Evento na Avenida Paulista completa três décadas em meio a reduções de patrocínios e tentativas de políticos de restringirem o acesso a menores de idade
Governo húngaro ameaçou gays, lésbicas e transexuais com consequências legais, mas descartou qualquer intervenção das forças de segurança
Até 28 de junho de 1997, Nelson Matias Pereira, então com 30 anos, tinha a sensação de que “era o único LGBT do mundo”. Mas, quando foi à Avenida Paulista naquela tarde, ele se deparou com “outros iguais”. “Foi uma afirmação de existência, de reconhecimento de que são permitidas todas as possibilidades de orientações e identidades sexuais”, lembra sobre a 1ª Parada do Orgulho LGBT+.
O cartaz do evento divulgava o slogan “somos muitos, estamos em todos os lugares e em todas as profissões” e convidava o público a ir “montada, desmontada, fantasiada, casada, descasada, solteira, de bota ou de tamanco”.
A importância do evento para Nelson o fez criar, junto a outros ativistas, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP) em 1999. A entidade é responsável por organizar o desfile desde então.
O que começou como um encontro com cerca de duas mil pessoas rapidamente se transformou em um megaevento que arrasta multidões para a Paulista. O recorde de público foi em 2011, quando o desfile reuniu quatro milhões de pessoas, segundo os organizadores.
Em 2026, a Parada chega à sua 30.ª edição neste domingo, 7, com o desafio de continuar atraindo público, em meio a reduções de patrocínios e tentativas de políticos de restringirem o acesso a menores de idade.
Uma mistura de carnaval com protesto político, o ato foi palco de luta por direitos da população LGBT+. Nessas três décadas de história, ela foi vital na conquista da união homoafetiva, da criminalização da homofobia e do nome social para pessoas trans. “Não é só festa, é luta por direitos. Todas essas pautas passaram pela Parada. Sem esse tipo de mobilização de ruas, os direitos simplesmente não avançariam”, reflete Nelson.
O fundador e presidente da APOLGBT alerta, porém, que essas conquistas estão sobre “um telhado de cristal — bonito, mas muito frágil”.
A Câmara Municipal de São Paulo aprovou no mês passado, em primeira votação, um projeto de lei que proíbe a presença de crianças e adolescentes em eventos que “façam alusão ou fomentem” a temática LGBT+. Para virar lei, o texto ainda precisa ser aprovado em uma segunda votação e sancionado pelo prefeito da capital.
Juristas ouvidos pelo Estadão, no entanto, avaliam que a medida é inconstitucional, abrindo brechas para ser contestada na Justiça.
“É um absurdo proibir crianças de participarem de uma festa cidadã, pública, que reivindica direitos e celebra a diversidade”, afirma Regiani de Abreu, presidente da Mães pela Diversidade, ONG que reúne familiares de pessoas LGBT+.
Para ela, a Parada é fundamental para o acolhimento da comunidade. “Nós, que somos mães de pessoas LGBT, temos muito medo, medo pela segurança dos nossos filhos, medo deles sofrerem preconceito. Então, quando estive pela primeira vez na marcha, eu pude ver muito futuro, pessoas expressando a possibilidade de amar, de viver a família, de viver suas identidades de uma maneira segura e alegre. Isso enche o nosso coração de esperança.”
Neste ano, a Parada também sofreu uma queda anual de 60% na receita de patrocínios de empresas privadas. Em um espaço de dois anos, o festival saiu de 12 marcas patrocinadoras e apoiadoras para apenas três. Segundo a organização e especialistas ouvidos pelo Estadão, o recuo indica que o setor privado vem cedendo às pressões globais contra a agenda de diversidade.
Para Nelson, porém, essas duas adversidades (o projeto e a queda de patrocínios) não desestimularam o público. “Se a tentativa era tirar as pessoas da rua, o efeito foi contrário. Percebo uma mobilização que fazia tempo que não via. Pessoas de outros Estados estão se mobilizando para vir. Pessoas que não vinham há anos que confirmaram presença. Pessoas prometendo trazer a família. Pais falando que virão com os filhos.” Apesar disso, a organização não faz estimativas de público.
Parada em família
A nutricionista Eliane Moreira, de 58 anos, faz questão de ir com os filhos, Pedro Henrique, 26, gay, e Geovana, 30, bissexual, aos desfiles todos os anos. Ela afirma que essa é uma forma de reconhecer as histórias dos filhos e lutar por uma sociedade mais humana e igualitária para eles.
O ato emociona Geovana e Pedro. “Quando uma pessoa se percebe LGBT+, muitas vezes, os impactos negativos vêm justamente de onde deveria vir o maior apoio, da família. Por isso, estar em família e com a minha noiva na Parada é simplesmente revolucionário”, diz a filha. O irmão concorda. “Estarmos juntos na Parada reforça a ideia de que toda pessoa merece ser aceita e apoiada por sua família.”
O sentimento é similar para a estudante Lavínia da Silva, 18, mulher trans. “É muito especial poder compartilhar esse momento com pessoas que me respeitam e caminham ao meu lado.” Sua mãe, Maria Jaqueline, a acompanha na Parada com orgulho. “É muito impactante ver tantas pessoas reunidas em defesa do amor e da igualdade.”
Desde 2021, a analista financeira Lilian Joly Castro, 55, também acompanha o filho, Marjorie, 26, trans não binário. “Ver como meu filho se sentia protegido fez toda a diferença. A Parada é uma forma de deixarmos claro que existimos e não vamos nos esconder ou nos envergonhar de quem somos.”
Serviço
Horário: concentração começa às 10h, na Avenida Paulista, perto da Rua Peixoto Gomide (próximo ao Masp).
Local: Os trios elétricos vão começar a se movimentar no sentido Rua da Consolação entre 12h e 13h.
Algumas atrações confirmadas: Gloria Groove, Pablo Vittar e Melody



