21/08/2014 – 19h
Causou polêmica nas redes sociais uma entrevista que o ator/humorista Paulo Gustavo deu à revista “Já é”, do jornal “O Dia”, do Rio de Janeiro, dizendo ser contra a Parada Gay, porque ela é mais uma rave no meio da rua e não um movimento político. “Eu sou contra a Parada Gay, acho que não tem que ter isso. Não existe Parada Hétero. Acho que, com isso, a gente fica só valorizando os idiotas, disse ele, entre outras declarações. Ao ver o barulho que sua fala provocou, na terça-feira (19), Paulo Gustavo tentou se explicar em sua página no Facebook.
“Talvez tenha sido mal interpretado por algumas pessoas. Ok, vamos lá! Disse que sou contra a Parada Gay e SOU. Porque acho que uma coisa que era para ser movimento político, não é! Vira uma RAVE no meio da rua, com assalto, brigas e com um monte de gente se beijando, e eu não curto. Não tenho vontade de levar meus pais! Tenho orgulho do movimento gay e de fazer parte disso. Inclusive falo sobre isso e faço política através da minha arte. Ponto final! Quem não entender, sinto muito!”, escreveu. “Tive uma criação sem preconceitos e aprendendo sempre a conviver com as diferenças. Hoje sou um cara independente, livre , feliz e amado!”.
Apesar da explicação, as reações continuaram. Muita gente do movimento gay considerou infelizes os comentários. A ONG Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, responsável pela organização da Parada do Orgulho LGBT Rio , divulgou nota na qual afirma que a opinião do humorista reforça o ódio aos homossexuais. Da mesma opinião, Fernando Quaresma, presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), completou que a fala de Paulo Gustavo reforça os conceitos fundamentalistas homofóbicos.
Leia, a seguir, a resposta de Quaresma:
“Num momento em que a sociedade civil luta tanta para combater a homofobia presente no discurso fundamentalista, esse ator presta um desserviço à causa. Ele entende que faz política através da interpretação, mas não entende a forma das outras pessoas se manifestarem. A Parada é um espaço democrático, usado para o bem do movimento social. É aberta e cumpre, sim, seu objetivo maior, que é o de dar visibilidade ao movimento gay. Comportamentos individuais são questões de foro íntimo.
Se uma pessoa faz mau uso do espaço democrático do evento, é uma questão para ser discutida na sociedade e não no âmbito da Parada. Nas vésperas das passeatas, a gente procura orientar as pessoas, mas visando cuidar do bem estar delas. Dá dicas como não beber muito, não carregar dinheiro e documentos e até usar protetor solar. Agora, bêbado tem em todas as Paradas, aliás, em todas as festas, e agente não é autoridade nem polícia para proibir.”
E, agora, confira a nota do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, do Rio:
"Caro Paulo Gustavo,
Há 21 anos, o Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT pauta a sua luta pela dignidade, respeito e direitos para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Desde o seu início, assim como acontecem em diversas outras cidades do Brasil e do mundo, a Parada do Orgulho LGBT Rio é o evento que encerra uma série de atividades que acontecem para mostrar a militância LGBT através de palestras, debates, mostras de filmes temáticos, performances artísticas como shows e peças teatrais, rodas de conversas, distribuição de textos e material de prevenção contra DST/aids.
Portanto, acredito que você só conheça uma pequena parte do que a bandeira do arco-íris esticada na orla de Copacabana representa. Sim, é uma festa cheia de gente se beijando, com música, bebida, o povo se divertindo. Nada muito diferente das outras festas que vemos Brasil afora. Porque o povo brasileiro é assim: festeiro, consegue ser feliz apesar de todas as adversidades. E você sabe muito bem disso, já que a sua arte é fazer o povo rir através de figuras caricatas do nosso dia-a-dia.
Infelizmente, o seu discurso fez o caminho inverso do que você mesmo disse querer evitar: o preconceito. Quando você diz que não levanta bandeiras porque isso gera mais preconceito e fala mal da Parada Gay, isso afeta diretamente um trabalho que é feito, a muito custo, por uma equipe que luta bastante contra o preconceito.
Não podemos deixar de visibilizar que em 2012, segundo dados oficiais da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, foram documentados 338 assassinatos de LGBT em nosso país, um assassinato por homofobia a cada 26 horas. O Brasil confirma sua posição de primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos homofóbicos, concentrando 44% do total de execuções de todo o planeta.
Você consegue mensurar a proporção que esse assunto está tomando porque você fez esse comentário? Quantas pessoas estão aderindo “à raiva pela Parada Gay” porque você disse que não gosta e não levaria a sua família? Você já foi a uma Parada LGBT? Se não foi, está convidado a ir, principalmente antes de começar a concentração, quando as famílias vão aproveitar os serviços prestados antes do evento. Não sabe quais são? Vacinação contra a Hepatite B, distribuição de folhetos com dicas de saúde, conscientização ambiental, distribuição de camisinhas masculinas e femininas e muito mais. Ao todo, em 2013 foram distribuídos 700 mil preservativos e foi feita uma campanha a favor da testagem voluntária para o vírus HIV.
Sobre a segurança, a qual você deduziu ser precária, seguem dados também de 2013: 400 PMs trabalharam com 200 seguranças particulares contratados pela organização. Os policiais tiveram ao seu dispor seis quadriciclos e 10 torres de observação.
As Paradas do Orgulho LGBT trouxeram a visibilidade para uma comunidade até então marginalizada. Desde 1995, as Paradas contribuíram para uma mudança de concepção da sociedade sobre a comunidade LGBT, construindo um caminho de avanços civis até decisão histórica do Supremo Tribunal Federal, com o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo.
Também ressaltamos que as Paradas são reconhecidas desde 2006, pelo Ministério da Cultura, como uma expressão artística da população LGBT como “bem cultural” e “patrimônio” do povo brasileiro. Além disso, auxiliaram na construção de políticas públicas voltadas para a garantia da cidadania da comunidade LGBT e o combate à homofobia, como a Coordenação Geral LGBT do Governo Federal e o Programa Rio sem Homofobia.
Portanto, através dessa nota, esperamos ter esclarecidos algumas questões sobre a Parada do Orgulho LGBT Rio. E, esperamos, do fundo dos nossos corações, que você perceba que a nossa luta diária contra a homofobia deve começar dentro de nós mesmos”.
Redação da Agência de Notícias da Aids com "Extra"



