Pesquisadores apontam caminhos para ampliar o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao cuidado em HIV/Aids em São Paulo

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Dados, relatos e experiências trazidos no Seminário de Pesquisas em IST/Aids, realizado nesta sexta-feira (28) pela Coordenadoria de IST/HIV da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, mostram uma realidade contundente: enquanto o HIV atinge de forma desproporcional travestis, mulheres trans e população negra, o acesso à PrEP, ao diagnóstico de sífilis e à continuidade do tratamento ainda é limitado — e exige medidas urgentes, sensíveis e estruturais.

A apresentação da pesquisadora Adriana Cezaretto, do NUDHES (Núcleo de Pesquisa em Direitos Humanos e Saúde LGBT+), trouxe um recado urgente: travestis e mulheres trans continuam sendo uma das populações mais afetadas pela epidemia de HIV — e, paradoxalmente, uma das que menos acessa a PrEP.

Ela reforça que, enquanto a prevalência geral do HIV na população brasileira é relativamente baixa, estimativas indicam taxas em torno de 30% entre travestis e mulheres trans, com dados nacionais ainda apoiados em levantamentos de 2008. Adriana sublinhou que há um problema de fundo: não é falta de tecnologia — é falta de acesso e de permanência no cuidado.

E uma das barreiras, segundo ela, está no campo estrutural: o racismo, a transfobia, a desigualdade social e as violações de direitos humanos. Como exemplificou, o próprio uso do nome social é, em muitos serviços, ainda tratada como barreira de acesso. Ela aponta: “uma das questões de direitos humanos é a barreira de acesso […] a maior parte da população que acessa a PrEP é de homens gays e de maior escolaridade — e apenas 2,8% a 3% são pessoas trans” .

Adriana enfatizou que a ciência de implementação deve ser um instrumento político: não basta identificar barreiras individuais, como comportamento e adesão; é preciso compreender os entraves dentro das estruturas do SUS, na cultura institucional, no fluxo de atendimento e na comunicação entre equipes. A falta de acesso a exames, a distância dos serviços e até a dificuldade de pagar uma passagem de ônibus foram relatados como obstáculos concretos.

Ela lembrou que a pessoa trans muitas vezes nem chega ao serviço — porque sabe que será desrespeitada, humilhada, invisibilizada. “Essas questões de dificuldade […] a pessoa sai de casa, tem que pegar ônibus, é distante, ou não tem dinheiro pra pagar. Isso é estrutural” .

Quando a interrupção do tratamento não é uma escolha — é reflexo da desigualdade

A pesquisadora Danielle Davanço do SAE Cidade Líder II, apresentou uma investigação sensível sobre a perda de seguimento no tratamento de pessoas vivendo com HIV. Em 2024, o estado de São Paulo registrou 12% de pessoas em perda de seguimento, sendo que somente na capital foram 3.656 pessoas que interromperam o tratamento no período — um dado alarmante.

Mas ela foi além dos números. Danielle questionou a narrativa biomédica tradicional que costuma culpabilizar a pessoa que abandona o tratamento, apontando que a adesão à TARV não é simplesmente uma escolha individual — mas um fenômeno profundamente atravessado por vulnerabilidade, racismo estrutural, exclusão e sofrimento social.

Ela trouxe um dado preocupante: “as pessoas pretas morrem quase quatro vezes mais por aids do que as pessoas brancas”. Já pessoas pardas morrem quase duas vezes mais do que as brancas .

Além disso, a pesquisa dela evidencia a tensão vivida também pelos profissionais de saúde, que oscilam entre investir no cuidado e sentir impotência diante de interrupções sucessivas. Ela descreve a dor da equipe quando alguém se distancia do serviço após meses de acompanhamento: “o profissional fala, ‘estou investindo tanto’, e às vezes essa sensação é muito difícil” .

Danielle desenvolve um método inovador de pesquisa utilizando rodas de conversa, narrativas construídas coletivamente e análise hermenêutica. Esse método busca algo fundamental: ouvir quem cuida — para melhor entender quem é cuidado.

Sífilis: diagnóstico ampliado, mas ainda com desafios

A coordenadora de diagnóstico da Coordenadoria de IST/Aids, Carolina Marta de Matos, apresentou os resultados da implantação piloto de novos testes para sífilis.

Ela lembrou que o aumento da taxa de detecção não significa, exclusivamente, aumento real da infecção, mas também ampliação da testagem: “uma coisa muito importante é muita testagem para sífilis — e quando a gente aumenta o número de testes, a gente começa a detectar mais” .

Carolina relatou que uma solução tecnológica promissora — um teste rápido capaz de detectar anticorpos treponêmicos e não-treponêmicos simultaneamente — parecia ser o “teste dos sonhos”. No entanto, ao avaliar o desempenho em campo, constatou-se que ele apresentava 34% de falso reagente no marcador não-treponêmico (aquele responsável por indicar infecção ativa). Esse percentual inviabiliza a implementação como política pública: “apesar da alta sensibilidade, o teste apresenta 34% de resultado falso reagente […], apontado como fator desfavorável” .

Ainda assim, o trabalho de Carolina mostra um SUS que pesquisa, testa e aprimora — e que não adota uma ferramenta diagnóstica sem rigor científico.

Máquinas de entrega de PrEP e PEP: inovação, autonomia e perfil dos usuários

Encerrando as apresentações, o pesquisador José Araújo de Oliveira Silva, da Coordenadoria de IST/Aids, apresentou os resultados preliminares do estudo sobre as máquinas de dispensação de métodos de prevenção.

José resgatou o contexto global da epidemia e apontou que, apesar dos avanços, ainda teremos desafios de mortalidade e novas infecções até 2050, segundo projeções matemáticas internacionais.

Ele então apresenta um retrato dos usuários das máquinas de PEP/PrEP:
— em média, adultos entre *23 e 30 anos, majoritariamente residentes na área central da cidade;
— com escolaridade geralmente de nível superior;
— maior concentração entre pessoas brancas.

Os entrevistados relatam que utilizam a máquina por praticidade e sigilo, e a maior parte se desloca até ela em menos de 30 minutos.

Mas o dado mais simbólico da pesquisa talvez seja outro: as máquinas são usadas predominantemente por pessoas que já têm maior capital educacional e social, enquanto permanecem com menor impacto entre as populações invisibilizadas.

O próprio pesquisador reconhece essa limitação: “É um privilégio de esperar. Pessoas com maior escolaridade e renda têm maior facilidade de acesso” .

E ele faz uma provocação final: a máquina é eficiente, moderna e tecnológica — mas sozinha não dá conta de superar a desigualdade que determina o acesso à saúde.

Entre a técnica e o humano: quando a pesquisa encontra o cuidado

Uma fala breve, mas marcante, emergiu durante a discussão de mesa: “a gente não costuma ir embora de lugares onde a gente gosta de estar — quando a gente se sente querido, a gente fica” .

Esse lembrete, colocado no contexto de pessoas que abandonam o tratamento, resume o que atravessa todas as pesquisas apresentadas: antes de ser técnica, a saúde é vínculo. Antes de ser protocolo, é relação. Antes de ser diretriz, é humanidade.

Redacao da Agência de Noticias da Aids

Apoios