Paradas do orgulho LGBT+ expõem rumos divergentes na Hungria e na Itália – Folha de S. Paulo

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Novo primeiro-ministro húngaro dá sinais de mudança após 16 anos de Orbán

Em Milão, a organização da marcha ocorreu em meio a ataques de políticos e episódios de agressão

Em Budapeste, na Hungria, os preparativos para a parada do orgulho LGBTQIA+ ocorreram com mais tranquilidade do que no ano passado. Em Milão, na Itália, os corpos estão em revolta, como anuncia o lema para a marcha deste ano. Os dois eventos aconteceram neste sábado (27) e refletem sentimentos diferentes dos grupos nos dois países.

Hungria e Itália são vizinhas na parte mais baixa do ranking que mede direitos e discriminação no continente, preparado anualmente pela associação Ilga-Europe. Divulgado em maio, o Rainbow Map 2026 mostra a Itália na 36ª posição e a Hungria na 38ª, entre 49 países analisados. Ambos estão bem abaixo da média da União Europeia. O relatório leva em conta dados e fatos registrados em 2025.

Na Hungria, o clima começou a mudar nos últimos meses. Depois de 16 anos no poder, o primeiro-ministro de ultradireita Viktor Orbán, que promoveu um cerco à comunidade LGBTQIA+, foi derrotado nas eleições. No cargo desde o início de maio, o conservador Péter Magyar dá sinais de que pode tratar o tema de forma diferente do antecessor.

Para Andrea Angeli, porta-voz da Budapest Pride, organizadora da parada, apesar de ser cedo para uma avaliação, os gestos são animadores.

“Observamos uma clara mudança de tom em algumas contribuições parlamentares. Mas a verdadeira posição de um governo vem por meio de legislação, não por declarações individuais”, disse à Folha. “O que podemos dizer é que a hostilidade aberta e sistemática que caracterizou os 16 anos anteriores até agora parece ausente. Os próximos meses vão mostrar se isso se traduzirá em prática institucional.”

Uma mudança nos ares foi percebida em torno da realização da marcha deste sábado. No ano passado, depois de aprovada legislação que acabou por banir a parada gay, a polícia proibiu o evento. Mesmo vetado, ele aconteceu graças ao prefeito de Budapeste, que encontrou uma brecha legal, e à forte pressão internacional. Foi a maior marcha do orgulho da história do país.

No fim de maio, ainda que as leis restritivas continuem em vigor, a polícia autorizou a parada.

“Os preparativos estão andando tranquilamente” diz Angeli. Na capital, afirma, o clima era de esperança e entusiasmo em torno do evento. “Segundo pesquisas, a maioria dos húngaros apoia a revogação de medidas que restringem os direitos das pessoas LGBTQIA†.”

Neste sábado, mais de 10 mil pessoas enfrentaram o calor recorde na capital da Hungria e foram às ruas celebrar a diversidade. “A maior mudança é, na verdade, a mudança política no país”, afirmou Mate Tarnai, um químico de 51 anos, à agência de notícias Reuters. “Nós sentimos mais liberdade, e o ambiente no país está muito mais tranquilo do que no ano passado.”

Em seu relatório, a Ilga-Europe afirma que, nos últimos cinco anos, as marchas do orgulho se tornaram “um dos mais claros indicadores da saúde da democracia e dos direitos fundamentais na Europa e na Ásia Central”

Em Milão, a organização da marcha foi simultânea a comentários preconceituosos de políticos, episódios de agressão e críticas da comunidade LGBTQIA+ a iniciativas do governo.

No começo do mês, foi aprovada lei que exige autorização dos genitores para que adolescentes possam participar de aulas de educação sexual e afetiva nas escolas. Na visão do ministro Giuseppe Valditara, do partido de ultradireita Liga, a lei vai proteger alunos da “confusão da propaganda de gênero”.

Poucos dias depois, o eurodeputado Roberto Vannacci, que deixou a Liga para fundar um partido ainda mais radical, disse em entrevista a um canal de TV que não entendia por que a “orientação sexual, um gosto pessoal, deveria dar lugar a direitos”. Na parada gay de Roma, no último sábado (20), grupos foram atacados com spray de pimenta.

“Vemos um acirramento de certa classe política, com uso de palavras que se assemelham a discurso de ódio”, diz Alice Redaelli, presidente da CIG Arcigay Milano, que organiza a Milano Pride. Segundo ela, a escolha do lema “Corpos em Revolta” foi para chamar a atenção para a luta contra “novos fascismos” e por direitos.

No ranking do Rainbow Map, o desempenho da Itália é crítico em quatro de sete categorias. Vai mal em questões sobre família, como casamento e adoção, e no tema da igualdade e não discriminação. Vai pior ainda, com zero pontos, na legislação que enquadra orientação sexual como agravante para discurso e crime de ódio e no quesito de intervenções médicas em crianças intersexo.

O país caiu uma posição entre 2025 e 2026 e é o único fundador da União Europeia a ficar na parte mais baixa da classificação. “Isso é fruto de anos de inação. Faltam leis contra discriminação, contra crimes de ódio e são toleradas pseudoterapias de conversão”, diz Redaelli. “Essa situação para o governo não parece ser um problema.”

No dia a dia, afirma, o cenário leva pessoas LGBTQIA+ a um estado de hipervigilância no país.

“Elas têm medo de pegar a mão do namorado ou namorada na rua, de se abrir com amigos e familiares e evitam falar da própria vida com colegas. É uma pressão psicológica importante.“

E há os episódios de agressão. Segundo levantamento da Arcigay, entre maio de 2025 e maio deste ano, foram conhecidos 127 casos de violência e discriminação em toda a Itália, ante 110 no período anterior.

Ao mesmo tempo, a Itália se sai bem, com 100%, na categoria que analisa a liberdade de expressão e de reunião da comunidade LGBTQIA+. A Hungria, por outro lado, atinge 33% nesse quesito.

Os piores desempenhos da Hungria, com zero pontos, são nos temas de reconhecimento legal de pessoas trans, não binárias e intersexo -a troca de nome em documentos, por exemplo, não é permitida- e de intervenções médicas em crianças intersexo.

“As paradas do orgulho existem porque o trabalho não acabou. Todo ano nós defendemos a mesma coisa: que as pessoas LGBTQIA+ vivam aqui e tenham os mesmos direitos que os outros”, diz Angeli, da Budapest Pride.

Segundo ela, as paradas anuais são importantes porque representam um dos poucos momentos em que a comunidade ganha visibilidade no discurso público. “Essa visibilidade dá início a um processo em que opiniões mudam e transformações se tornam possíveis.”

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