
Entre os dias 5 e 7 de junho, aconteceu em São Paulo o XV Encontro Estadual de Ong/Aids do Estado de São Paulo (Eeong), que reuniu representantes da sociedade civil das Ongs afiliadas ao Fórum de Ongs Aids do Estado de São Paulo (Foaesp), além de membros da administração municipal e estadual.
Durante o evento, foram debatidas a atuação do movimento de luta contra o HIV/aids e os desafios enfrentados pela sociedade civil organizada na formulação de políticas públicas para a resposta à epidemia. Destacaram-se os temas como acesso à saúde, prevenção, assistência, tratamento, direitos humanos, bem como os retrocessos e desafios no enfrentamento à epidemia de HIV/aids em São Paulo. O combate ao estigma, preconceito e discriminação contra pessoas vivendo com HIV/aids foi ressaltado como fundamental para a garantia de seus direitos, um desafio que ainda resiste nas instituições e políticas públicas.
Por três dias, participantes e convidados apresentaram um panorama das suas atividades e da articulação com o Estado e os municípios, relatando dificuldades na participação da sociedade civil nas ações territoriais. Um dos temas de maior destaque foi a meta da Unaids de eliminação do HIV como um problema de saúde pública até 2030. Os ativistas falaram da importância da informação, da integração dos serviços públicos e da luta contra o estigma, já que a estagnação das ações de enfrentamento aumenta a vulnerabilidade e as desigualdades.

Já o sociólogo Alexandre Grangeiro falou sobre prevenção e destacou a necessidade de se observar a mudança nas formas como os relacionamentos e as práticas sexuais ocorrem hoje em dia para que a erradicação da aids seja de fato viável no Brasil. “Se a gente pegar, por exemplo, homens que fazem sexo com homens, atualmente existe uma plataformização dos encontros sexuais. 70% a 80% das pessoas preferem encontrar seus parceiros por meio de aplicativo. Além disso, precisamos falar sobre a questão do uso da drogas para a prática de sexo, pois tem aumentado significativamente, incluindo o uso injetável das meta-anfetaminas. Por enquanto, ele é muito circunscrito às grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, mas tem se propagado pelo país. E a plataformização tem garantido uma maior circulação do uso de drogas na cena sexual”.

Na mesa denominada “Assistência”, a infectologista Dra. Denize Lotufo, Gerente da Assistência Integral à Saúde do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids do Estado de São Paulo, atualizou as ONGs sobre o Simc (Sistema de Monitoramento Clínico das Pessoas Vivendo com HIV/aids), um mecanismo utilizado pelo SUS que permite visualizar e monitorar as lacunas de tratamento das pessoas vivendo com HIV/aids que ainda não iniciaram o tratamento antirretroviral, de maneira que os serviços de saúde têm a possibilidade de buscar essas pessoas, ofertar a terapia antirretroviral e inseri-las no tratamento. Além disso, o sistema oferece a lista das pessoas que iniciaram a terapia antirretroviral ou tiveram seus esquemas modificados há 6 (seis) meses ou mais, mas que ainda apresentam carga viral detectável, facilitando com que os profissionais da saúde possam fazer o resgate dessas pessoas para avaliação e as condutas necessárias. “O Ministério da Saúde está fazendo oficinas no Brasil inteiro, porque as pessoas ainda têm uma certa dificuldade de usarem o Simc e precisam entender a importância do acesso a esse material”, afirmou a médica.

Durante mesa de discussão sobre direitos humanos, Américo Nunes, membro do Movimento Paulistano de Luta contra a Aids (MOPAIDS) e fundador do Instituto Vida Nova, fez uma fala sobre a importância de que pessoas que vivem com HIV estejam presentes nas manifestações do dia 1o de dezembro e ao longo do ano. “Temos que passar a elas a importância de exercerem a cidadania plena. Precisamos levar essa conscientização para as nossas bases. Não é meramente fazer um convite para o evento, é preciso ter o poder de convencimento. O argumento: “olha, se você não for, você não vai ter medicamento. A sua presença é fundamental.”
Foi lembrada a tendência atual de alguns influenciadores da internet sobre trocar a palavra “luta” contra a aids por “enfrentamento”, veementemente rechaçado pelos profissionais presentes. Sobre o assunto, Margarete Preto do Barong, complementou dizendo que é preciso fazer o resgate da luta contra o HIV/aids. “Quem chegou agora não sabe como foi e essa é a questão. Quem está há mais tempo tem que incutir para incomodar as pessoas: “você está confortável, mas na vida não foi assim”, afirmou.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista:
Américo Nunes – https://www.instagram.com/americo.nunes.773/
Margarete Preto – https://www.instagram.com/margaretepreto/
Denize Lotufo – imprensa@crt.saude.sp.gov.br



