Pesquisadores de HIV nos EUA enfrentam cortes bruscos de financiamento no governo Trump

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O NIH está cortando repentinamente financiamentos cruciais, diz Jonathon Rendina, Ph.D., MPH (à direita), diretor sênior de pesquisa de Whitman-Walker.

Um projeto promissor de pesquisa sobre HIV no bairro mais afetado pela epidemia em Washington, D.C., acaba de sofrer um duro golpe. O centro de saúde LGBTQ Whitman-Walker teve o financiamento federal cancelado de forma repentina, mesmo após já ter iniciado a construção de seu novo centro de pesquisa biomédica.

O corte foi feito pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), que em 2022 haviam aprovado um financiamento de US$ 2 milhões para o projeto. O novo centro, localizado no sudeste da capital dos EUA, buscava incluir mais pessoas negras em estudos clínicos sobre o HIV, oferecendo cuidados de saúde e a chance de participar de pesquisas no mesmo local.

Em 2024, autoridades importantes, como a então diretora do NIH, Monica Bertagnolli, e a diretora do NIAID, Jeanne Marrazzo, chegaram a visitar o prédio, sinalizando apoio. No início de 2025, cerca de US$ 667 mil da verba já tinham sido usados. A equipe da Whitman-Walker estava prestes a iniciar as obras quando, em 21 de março, recebeu uma carta anunciando o cancelamento do restante do recurso.

A justificativa foi que o projeto não se alinhava mais com as prioridades do governo. A carta criticava projetos focados em diversidade, equidade e inclusão, afirmando que esses estudos seriam “anticientíficos” e até prejudiciais.

Cortes atingem diversas pesquisas sobre HIV

Esse cancelamento faz parte de uma série de cortes promovidos pelo novo governo Trump. Só na área do HIV, projetos em diferentes frentes estão sendo encerrados:

– Pesquisas básicas sobre o vírus e caminhos para tratamento, prevenção e cura;
– Estudos que ampliam opções de medicamentos;
– Pesquisas sociais que analisam por que certos grupos têm melhores resultados de saúde que outros.

Segundo especialistas, os cortes atingem especialmente estudos que tentam reduzir desigualdades históricas no sistema de saúde — voltados a pessoas negras, LGBTQIA+, imigrantes, mulheres e usuários de drogas.

“É um massacre”, afirma Richard Jefferys, do grupo de pesquisa Treatment Action Group. “Nunca vimos a ciência ser atacada assim por questões políticas.”

John Meade, do grupo global de prevenção AVAC, concorda. Ele relata que bolsas estão sendo cortadas apenas por conterem palavras como “diversidade” ou “equidade”. Ainda não se sabe quantas bolsas já foram canceladas, mas a tendência é preocupante: pode haver aumento nos casos e mortes por HIV e aids nos próximos anos, após décadas de queda.

Pesquisadores iniciantes também são atingidos

Entre os afetados está Nate Albright, que acabou de concluir o doutorado na Universidade Estadual de Ohio. Ele liderava uma pesquisa sobre o uso da PrEP e da doxiPEP por jovens gays e mulheres trans — o estudo recebeu um financiamento de US$ 42 mil. Felizmente, ele já estava finalizando o projeto, mas teme que outros jovens pesquisadores, especialmente negros e LGBTQIA+, desistam da área por medo de não conseguirem apoio no futuro.

“Se os recursos acabam, muita gente vai para a indústria farmacêutica”, diz Albright. “Isso gera uma escassez de dados importantes para a saúde pública.”

Impacto global e futuro incerto

Os cortes também preocupam outros países. O método usado nas vacinas de mRNA contra a covid-19, por exemplo, veio de pesquisas com HIV. Agora, com os EUA se afastando do financiamento científico, cresce o ceticismo internacional.

“Estamos perdendo mais do que dinheiro”, diz Meade. “Estamos perdendo a confiança global. Se amanhã quisermos retomar a cooperação, muitos países vão duvidar da nossa estabilidade.”

A Whitman-Walker está tentando recorrer da decisão e busca outras fontes de financiamento. “Estamos muito perto do início da construção. É uma corrida contra o tempo”, diz Jonathon Rendina, diretor sênior de pesquisa da instituição. A equipe também estuda como reduzir custos do projeto para viabilizar a obra.

Apesar do cenário difícil, Rendina acredita que os cortes vêm de um mal-entendido: “A pesquisa baseada em equidade tenta corrigir injustiças históricas. Não é tendenciosa, é necessária.”

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