Perda de oportunidades de testagem mantém elevado o diagnóstico tardio do HIV

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Durante a AIDS 2026, especialistas defenderam a ampliação da testagem de rotina e de estratégias comunitárias para reduzir os diagnósticos tardios e melhorar os desfechos clínicos das pessoas vivendo com HIV

Apesar dos avanços no tratamento e da expansão das estratégias de testagem, o diagnóstico tardio do HIV continua sendo um dos maiores obstáculos para o controle da epidemia. Pessoas que descobrem a infecção com contagem de CD4 abaixo de 350 células/mm³ — ou abaixo de 200 células/mm³ nos casos muito tardios — apresentam maior risco de infecções oportunistas, hospitalizações, complicações clínicas e morte.

Esses desafios foram debatidos na sessão “Diagnóstico tardio do HIV: uma barreira para acabar com a epidemia”, durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), no Rio de Janeiro.

Moderada por Dr. Carlos Brites, da Universidade Federal da Bahia, e Dra. Loice Ombajo, da Universidade de Nairóbi (Quênia), a sessão reuniu pesquisadores para discutir desde os mecanismos imunológicos desencadeados pelo diagnóstico tardio até estratégias para ampliar a testagem e melhorar o cuidado às pessoas diagnosticadas em estágio avançado.

Na abertura, Dr. Carlos Brites destacou que o tema permanece central na resposta global ao HIV e ressaltou que a sessão buscaria discutir intervenções capazes de reduzir esse problema e suas consequências clínicas.

Diagnóstico tardio deixa marcas permanentes no sistema imunológico

O infectologista espanhol Dr. Roger Paredes, do Hospital Universitari Germans Trias i Pujol, explicou que os danos causados pelo HIV começam muito cedo e, quando o diagnóstico demora, parte deles pode tornar-se permanente.

Dr. Paredes explicou que a infecção pelo HIV provoca rapidamente lesões importantes na mucosa intestinal, comprometendo a barreira que impede a passagem de bactérias e fungos para a corrente sanguínea. A translocação desses microrganismos ativa continuamente o sistema imunológico e desencadeia um ciclo persistente de inflamação que pode permanecer mesmo após a supressão da carga viral com a terapia antirretroviral.

“Tudo converge para um mecanismo de inflamação crônica autoperpetuante”, afirmou.

O pesquisador destacou que esse processo reduz a capacidade de recuperação do sistema imunológico, favorece a imunossenescência — o envelhecimento precoce das células de defesa — e aumenta o risco de doenças cardiovasculares, alterações hepáticas, neuroinflamação e outras comorbidades. Ele ressaltou ainda que o diagnóstico tardio deixa sequelas que nem mesmo o tratamento consegue reverter completamente.

“Os baixos níveis de linfócitos já estabelecem uma cicatriz duradoura na mucosa e também na arquitetura linfóide, que a terapia antirretroviral não consegue apagar completamente”, disse. “O diagnóstico precoce é a única alavanca que preserva a reconstituição imunológica.”

Ele destacou ainda que homens acima de 50 anos apresentam elevada frequência de diagnóstico tardio e lembrou que “o diagnóstico precoce é a única alavanca que preserva a reconstituição imunológica”.

Ao abordar possíveis intervenções, Dr. Paredes apresentou resultados de estudos sobre o microbioma intestinal, mostrando que pessoas com contagens muito baixas de CD4 apresentam menor diversidade bacteriana intestinal. Em ensaios clínicos, alguns esquemas terapêuticos favoreceram uma recuperação parcial deste microbioma, acompanhada por melhora de marcadores imunológicos e redução da inflamação.

Ao encerrar sua apresentação, deixou uma mensagem direta:

“Diagnosticar precocemente e fazer tudo o que pudermos antes do comprometimento intestinal é o ponto zero. O microbioma é modificável, e isso mostra que podemos agir.”

Oportunidades perdidas de testagem continuam frequentes

Representando a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Dr. Omar Sued concentrou sua apresentação nos fatores que levam ao diagnóstico tardio e nas estratégias para ampliar o acesso ao teste.

