Epidemiologista Pedro Hallal, um dos responsáveis pelo estudo Epicovid 2.0, fala com exclusividade ao Saúde com Ciência sobre os dados da pesquisa

De acordo com a pesquisa “Epicovid 2.0: Inquérito nacional para avaliação da real dimensão da pandemia de Covid-19 no Brasil”, entre os entrevistados que não se vacinaram, 32,4% alegam optar por não se vacinar contra a Covid-19 por não acreditar na vacina como motivo. Já outros 31% dos não vacinados acreditam que a vacina contra a doença pode fazer mal. O estudo foi apresentado pelo Ministério da Saúde na última quarta-feira (18).
O Epicovid 2.0 é a maior pesquisa de base populacional sobre a doença no Brasil. Ela foi conduzida em 133 cidades brasileiras, com uma amostra de 33.250 entrevistas, e avaliou o impacto da pandemia sobre a população brasileira. Os resultados são voltados ao histórico de infecções, os impactos socioeconômicos, vacinação e condições pós-covid. O estudo é uma continuação do Epicovid-19, iniciado em 2020, agora focado nos impactos contínuos do vírus na sociedade e na vida das pessoas.
O Saúde com Ciência conversou com o epidemiologista e professor da Universidade de Illinois (EUA) Pedro Hallal, um dos responsáveis pelo estudo, sobre os impactos da desinformação sobre a covid-19 para a população. Confira a entrevista exclusiva.
O que é a pesquisa Epicovid 2.0 e o que ela apresenta de novo?
É muito importante que a gente, depois de ter avaliado o quanto o vírus estava se disseminando no Brasil, lá em 2020, agora, em 2024, avalie o impacto que a pandemia teve sobre a vida das pessoas e sobre a vida das famílias.
Cerca de 15% dos entrevistados registraram morte de um familiar devido à Covid-19. Já 48,6% relataram redução na renda, aspecto que acarretou insegurança alimentar para 47,4%, ou seja, pessoas que não tinham a garantia de prover seu alimento diariamente. Cerca de 34,9% perderam o emprego e 21,5% interromperam os estudos durante a pandemia.
De acordo com a pesquisa, uma das principais causas da hesitação vacinal é a falta de confiança nas vacinas contra a covid-19. Como você avalia isso?
Infelizmente, naquele momento da pandemia, nós tínhamos lideranças políticas no país que disseminavam notícias de que a vacina fazia mal. Hoje o Epicovid 2.0 mostra o impacto que aquela irresponsabilidade cometida por alguns líderes teve sobre a população brasileira.
Nós lidamos com uma vacina que parte da população tem desconfiança porque ouviu durante anos que ela é ruim, que não é segura, que transforma as pessoas em jacaré. Essa irresponsabilidade de disseminar desinformação tem impacto para as famílias brasileiras até hoje.
Outra desinformação espalhada por alguns grupos é a de que a pandemia não existiu, que ela foi inventada. Como podemos esclarecer que a pandemia foi real?
Nós temos o dado de que 15% das famílias brasileiras tiveram algum familiar próximo que morreu durante a pandemia. Então, a simples menção de alguém imaginar que a pandemia não existiu é tão absurda quanto alguém imaginar que a Terra é plana e não esférica.
A pandemia existiu sim e, infelizmente, o Brasil foi um dos países mais afetados. A mortalidade no Brasil foi quatro vezes maior do que a média mundial e o que a pesquisa mostra agora é que essa pandemia trouxe impactos sérios para a vida das pessoas e das famílias brasileiras.
Como a população pode se proteger dos diversos conteúdos falsos que chegam nas redes sociais e nos aplicativos de trocas de mensagens? Alguma dica?
Sempre que a gente recebe uma informação, seja em grupos de mensagem, e-mail ou rede social, é importante buscar de onde veio aquela informação. Tem muita gente usando a desinformação para ganhar dinheiro. A gente sabe que alguns conteúdos bombásticos completamente equivocados geram muitos likes, muitos cliques, então a gente recomenda que as pessoas sempre busquem a fonte de onde surgiu aquele conteúdo.
É importante lidar com fontes confiáveis, com órgãos de imprensa, com especialistas, ou seja, com quem tem credibilidade para falar sobre o assunto. Acontece isso na minha família. Muitas vezes a minha mãe recebe algum conteúdo no WhatsApp e o meu pai me pergunta se é verdade. Eu mostro pra eles. “Vamos clicar aqui na fonte original”. E quando vai na fonte original, eu mostro porque não é verdade. É importante que todas as pessoas façam isso como forma de se proteger de tanta informação falsa sendo disseminada no Brasil, eu diria até de uma forma criminosa.


