Estudo financiado pelo Ministério da Saúde e CNPq reúne pesquisadores em cinco países para compreender como pessoas utilizam a profilaxia pré-exposição ao HIV, quais barreiras enfrentam e como os serviços de saúde respondem à estratégia de prevenção
Embora a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) tenha se consolidado como uma das mais eficazes estratégias de prevenção da infecção pelo HIV, ainda há uma lacuna importante no conhecimento científico sobre a forma como essa tecnologia é vivenciada por quem a utiliza. Questões como o acesso aos serviços, o enfrentamento do estigma, a adesão ao tratamento preventivo e os desafios da gestão da PrEP permanecem pouco exploradas, especialmente na América do Sul.
É justamente para responder a essas perguntas que pesquisadores brasileiros e sul-americanos desenvolvem o projeto “Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para prevenção ao HIV na América do Sul: etnografia das experiências de acesso, uso e gestão”, conhecido como PrEP América do Sul. A iniciativa é financiada pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e propõe um dos mais amplos estudos qualitativos já realizados sobre a PrEP na região.
A pesquisa busca compreender como diferentes contextos sociais, culturais e institucionais influenciam o acesso e o uso da profilaxia, analisando não apenas a perspectiva dos usuários, mas também dos profissionais responsáveis pela implementação da estratégia nos serviços públicos de saúde.
Segundo os responsáveis pelo estudo, os pesquisadores André Luiz Machado das Neves e Kris de Oliveira, embora a eficácia clínica da PrEP esteja amplamente comprovada, compreender a experiência cotidiana de quem utiliza o medicamento tornou-se um desafio fundamental para ampliar seu impacto na resposta à epidemia.
“O debate sobre PrEP costuma ficar muito centrado na eficácia clínica do medicamento, mas ainda sabemos pouco sobre as experiências concretas das pessoas: como elas acessam os serviços, quais estigmas enfrentam, como negociam o uso no cotidiano e de que forma marcadores sociais como raça, gênero, classe, sexualidade e geração atravessam esses processos”, explica André Luiz.
Pesquisa percorre cinco países da América do Sul
O estudo está sendo desenvolvido em 17 municípios distribuídos pelas cinco macrorregiões brasileiras, além de importantes centros urbanos de outros quatro países sul-americanos.
Além do Brasil, participam da pesquisa:
* Buenos Aires, na Argentina;
* Pedro Juan Caballero, no Paraguai;
* Cochabamba e La Paz, na Bolívia;
* Bogotá, na Colômbia.
Ao todo, a expectativa é entrevistar aproximadamente 300 participantes, entre usuários da PrEP e profissionais de saúde envolvidos na gestão e na oferta da estratégia preventiva.
A diversidade dos territórios pesquisados permitirá comparar diferentes modelos de organização dos serviços, identificar barreiras comuns e compreender como aspectos sociais e culturais interferem na implementação da profilaxia em distintos sistemas de saúde.
Etnografia para compreender experiências reais
O diferencial da pesquisa está na abordagem metodológica. Em vez de concentrar-se apenas em indicadores epidemiológicos ou dados quantitativos, o projeto utiliza a etnografia como principal estratégia de investigação.
Após concluir um levantamento das políticas públicas relacionadas à PrEP nos países participantes, a equipe iniciou uma nova etapa do estudo, baseada em observação participante nas unidades dispensadoras da profilaxia e em entrevistas semiestruturadas com usuários e gestores.
Essa metodologia permitirá compreender como o acesso ao medicamento influencia a vivência da sexualidade, as estratégias individuais de prevenção, a construção do cuidado em saúde e a relação das pessoas com os serviços públicos.
Os pesquisadores também investigam como fatores como raça, identidade de gênero, orientação sexual, classe social e geração podem facilitar ou dificultar o acesso à PrEP, contribuindo para a identificação de desigualdades ainda presentes na implementação da política pública.
Evidências para fortalecer políticas públicas
Ao produzir evidências sobre a experiência cotidiana dos usuários e sobre os desafios enfrentados pelos serviços de saúde, o projeto pretende subsidiar o aperfeiçoamento das políticas públicas voltadas à prevenção do HIV na América do Sul.
Os resultados poderão orientar gestores, profissionais de saúde e formuladores de políticas na construção de estratégias mais inclusivas, capazes de reduzir barreiras de acesso, enfrentar o estigma e ampliar a efetividade da PrEP como ferramenta de prevenção combinada.
Mais do que avaliar a disponibilidade do medicamento, a pesquisa busca compreender como essa tecnologia é incorporada à vida das pessoas e de que forma os sistemas de saúde podem oferecer um cuidado mais acolhedor, equitativo e centrado nas necessidades dos usuários.
Outras informações
Dica de entrevista
E-mail: prepamericadosul@uea.edu.br