Dr. Omar Sued chamou atenção para a persistência do diagnóstico tardio em diferentes regiões do mundo. Dados apresentados durante a sessão mostram que cerca de 40% das pessoas diagnosticadas com HIV na Europa ainda descobrem a infecção tardiamente, enquanto aproximadamente um quarto já chega aos serviços de saúde com doença avançada. Na América Latina, o cenário é ainda mais preocupante.

“Somente nos países latino-americanos, a carga é cerca de 10% maior do que nos países de alta renda”, afirmou. O pesquisador observou que fatores como idade mais avançada, baixa percepção de risco e medo do estigma continuam associados ao diagnóstico tardio, dificultando o alcance das metas globais de controle da epidemia.

Para reverter esse cenário, Dr. Sued defendeu a incorporação da testagem rotineira em todos os níveis da assistência à saúde. Ao apresentar experiências internacionais, lembrou que a recomendação de oferecer o teste de HIV de forma universal existe há duas décadas nos Estados Unidos e vem produzindo resultados expressivos.

“Todas as pessoas entre 13 e 64 anos deveriam receber a oferta de um teste de HIV, sem necessidade de preocupações específicas”, destacou. “Muitos estudos mostraram que a testagem de rotina era custo-efetiva, mesmo em áreas com prevalência de HIV tão baixa quanto 0,1%.” Nos Estados Unidos, acrescentou, a estratégia contribuiu para reduzir a proporção de diagnósticos tardios de 40% para 22%, além de diminuir casos de doença avançada e mortes relacionadas ao HIV.

O infectologista ressaltou ainda que ampliar a oferta do teste exige mudanças estruturais nos serviços de saúde e não apenas capacitação dos profissionais. “Isso não é falta de informação, e isso não pode ser resolvido apenas com treinamento. Precisamos mudar o sistema de forma simples”, afirmou, defendendo a integração do teste de HIV aos exames de rotina e aos fluxos clínicos para reduzir as oportunidades perdidas de diagnóstico.

“A maioria das pessoas teve uma consulta clínica dentro do ano anterior ao diagnóstico de HIV, mas o médico perdeu a oportunidade de realizar o teste.”

Para ele, o problema não se resolve apenas com treinamentos.

“Isso não é falta de informação. Precisamos mudar o sistema de forma simples.”

Entre as medidas sugeridas estão incorporar automaticamente o teste de HIV aos exames laboratoriais de rotina, integrá-lo aos fluxos clínicos e oferecer retorno às equipes sobre o desempenho da testagem.

Outro ponto enfatizado foi o combate ao estigma.

“Normalizar o teste de HIV, proteger a confidencialidade, criar espaços seguros e treinar a equipe em cuidados culturalmente sensíveis podem ajudar a reduzir o estigma e a discriminação.”

Dr. Sued também destacou o papel das estratégias comunitárias para ampliar o acesso ao diagnóstico, especialmente entre populações que enfrentam maiores barreiras para chegar aos serviços de saúde. Como exemplos bem-sucedidos, citou a distribuição de autotestes pela internet, unidades móveis de testagem e ações conduzidas por organizações comunitárias, iniciativas que, segundo ele, conseguem alcançar muitas pessoas que nunca haviam feito o teste de HIV.

“O teste liderado pela comunidade é uma das melhores maneiras de alcançar as pessoas mais vulneráveis”, afirmou. No entanto, ressaltou que essas iniciativas precisam estar articuladas com os serviços de saúde, contar com financiamento sustentável e garantir que o atendimento não se encerre com o resultado do exame. “O teste não termina com o resultado. É fundamental garantir o vínculo com o cuidado e o início rápido do tratamento”, enfatizou.

