que reconhece o corpo e a identidade de cada pessoa. A população trans enfrenta violências múltiplas e demanda atenção ampla, com foco também em saúde mental e pertencimento”, reforça Pisci.
“Essa conquista é coletiva. A força e a verdade das pessoas trans que atendemos guiam nosso trabalho todos os dias. Agradeço à equipe e ao Instituto de Infectologia Emílio Ribas por apoiarem essa transformação necessária e urgente”, completou a pesquisadora.
Redação da Agência de Notícias da Aids




