
A cada hora, uma mulher morre na região da América Latina e do Caribe por complicações na gravidez, no parto ou no puerpério. A grande maioria dessas mortes, opinam especialistas, poderia ser evitada com melhoras no acesso a serviços de saúde de qualidade em setores vulneráveis da população, como mulheres indígenas, afrodescendentes, migrantes, de baixa renda e escolaridade. Para enfrentar esta difícil cruzada, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) lançou este ano uma campanha que visa reduzir indicadores que aproximam a região do continente africano, e que conta com a valiosa participação de parteiras que trabalham em parceria com a organização.
A iniciativa foi apresentada semana passada pelo diretor da Opas, o brasileiro Jarbas Barbosa, em evento organizado em Nova York, no contexto da Assembleia Geral das Nações Unidas.
O envolvimento das parteiras e de sua medicina tradicional é considerado essencial por autoridades da Opas para que a região alcance a ambiciosa meta de menos de 30 mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos. No ano passado, a taxa de mortalidade materna, ou seja, o número de mortes de mulheres por cada 100 mil nascidos vivos na América Latina e no Caribe, foi de 68.
Em Nova York, o diretor da Opas, um entusiasta da campanha, pediu aos governos do continente e ao setor privado que aumentem os recursos destinados ao combate da mortalidade materna, que sofreu retrocesso de 20 anos durante a pandemia da Covid-19. A taxa de mortalidade materna aumentou 15% entre 2016 e 2020, após uma redução de 16,4% entre 1990 e 2015.
— Em alguns países a mortalidade materna quase dobrou durante a pandemia, retroagindo a quase dez anos — frisa Barbosa.
Atualmente, cerca de 8.400 mulheres morrem anualmente por patologias como hipertensão, hemorragia e complicações decorrentes de um aborto inseguro — na grande maioria dos países feito na clandestinidade —, entre outras causas. A Opas acredita que nove em cada dez destas mortes poderiam ser evitadas com cuidados de qualidade, acesso à contracepção e redução das desigualdades sociais, um dos focos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu discurso na Assembleia Geral da ONU.
—O que pode mudar a situação é a implementação de projetos multissetoriais e um aumento dos recursos destinados a essas iniciativas. A grande maioria dessas mulheres que morre ainda é invisível, e isso é parte do problema— aponta Suzanne Serruya, diretora do Centro Latino-Americano Centro de Perinatologia da Opas Saúde da Mulher e Reprodutiva (CLAP), com sede em Montevidéu, no Uruguai.
Na visão da especialista, o nível de mortalidade materna na América Latina e Caribe é “inaceitável”.
— Onde estamos falhando? Em diversas coisas, entre elas na falta de vigilância da mortalidade materna, em não oferecer a todas as mulheres serviços de saúde de qualidade, na demora na atenção e, também, na inclusão e respeito das parteiras nos sistemas de saúde — acrescentou Serruya.
Para a especialista, “se quisermos regressar ao caminho da redução da mortalidade materna, devemos abordar as desigualdades socioeconômicas, de gênero, etnia, educação e local de residência”.
MEDICINA ANCESTRAL
Alguns dos países nos quais a Opas está treinando e estabelecendo uma parceria considerada essencial com as parteiras são Colômbia, Brasil, Paraguai, Bolívia e Equador. No departamento (estado) colombiano de Chocó, Ledi Manuela Mosquera, de 45 anos, trabalha como parteira desde que tinha 15. Em 2015, esta guerreira colombiana criou uma Associação de Parteiras de sua região, que hoje tem 1.500 integrantes.
—Para muitos médicos, é difícil entender que mulheres que não estudaram, que nunca saíram de suas comunidades, preferem a medicina ancestral que conhecem. Todos os dias tenho casos de mulheres que não querem ir aos hospitais porque sentem que não serão entendidas e que suas tradições não serão respeitadas — explica Mosquera.
Ela também está em contato com parteiras de outros departamentos colombianos, como Antioquia e Bolívar. Na sua visão, o que falta na medicina tradicional é “respeito” à cultural ancestral de muitas comunidades.
— Nós respeitamos essas mulheres e construímos relações de confiança. Ainda existem brechas entre o saber ocidental e o ancestral, e nós podemos ser uma ponte entre ambos — comenta a parteira, que está muito agradecida ao trabalho da Opas em toda a região.
Mosquera já participou de vários treinamentos, nos quais funcionários da organização levam instrumentos básicos de obstetrícia para que as parteiras possam aprender a utilizá-los em suas consultas. A ideia do programa é combinar esse tipo de material com medicamentos naturais ainda utilizados em muitas comunidades, a grande maioria para reduzir as dores do parto e a ansiedade das gestantes.
— Muitas parteiras usam plantas como uma que chamamos de carpinteiro, que tem um efeito similar ao da oxitocina. A Opas acredita em nosso trabalho, nos valoriza e trata com respeito — diz a parteira colombiana.
Entre 1990 e 2015, a mortalidade materna na América Latina diminuiu 16,4%, mas a partir de 2015 a situação voltou a piorar. Na visão do diretor da Opas, parteiras latino-americanas e caribenhas são “aliadas” dos sistemas de saúde públicos em sua cruzada para reduzir o número de mortes entre mulheres gestantes e no pós parto. Essas mortes se concentram, principalmente, entre setores humildes.
—A medicina ancestral é um patrimônio cultural de nossa região que tratamos de maneira respeitosa. Procuramos estabelecer um diálogo com esses saberes e essa medicina — afirma Barbosa.
Pessoas como Mosquera, que dedica sua vida a gestantes de comunidades vulneráveis e marginalizadas, devem ser, na visão do diretor da Opas, líderes na prevenção de mortes e melhoria no acesso de todas as mulheres aos sistemas de saúde.
URGÊNCIAS
Todos os dias, a parteira colombiana recebe ligações em seu celular de pessoas pedindo socorro para mulheres que estão em trabalho de parto em algum vilarejo, aldeia ou tribo que fica a cinco horas de distância de carro de um hospital público, e, em muitos casos, se recusam a serem trasladadas. O medo de sofrerem discriminação é grande e paralisa essas gestantes. Com sua paciência e compreensão, Mosquera consegue, em muitos casos, fazer a ponte necessária entre o sistema público de saúde e as comunidades. Basta convencer as mulheres de que elas serão bem tratadas, e terão um parto humano, respeitando suas tradições. Finalmente, de que permanecer em casa representa um risco para elas e para o bebê.
— A palavra chave é respeito — conclui a parteira.