Ao encerrar a apresentação, Dr. Sued reforçou que o diagnóstico tardio continua sendo frequente e alertou para a necessidade de ampliar o acesso à testagem por meio de modelos mais simples e acolhedores. “O teste precoce com bom vínculo ao tratamento e acompanhamento previne a doença avançada pelo HIV e salva vidas”, afirmou. Em seguida, defendeu mudanças na organização dos serviços para facilitar o acesso ao diagnóstico: “Precisamos, urgentemente, de modelos simples e livres de estigma que incluam ferramentas digitais para facilitar o teste e reduzir o diagnóstico tardio.”

Mesmo com tratamento, impactos permanecem

Encerrando a sessão, o infectologista Dr. Georg Martin Norbert Behrens, da Faculdade de Medicina de Hannover, apresentou evidências de que o impacto do diagnóstico tardio vai muito além do momento em que a infecção é descoberta. Pessoas que iniciam o tratamento em estágio avançado convivem com uma série de desvantagens clínicas, incluindo maior tempo de exposição ao vírus antes do diagnóstico, pior resposta imunológica à terapia, maior risco de transmissão, aumento das complicações relacionadas ao HIV e custos significativamente mais elevados para os sistemas de saúde.

“Há muitas desvantagens no diagnóstico tardio. Há um prognóstico clínico pior. Há respostas inferiores ao tratamento”, resumiu. O pesquisador acrescentou que esses pacientes também apresentam “mais eventos adversos, maior risco de não recuperação imunológica e um período mais longo de transmissão, porque permaneceram infectados por mais tempo antes do diagnóstico”.

Ao apresentar dados de estudos realizados na França, nos Estados Unidos e em países europeus, Dr. Behrens mostrou que as consequências do diagnóstico tardio podem persistir durante muitos anos, mesmo quando a terapia antirretroviral consegue controlar completamente a replicação do HIV. A recuperação das células CD4 permanece limitada em parte desses pacientes, comprometendo o prognóstico a longo prazo.

“O que esses estudos mostram é que, se a recuperação da contagem de células CD4 foi prejudicada pelo diagnóstico tardio, ela continua baixa anos depois, mesmo com terapia antirretroviral bem-sucedida”, explicou. Entre pessoas que permanecem com baixas contagens de CD4, o risco de morte — tanto por causas relacionadas à AIDS quanto por doenças crônicas não relacionadas à AIDS — pode ser até sete vezes maior em comparação com aqueles que conseguem uma recuperação imunológica mais robusta.

O especialista destacou ainda que o benefício clínico aumenta à medida que a recuperação imunológica é maior, reforçando que não existe um “limite ideal” a partir do qual níveis mais elevados de CD4 deixem de trazer vantagens. “Às vezes concluo, a partir desses dados, que não é possível ter células T CD4 em excesso”, afirmou. Ele acrescentou que pessoas que conseguem atingir contagens mais elevadas de CD4 após o tratamento apresentam risco progressivamente menor de mortalidade, uma recuperação que se torna muito mais difícil quando o HIV é diagnosticado tardiamente.

Ao discutir estratégias terapêuticas, o especialista lembrou que diversos estudos tentaram melhorar a recuperação imunológica por meio de diferentes medicamentos e esquemas, mas poucos apresentaram benefícios clínicos consistentes.

Uma evidência, entretanto, permanece sólida.

“Iniciar mais cedo com a terapia antirretroviral foi favorável.”

Ao longo da sessão, especialistas convergiram em um mesmo ponto: reduzir o diagnóstico tardio é uma condição indispensável para avançar rumo ao fim da epidemia de HIV. A ampliação da testagem, o enfrentamento do estigma, o fortalecimento do vínculo imediato ao cuidado e o início precoce da terapia antirretroviral foram apontados como estratégias essenciais para evitar danos irreversíveis ao sistema imunológico, reduzir a mortalidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV.

Embora novas pesquisas sobre biomarcadores, inflamação e recuperação imunológica tragam perspectivas promissoras para o manejo clínico, a principal mensagem da sessão foi clara: quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de preservar a saúde, interromper a transmissão do vírus e alcançar melhores desfechos individuais e coletivos.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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