Basílica de São Pedro recebe o corpo do Papa Francisco; fiéis se despedem. Ativistas brasileiros ressaltam o legado do pontífice

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A morte do Papa Francisco continua repercutindo profundamente no Brasil e em diversos cantos do mundo, especialmente entre os que lutam por justiça, dignidade e inclusão. Francisco — o primeiro Papa latino-americano da história — faleceu na manhã da última segunda-feira (21), após apresentar sinais de uma doença súbita por volta das 5h30 (horário local). Segundo o Vaticano, cerca de uma hora depois, logo após acenar para seu enfermeiro pessoal, em um gesto de despedida, ele entrou em coma. O falecimento foi confirmado nesta terça-feira (22).

“De acordo com os que estavam com ele em seus momentos finais, Francisco não sofreu. Tudo aconteceu muito rápido”, informou o Vaticano. “Foi uma morte discreta, quase repentina, sem longo sofrimento ou alarme público, para um papa que sempre foi muito reservado em relação à sua saúde.”

Francisco partiu às 7h35, no dia seguinte à Páscoa, após ter feito uma última e breve aparição na sacada da Basílica de São Pedro, de onde ofereceu a bênção Urbi et Orbi (“para a cidade e para o mundo”). O funeral está previsto para o próximo sábado (26).

Entre os inúmeros tributos ao pontífice, o movimento social de luta contra a aids prestou emocionadas homenagens à sua trajetória marcada pela compaixão, humildade e coragem.

“Nos despedimos de um religioso que foi sinônimo de coragem, compaixão e justiça. Lutou, enquanto Papa, pelos direitos humanos, enfrentando a injustiça com firmeza e determinação. Que siga em paz”, declarou Claudio Pereira, presidente do Grupo de Incentivo à Vida (GIV).

Para Jenice Pizão, da Secretaria Política do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), Francisco representou uma mudança histórica na relação da Igreja com os mais vulneráveis:

“O papa dos pobres, que tentou destravar a conservadora Igreja Católica com seus dogmas medievais, faleceu aos 88 anos, mas deixou um legado de bondade e amor. Logo no início de seu papado mostrou sua natureza ao escolher a simplicidade de sua moradia na Casa de Santa Marta e não nos aposentos papais com sua suntuosidade. Confirmando sua postura popular, nos próprios rituais de seu funeral, quando escolheu, há 5 meses, que seu caixão seria de madeira comum e seu sepultamento, na Basílica de Santa Maria Maggiore. Era um homem do povo, seguindo os exemplos de Jesus Cristo e São Francisco de Assis, seus mestres.

Ele avançou em questões emblemáticas para a Igreja, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, deu maior espaço às mulheres, abriu as feridas da Igreja ao determinar as investigações dos abusos sexuais da alta hierarquia da Igreja, escondidos há décadas.

Trouxe um olhar sensível sobre os temas atuais, discutindo questões ambientais e as consequências sobre migração, a pobreza, dando espaço para uma ecologia integral com ênfase na Fraternidade Humana e a Paz Mundial.

Trabalhou para a descentralização da Igreja eurocêntrica, dando maior espaço às lideranças eclesiásticas de continentes esquecidos como África, Ásia e América Latina.

Defensor incansável dos direitos humanos, especialmente dos direitos dos imigrantes, refugiados e doentes, e criticando a violência das guerras.

Quando se referia à epidemia de aids, lembrava às lideranças mundiais da falta de acesso ao tratamento nos continentes pobres e da discriminação. Destacava que ser cristão é ter o compromisso de solidariedade na garantia do melhor tratamento, eficaz e igualitário, para as PVHA.

Nosso Papa Francisco, o 1º Papa latino-americano, que gostava de futebol, que dizia que Deus era brasileiro, porém o Papa era argentino, se foi para iluminar outros caminhos e cuidar para que seu exemplo de Unidade e Paz continue inspirando e transformando pessoas em todo o mundo.”

A psicóloga e sexóloga Regiane Garcia, diretora do Instituto Cultural Barong, também ressaltou o impacto de Francisco na luta por direitos:

“O grande legado do Papa Francisco foi em questões de direitos humanos. Principalmente em relação à população LGBT… Entrou em alguns embates com a própria Igreja sobre essas questões. Ouvi de um padre da Igreja aqui no Brasil que esse representante da Igreja seguiu realmente o Evangelho. Seu foco sempre foi os invisíveis, os imigrantes, a população LGBT e também as questões de preconceito racial. Uma pessoa com viés progressista, e para nós, latinos, um papa latino sempre foi muito significativo. Esperamos que o próximo líder consiga ter a mesma humanidade, o mesmo respeito para com as minorias no mundo todo. E, na verdade, é isso que o mundo precisa: na ciência, nas artes, nas religiões e na política. Ou seja, de humanos verdadeiros, além do conhecimento técnico. Precisamos de humanos *para os* humanos.”

Albert Roggenbuck, criador da Drag Queen Dindry Buck, publicitário, ator, ativista e católico praticante, disse que Francisco viveu o verdadeiro evangelho:

“O nosso Sumo Pontífice, Papa Francisco, fez sua Páscoa definitiva. Amado e querido por tantos, não só católicos mais de tantas religiões não cristãs, pois soube viver o verdadeiro amor e acolhimento, deixa um grande legado a humanidade.

Francisco viveu realmente o que Cristo pediu para que todos nós vivêssemos: amou, acolheu, respeitou… Foi um verdadeiro revolucionário. Ele que conclamou aos milhares de jovens que participaram da jornada mundial da juventude no Rio de Janeiro a serem revolucionários, falou com conhecimento de causa pois soube viver isso muito bem e deixou um legado lindo:

Sobre as mães solteiras: “existem mulheres solteiras que são mães “; Sobre os LGBT: “quem sou eu para julgar”

O Vaticano aprovou diretrizes para que os gays se tornassem padres; aprovou a benção para casais homoafetivos; acolheu e conversou com LGBT que o foram procurar. Ofereceu ajuda financeira a transexuais na época da pandemia.

Com certeza fará falta, mas escreveu seu nome lindamente na história da igreja. Um ser iluminado que continuará intercedendo por nós lá do plano espiritual. Gratidão por tudo, amado Francisco!”

Para os ativistas e defensores da vida, especialmente das pessoas que vivem com HIV/aids, Papa Francisco será lembrado como alguém que olhou nos olhos dos esquecidos. Seu legado segue vivo nos corações de quem luta por um mundo mais justo, mais acolhedor e mais humano.

 

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dicas de entrevista

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