Os medicamentos antirretrovirais que previnem o HIV e o mantêm sob controle foram transformadores, mas uma cura tem sido um objetivo buscado há muito tempo.
Um estudo pequeno, mas muito aguardado, mostra um fio de esperança no longo esforço para controlar o HIV sem medicação e buscar uma cura para um vírus que ataca células imunológicas.
Pesquisadores deram a 10 pessoas com HIV um regime complexo de imunoterapias experimentais e, depois, interromperam os comprimidos diários que mantinham o vírus sob controle. Em seis participantes, o vírus voltou lentamente e permaneceu em nível baixo por meses, e o sistema imunológico de uma pessoa manteve o vírus sob controle por mais de um ano e meio — dando esperança aos cientistas de que eles possam otimizar a abordagem para criar uma cura.
Em comunicado recente, a OMS pediu para que a prevenção e o tratamento do HIV sejam tratados como prioridade mundial
“É provocador, mas faço estudos de interrupção de tratamento há 30 anos e isso é inesperado e sem precedentes”, diz Steven Deeks, professor de medicina da Universidade da Califórnia em São Francisco e um dos líderes do estudo. Ele e outros cientistas foram rápidos em alertar que isso é um avanço promissor, não uma solução. O estudo pequeno não incluiu grupo de controle, então serão necessários mais estudos para confirmar e detalhar esse sinal empolgante.
“Estou muito animada com os achados. O estudo, embora pequeno, irá impulsionar novas direções no campo”, escreveu Sharon Lewin, diretora do Instituto Doherty da Universidade de Melbourne, em um e-mail. “Isso é algo de que o campo precisa urgentemente.”
Para você
Em 2024, a OMS contabilizou 1,3 milhão de novas infecções por HIV; dezembro é o mês de conscientização sobre prevenção e tratamento da Aids.
Mais de 40 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Os antirretrovirais que previnem o HIV e o mantêm sob controle foram transformadores, mas a cura é um objetivo buscado há muito tempo. Controlar o HIV com medicamentos exige que as pessoas tomem remédios por toda a vida, o que significa que precisam de cuidados de saúde consistentes e acesso aos medicamentos.
Tom Perrault, 60, tomava um comprimido diário desde 2005. Ele participou do ensaio da UCSF e, depois de receber uma “mistura completa” de imunoterapias, parou de tomar sua medicação diária no início de julho de 2021.
“Ele não voltou em julho, não voltou em agosto, não voltou em setembro, não voltou em outubro”, lembra Perrault. “De repente, eu pensei: ‘Meu corpo está suprimindo. Acho que está funcionando. Isso está superando as expectativas deles.’”
Ele estava embarcando em um avião naquele novembro para voltar para casa e passar o Dia de Ação de Graças com a família quando viu uma chamada perdida de médicos da UCSF. Seu coração afundou. Ele ligou quando pousou na Virgínia, apenas para descobrir que o vírus havia retornado. Apesar do revés, ele diz que o estudo foi uma revelação.
“Fiquei surpreso com o nível de emoção”, comenta Perrault. “De repente, eu ousei ter esperança. Você quer ter esperança. Que presente isso seria para o mundo se — e quando — isso funcionasse.”
Pesquisadores na Alemanha detalham o estudo de caso da sétima pessoa conhecida a entrar em remissão prolongada do HIV após receber um transplante de medula óssea. Desde 2009, quando o primeiro “paciente de Berlim” foi aparentemente curado do HIV após um transplante para tratar leucemia, esses casos têm capturado a atenção mundial porque mostram o que é possível. Mas transplantes de medula óssea são procedimentos arriscados, e uma cura depende de doadores que carregam uma mutação rara que bloqueia a capacidade do vírus de entrar nas células imunológicas.
Outro artigo se concentra em desvendar o motivo biológico pelo qual algumas pessoas que têm HIV e recebem um tratamento experimental que mira o vírus conseguem controlá-lo a longo prazo, sem medicação adicional.
O ensaio liderado por Deeks foi um experimento intensivo, exigindo cerca de 60 visitas à clínica ao longo de dois anos e a cooperação de vários grupos de pesquisa e empresas farmacêuticas. Ele reuniu três abordagens de imunoterapia — medicamentos que ativam e moldam a resposta imunológica da pessoa.
“Este foi um estudo aguardado há muito tempo, e que manteve o campo em atenção”, comentou Javier Martinez-Picado, professor pesquisador do IrsiCaixa, um instituto de pesquisa em HIV sediado em Barcelona. Em um e-mail, ele disse que os resultados eram empolgantes e altamente promissores, porque são uma prova de conceito que pode aumentar a compreensão dos cientistas sobre o que permite que algumas pessoas controlem o vírus após o tratamento ser interrompido.
Primeiro, as pessoas receberam uma vacina experimental destinada a acionar células imunológicas chamadas células T para combater o vírus em seu corpo. Depois, elas receberam dois anticorpos amplamente neutralizantes — medicamentos que atacam o HIV e já foram testados também para prevenção — além de um medicamento para ativar o sistema imunológico. Em seguida, receberam outra rodada de anticorpos e pararam de tomar os comprimidos diários que mantinham o vírus sob controle.
A abordagem foi testada em um estudo com macacos que mostrou que a maioria dos animais controlou a versão símia do HIV.
“A ideia é que, se você aumentar o controle imunológico do vírus, então poderá prevenir ou desacelerar o retorno viral depois que parar a terapia antirretroviral”, explica Dan Barouch, diretor do Centro de Pesquisa em Virologia e Vacinas do Beth Israel Deaconess Medical Center. Ele liderou o estudo com primatas. Seu laboratório também conduz um ensaio clínico testando combinações de imunoterapia em pessoas e espera divulgar resultados no próximo ano.
Barouch observa que, por causa da falta de grupo de controle, não é conclusivo que o retorno viral tenha sido mais lento nas seis pessoas do estudo de São Francisco. Mas, para ele, o mais intrigante foi o fato de os pesquisadores terem descoberto que os pacientes que aparentavam controlar parcialmente o vírus tiveram uma resposta inicial em uma população específica de células T.
“Elas estavam prontas para atacar o vírus à medida que ele surgia”, informa Rachel Rutishauser, imunologista e infectologista da UCSF e líder do estudo. “Não estamos defendendo que este seja o regime terapêutico a ser levado para a clínica. … Podemos começar a aprender e pensar em como tornar as células T melhores.”



