
Com mais de 3.500 pessoas vivendo com HIV/aids, Pelotas (RS) ocupa a 34ª posição entre os 100 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes com maior impacto da epidemia, segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/aids de 2024. Frente a esse cenário, o município lançou o TelePrEPPel, serviço de telemedicina vinculado ao Departamento de Telemedicina da Secretaria Municipal de Saúde, para facilitar o acesso à PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e à PEP (Profilaxia Pós-Exposição) ao HIV.
A PrEP ofertada no SUS é um comprimido tomado diariamente por pessoas que não vivem com HIV, mas desejam se prevenir do vírus. Já a PEP é uma medicação de uso emergencial que deve ser iniciada em até 72 horas após uma situação de risco, como uma relação sexual desprotegida.
Nos primeiros meses de 2024, o uso dessas tecnologias de prevenção tem crescido: 353 pessoas iniciaram PrEP na cidade no último ano, sendo que 247 seguem em uso atualmente. No mesmo período, 616 pessoas usaram PEP. Desde a criação do serviço, foram registrados 142 atendimentos pelo CTA, com 16 inícios de PrEP e 5 de PEP.
Coordenado pelo infectologista Hilton Luís Alves Filho, o TelePrEPPel utiliza o WhatsApp como canal direto com a população e já começa a impactar a forma como o cuidado em HIV/aids é ofertado na região. A seguir, confira a entrevista na íntegra com o médico responsável pelo serviço.
O que é o TelePrEPPel e como ele funciona na prática?
O serviço está vinculado ao Departamento de Telemedicina da Secretaria Municipal de Saúde de Pelotas, atendendo por aplicativo de mensagens WhatsApp (53) 3284-9526. Disponível para atendimento a toda população de Pelotas. O usuário será acolhido, terá sua demanda analisada pelo profissional – enfermeira ou médico – e aquelas e aqueles com indicação de uso de PEP ou PrEP serão encaminhados ao atendimento presencial pela equipe multiprofissional no CTA. Cabe, também, ao TelePrepPel, o teleacompanhamento daqueles que iniciaram o uso da PEP e busca ativa dos usuários em descontinuidade da PrEP. Permitindo menores taxas de descontinuidade no uso da PrEP, e manejo dos efeitos colaterais da PEP.
Qual é o horário de atendimento?
Atendimento de segunda a sexta-feira, das 08 às 19h.
Quem poderá utilizar o serviço? É necessário algum tipo de cadastro prévio? Como é realizado o acolhimento inicial dos usuários pelo TelePrEPPel?
Sim, qualquer pessoa pode entrar em contato com o TelePrEPPel. Não é necessário cadastro prévio. À medida que as dúvidas são sanadas e o vínculo é feito, é oferecido formato de teleconsulta por vídeo; caso o usuário não queira, é mantido o formato por mensagens. São solicitados os dados pessoais e os encaminhamentos são dados, por exemplo, se for uma exposição sexual sem proteção e há indicação de PEP, avalia-se a janela de atendimento de 72h. Caso esteja se esgotando, o usuário é encaminhado ao serviço de urgência e emergência (UPA ou PS). Caso haja tempo hábil, o usuário é encaminhado ao CTA.
Quem compõe a equipe responsável pelo atendimento?
A Equipe do CTA é formada pela enfermeira Manuela Vaz Corral, farmacêutica e bioquímica Ana Paula de Oliveira Real e médico infectologista Hilton Luís Alves Filho, com a parceria da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), por intermédio do Programa de Residência de Medicina de Família e Comunidade e projetos de extensão e Curso de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Da direita pra esquerda: Enfa. Manu, Dr. Hilton, Residente MFC Eveline Seidel, Acd.Psicologia Arthur Cenci e Farmacêutica Ana Paula Real
Como é feita a análise da demanda e a indicação para PrEP ou PEP?
As demandas são analisadas sob a perspectiva da identificação de vulnerabilidades interseccionais, para além da identificação das noções de populações-chave e prioritárias. Uma das nossas peças publicitárias já prevê um mini roteiro de avaliação:
A PrEP é para mim?
* Você tem mais de 15 anos e esquece ou nem sempre usa camisinha na hora do sexo (anal ou vaginal)?
* Você já precisou usar a PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV)?
* Você já teve alguma Infecção Sexualmente Transmissível (IST), tipo sífilis, clamídia, gonorreia?
* Você já fez sexo em troca de dinheiro, objetos de valor, drogas, moradia, ou outro tipo de benefício?
* Você faz uso de substâncias (metanfetaminas, Gama-hidroxibutirato (GHB), MDMA, cocaína, poppers) na hora do sexo para ter mais prazer, melhorar e/ou facilitar as experiências sexuais?
* Você quer usar PrEP para poder transar sem medo de se infectar pelo HIV?
Se respondeu “Sim” para qualquer uma dessas perguntas, a PrEP pode ser uma boa forma de prevenção para você!
Como é garantido o encaminhamento para o atendimento presencial no CTA?
