Levantamento inédito mostra que a violência atravessa a rotina dos consultórios, mas ainda encontra um sistema de saúde desarticulado, com lacunas técnicas, jurídicas e estruturais
Em um consultório ginecológico, uma queixa aparentemente comum pode esconder uma história de violência. Dor crônica, ansiedade, infecções recorrentes ou silêncio excessivo durante a consulta são, muitas vezes, sinais indiretos de agressões que não chegam a ser verbalizadas. Ainda assim, a maioria dos médicos só aborda o tema quando os indícios são evidentes — ou quando a própria paciente fala.
Esse cenário, longe de ser pontual, reflete um padrão nacional. Um levantamento inédito da FEBRASGO revela que 57,24% dos ginecologistas e obstetras atendem mulheres em situação de violência ao menos ocasionalmente. Apesar disso, 23% admitem não se sentir preparados para conduzir esses casos.
A pesquisa, que ouviu profissionais de diferentes regiões do país — com maior concentração em São Paulo e Minas Gerais — expõe um sistema de saúde que identifica a violência, mas ainda não consegue respondê-la de forma estruturada.
Uma violência que se repete — e nem sempre aparece
Os dados mostram que a violência psicológica ou emocional é a mais frequente nos consultórios, identificada por 82,99% dos médicos. Em seguida, aparecem a violência sexual (50%), física (34,38%) e patrimonial (24,65%).
Mas a natureza dessas violências impõe um desafio: muitas delas não deixam marcas visíveis.
Na prática, isso significa que a identificação depende, em grande parte, da escuta ativa — algo que ainda não está plenamente incorporado à rotina clínica. Segundo o levantamento:
* 46,55% dos médicos só abordam o tema quando há sinais claros
* 26,55% apenas quando a paciente relata espontaneamente
* apenas 14,48% fazem perguntas de rotina sobre violência
O resultado é a subnotificação e a invisibilidade de casos, especialmente os de violência psicológica.
“O médico percebe, mas não sabe como agir”
A dificuldade não está apenas em identificar a violência, mas no que fazer depois.
Quase 60% dos profissionais apontam a fragilidade ou ausência da rede de apoio como principal obstáculo. Outros 44,98% relatam insegurança jurídica. Além disso, 43% dizem conhecer pouco — ou não conhecer — os fluxos de notificação e encaminhamento.
Na prática, o médico se vê diante de um impasse: reconhece a situação de risco, mas não tem clareza sobre como conduzir o caso com segurança.
“Ao apresentar esses dados, reforçamos a necessidade de transformar conhecimento em ação e fortalecer os profissionais”, afirma a presidente da FEBRASGO, Maria Celeste Osório Wender.
Entre o sigilo e a denúncia
Um dos pontos mais sensíveis revelados pela pesquisa é o medo de errar do ponto de vista legal.
Os profissionais relatam dúvidas sobre:
* quando a notificação é obrigatória
* até onde vai o sigilo médico
* como agir sem colocar a paciente — ou a si próprio — em risco
Casos como o de aborto legal, por exemplo, aparecem como situações de alta complexidade, em que a falta de respaldo institucional amplia a insegurança.
Sem orientação clara, muitos médicos optam por não avançar na abordagem — o que pode interromper o cuidado e deixar a mulher desassistida.
Falta de protocolo, excesso de improviso
Outro dado que chama atenção é a ausência de ferramentas práticas para o atendimento. Os profissionais relatam a necessidade urgente de:
* protocolos padronizados
* fluxogramas de decisão
* checklists de atendimento
* diretrizes específicas por município ou região
Hoje, em muitos serviços, a condução dos casos depende da experiência individual do médico — e não de um sistema organizado.
Isso gera desigualdade no cuidado: uma mesma situação pode receber respostas completamente diferentes dependendo do local ou do profissional.
Para além do consultório
A pesquisa também revela que o enfrentamento da violência não pode ficar restrito ao setor saúde. Os médicos apontam a necessidade de:
* integração com assistência social, psicologia e sistema jurídico
* fortalecimento das Delegacias da Mulher
* ampliação de casas-abrigo
* redução da burocracia nos encaminhamentos
Sem essa rede, o atendimento clínico perde efetividade — e o risco para a paciente permanece. Além disso, há uma demanda clara por campanhas públicas mais robustas, com foco em informação e prevenção. A divulgação de canais como o Disque 180 é vista como essencial, mas ainda insuficiente.
Quando a violência é estrutural
O levantamento também amplia o olhar sobre o tema ao incluir desigualdades no acesso à saúde como uma forma de violência.
A dificuldade de acesso a exames, vacinação e acompanhamento adequado impacta diretamente indicadores como câncer do colo do útero e mortalidade materna — condições evitáveis que continuam afetando principalmente mulheres em situação de vulnerabilidade.
Nesse contexto, a violência deixa de ser apenas um ato individual e passa a ser também uma falha do sistema.
O próximo passo: transformar escuta em ação
Com base nos dados, a FEBRASGO pretende avançar para uma segunda fase da campanha #EuVejoVocê, com foco no suporte prático aos profissionais de saúde.
A proposta inclui treinamentos com simulações reais, capacitação sobre abordagem e escuta, educação continuada objetiva e produção de materiais técnicos aplicáveis.
A ideia é simples — e urgente: garantir que, ao identificar a violência, o médico saiba exatamente o que fazer.
Uma oportunidade — ainda não aproveitada
Os dados deixam claro que o sistema de saúde ocupa uma posição estratégica no enfrentamento da violência contra a mulher. O consultório pode ser, muitas vezes, o primeiro — ou único — espaço de contato da vítima com uma rede de apoio. Mas, sem preparo, sem protocolo e sem integração, essa oportunidade se perde.
A violência chega todos os dias aos serviços de saúde. O que o levantamento mostra é que, ainda hoje, nem sempre encontra resposta.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Assessoria de Imprensa – Febrasgo
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