
O e-book “JuventudeS e Saúde: Diálogos Combinados – um diálogo entre jovens da periferia, profissionais de saúde, professores e pesquisadores sobre prevenção e promoção em HIV/aids no território do Grajaú em São Paulo” é produto de projeto de pesquisa sobre acesso às ações de prevenção em HIV/aids, que permite troca de experiências, ampliação de conhecimento e formação de redes.
A publicação foi organizada pelos pesquisadores Marco Akerman e Hevelyn Rosa, e executada pelo Centro de Estudos, Pesquisa e Documentação em Cidades Saudáveis (Cepedoc Cidades Saudáveis), sediado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP USP) e centro colaborador da Organização Pan-americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) em Cidades Saudáveis e Promoção da Saúde.
De acordo com o organizador da publicação Marco Akerman, professor da FSP USP e coordenador da pesquisa, o e-book possibilita a transmissão do conhecimento para audiências não especializadas, baseado no conceito em inglês knowledge translation (tradução de conhecimento), importante para a implementação de políticas e para a criação de diálogos conversacionais. “O e-book tem esse objetivo, de ser um dispositivo de conversa com a juventude, para criar diálogos da juventude com os profissionais de saúde, com os professores das escolas públicas e privadas, e com a sociedade”, explica.
A pesquisa analisou e desenvolveu “ações de reconhecimento e enfrentamento das barreiras e identificação de potencialidades de acesso à rede de serviços de saúde referentes à prevenção de HIV/Aids, a partir da percepção de jovens e profissionais de saúde da Rede de Atenção à Saúde do município de São Paulo”.
Entre os resultados da pesquisa, é possível destacar que quase metade dos profissionais das Unidades Básicas de Saúde (UBS) afirmou não ter sido capacitada para prevenção de HIV/aids; há desconexão entre os profissionais de saúde e os jovens, na linguagem e na visão de mundo; e que parte dos profissionais culpabilizam e julgam o comportamento sexual dos jovens.
Além disso, a distância geográfica entre os jovens e o serviço é vista, por um lado, como algo positivo, pois dá mais privacidade e, por outro lado, é vista como empecilho, por conta da dificuldade do acesso. O jovem também enxerga a UBS como estigmatizante e “coisa de velho”. Em regiões de maior vulnerabilidade social, a escola aparece como principal cenário e espaço de trocas para “possíveis diálogos sobre prevenção e sexualidade”.
Em questionário aplicado pela equipe da pesquisa no Grajaú sobre HIV/Aids, as respostas demonstram que há “preocupação da juventude sobre o tema, percebemos que existe uma certa ideia de como as coisas funcionam, mas também muitas dúvidas sobre o atendimento e a prevenção”. A principal fonte de informação se dá pela internet ou pela escola e a maioria dos jovens dizem “não saber/não ter certeza se os exames são feitos gratuitamente”.
Ainda de acordo com a publicação, “mesmo com o volume de informação, tanto na escola quanto no bairro, a maioria não fez algum exame diagnóstico de HIV/Aids ou chegou a usar os serviços. Falando sobre prevenção, a camisinha é em disparada o método mais conhecido de prevenção, mas Profilaxia Pós-exposição (PEP) e Profilaxia Pré-exposição (PrEP), a esmagadora maioria não tinha ouvido falar ou usado”.
A falta de informação e a necessidade de educação sexual podem ser percebidas em fala de jovem de 23 anos, durante uma conversa com a equipe do projeto sobre prevenção ao HIV/aids. “Hoje em dia a gente vive num momento de desinformação total, muita fake news, muita gente colocando coisa no WhatsApp que nem sabe o que está falando. Então eu acho legal, por exemplo, nas escolas você ter educação sexual. Eu acho legal a gente trabalhar isso dentro da família. Acho legal, que nem eles fazem, hoje em dia você vai pegar um ônibus num terminal e tem uma caixa de camisinha e isso é legal para caramba! Mas acho que a desinformação é o maior inimigo que a gente tem”.

A realização da pesquisa permitiu a construção de uma rede entre os profissionais de saúde e as escolas para tratar de ações de prevenção de jovens em HIV e, além disso, a partir do desenvolvimento das ações, os profissionais foram capacitando-se mutuamente, ampliando os conhecimentos sobre prevenção combinada e as especificidades dos serviços, o que contribui para a diminuição do estigma sobre sexualidade e HIV/aids. Os profissionais de saúde também puderam aprender com os profissionais da educação sobre escuta e diálogo com os jovens.
O ebook pode ser acessado online aqui.
Maria Thereza Reis, especial para a Agência Aids