No CTA trabalhamos com dois formatos de acolhimento: os agendamentos de segunda a sexta-feira das 14h às 18h30 e atendimento por livre demanda, por ordem de chegada, das 13h às 19h.
De que forma o TelePrEPPel irá acompanhar os usuários em uso de PrEP?
Os usuários de PrEP são acompanhados por planilha própria do serviço e relatório do SICLOM dos usuários em descontinuidade, com busca ativa no 15º dia após primeira retirada e sempre que não comparecem na consulta de retorno agendada.
Como será realizada a busca ativa dos usuários que iniciaram a PEP ou estão em seguimento de PrEP?
Os usuários que iniciaram a PEP, seja no CTA, seja nas unidades de urgência e emergência, são incluídos na planilha de telemonitoramento, orientados a entrar em contato com o TelePrEP Pel ou comparecer ao CTA se houver efeitos colaterais ou dúvidas sobre a medicação.
O serviço também fará o monitoramento de possíveis efeitos colaterais dos medicamentos?
Sim, com teleconsultas de enfermagem e, se necessário, consultas médicas presenciais no CTA.
Quais os principais desafios para garantir a adesão contínua ao uso de PrEP e PEP?
Diversos fatores se interrelacionam e tornam o desafio da adesão à PEP, e especialmente à PrEP, multifacetado, especialmente quando se trata de converter uma estratégia conhecida em prática sustentável no cotidiano dos usuários. Destaco alguns dos principais desafios:
1. Estigma e preconceito:
O estigma e o preconceito associados ao HIV e à aids, que atravessam a PrEP, bem como aquele relacionado à identidade de gênero e orientação sexual, pode dificultar que pessoas em situação de vulnerabilidade busquem e mantenham o uso contínuo desses métodos. O medo do julgamento ou da discriminação, tanto na comunidade quanto no ambiente dos serviços de saúde, afeta diretamente a confiança dos indivíduos para aderirem às profilaxias e permanecerem no tratamento.
2. Desafios estruturais no acesso e na oferta de serviços:
O funcionamento dos sistemas de saúde, em especial em regiões periféricas ou do interior, enfrenta barreiras como infraestrutura deficiente, disponibilidade desigual dos serviços e falta de recursos humanos capacitados. A descentralização e a organização dos serviços — incluindo a oferta de telemedicina, como o TelePrEPPel, e a flexibilização dos atendimentos — são imprescindíveis para superar as desigualdades regionais.
3. Informação, comunicação e educação em saúde:
A propagação de informações claras e precisas sobre os benefícios, o modo de uso e a segurança do PrEP e da PEP é fundamental. Campanhas educativas, adaptadas aos diferentes contextos culturais e sociais, são essenciais para informar, reduzir desinformações e inserir a prevenção do HIV na formação de diversos profissionais de saúde.
4. Acompanhamento e suporte contínuo:
Tanto o PrEP, que demanda uso regular, quanto o PEP, que exige ações imediatas, implicam acompanhamento sistemático. A implementação de estratégias de suporte – como tecnologias para lembretes, monitoramento remoto e atendimento personalizado – pode contribuir para a continuidade do tratamento.
Superar esses desafios depende de esforços integrados e multidisciplinares, capacitação profissional, promoção de políticas públicas inclusivas e enfrentamento das desigualdades estruturais. É fundamental investir em estratégias adaptativas e inovadoras, como o TelePrEP Pel, campanhas educativas integradas à dinâmica comunitária e o uso inteligente de tecnologias como aplicativos de mensagens.
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Quais são as expectativas da Secretaria de Saúde com o lançamento do TelePrEPPel?
A Prefeitura de Pelotas, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), identificando a necessidade de ampliar e qualificar o acesso à PrEP e PEP, implementou o serviço de TelePrEP Pel, reforçando a descentralização para o cuidado integral do público.
“A ideia é que seja um serviço que ofereça o atendimento integral, multiprofissional, humanizado e resolutivo, que permita em breve a descentralização do cuidado das pessoas vivendo com HIV em Pelotas. Isso se dará por meio da ampliação e facilitação do acesso às profilaxias. O Tele estará à disposição de todos para tirar dúvidas acerca da prescrição e indicações e oferecer um acolhimento de qualidade”, pontua o assessor técnico da Diretoria de Atenção Primária da SMS, que também coordena o serviço, médico de Família e Comunidade Alexandre Moch.
Há previsão de ampliação do serviço ou integração com outras ações de prevenção ao HIV no município?
O TelePrEPPel, focado no telemonitoramento e teleagendamento da PEP e PrEP, aliado à reestruturação do CTA como unidade de atendimento humanizada e matriciadora para ampliação e descentralização da PrEP e tratamento do HIV no município, somam-se às ações como a PrEP Itinerante (ações extra-muros de testagem e oferta de PrEP), PrEP no consultório de rua e no presídio de Pelotas.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
SMS de Pelotas
Tel.: (53) 3309-6000


