Mesmo com níveis preocupantes de hesitação vacinal, o Brasil ainda continua sendo uma potência quando o assunto é imunização, especialmente entre as crianças. Prova disso é que o governo divulgou recentemente que alcançou 82% de cobertura para a vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) entre meninas —a média mundial é de apenas 12%.
O tema é tão relevante que foi um dos mais debatidos durante a 27ª Jornada Nacional de Imunizações, evento realizado pela SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) que aconteceu entre os dias 3 e 4 de setembro, em São Paulo.
Isso porque o HPV é causador de diversos tipos de câncer, sendo responsável por quase 100% de todos os tumores de colo do útero. O avanço na vacinação, portanto, é considerado um passo fundamental para erradicar a doença. Além disso, faz parte de um compromisso com a OMS para chegar ao patamar de 90% até 2030.
Mesmo assim, a desinformação e o preconceito que ainda rondam essa vacina ainda faz com quem pais e até médicos pensem duas vezes antes de realizar a vacinação. Alguns responsáveis por crianças entre nove e 10 anos ouvidos por VivaBem relataram, por exemplo, que os próprios pediatras recomendaram aguardar a vacinação até que os filhos ou as filhas completassem 12 anos.
Quando questionados, esses profissionais não deram justificativa e apenas explicaram que, no caso das meninas, deveriam aguardar a primeira menstruação e realizar a vacinação antes da primeira relação sexual. A conduta, no entanto, não tem embasamento científico nem o apoio de associações médicas, como a SBIm e a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).
“Não é incomum, infelizmente. Tanto médicos como pais podem achar que a criança está segura, pois ainda não está em atividade sexual”, explica Mônica Levi, médica presidente da SBIm. “É comum também pensarem que isso vai incentivar a atividade sexual precoce, mas tudo isso é mito”, afirma.
Levi lembra que a vacinação é preconizada para ser feita entre nove e 14 anos —dentro ainda da faixa indicada mesmo para quem opta por atrasar a aplicação. “No entanto, sabemos que as crianças aos nove, 10 anos, ainda são acompanhas pelo pediatra mais de perto. Isso vai ficando mais difícil com o crescimento e a chegada da adolescência”, afirma.
Ou seja, levar a criança enquanto ela ainda é dependente dos pais ou responsáveis é uma forma mais fácil de controlar e garantir que a aplicação das vacinas —não somente do HPV— seja feita corretamente antes de entrar na puberdade.
Eduardo Jorge da Fonseca Lima, médico presidente do Departamento de Imunizações da SBP e conselheiro federal por Pernambuco do CFM (Conselho Federal de Medicina), compartilha da mesma opinião. “Aos nove, 10 anos, as crianças ainda vão ao posto acompanhadas das mães, mas o jovem não vai ao posto sozinho. Quanto maior a idade, menor é a cobertura vacinal”, diz.
Os especialistas ouvidos pela reportagem foram unânimes em afirmar que a vacinação deve ser feita a partir dos nove anos —e não há motivo científico algum para esperar ou postergar essa aplicação, que pode, sim, ser realizada já ao completar os nove anos.
No SUS, a vacina é aplicada em dose única para meninos e meninas dos nove aos 14 anos. Até dezembro de 2025, como parte da campanha do Ministério da Saúde, adolescentes de 15 a 19 anos também têm o direito de se vacinar (com dose única do imunizante quadrivalente) nos postos de saúde. Já na rede privada, a vacina nonavalente está disponível para indivíduos dos nove aos 45 anos, em esquema de duas ou três doses.
Há diversos motivos para realizar a vacinação nessa faixa etária:
De acordo com Eduardo Lima, a vacinação antes dos 15 anos proporciona uma resposta imunológica do corpo até 25% maior do que se feita após esse período. “Isso é especialmente importante quando pensamos, por exemplo, no esquema de dose única aplicado pelo SUS”, afirma. Independentemente de qual vacina for adotada, no entanto, a imunidade gerada é bastante robusta e duradoura.
Ainda, como dissemos, é nessa faixa etária que a criança ainda tem um maior acompanhamento dos pais e do pediatra, o que facilita a logística e a adesão ao plano de vacinação.
É especialmente importante reforçar que a vacina deve ser aplicada antes da primeira relação sexual —no Brasil, a idade média para a iniciação sexual é de 14 anos. “Quanto antes for aplicada, mais segurança teremos de que ela foi feita antes do primeiro contato sexual”, afirma Levi, que lembra ainda que a transmissão não ocorre só por penetração. “O contato sexual de pele com pele ou pele e mucosa já é um risco”, afirma.
Embora o foco da vacinação esteja muito no câncer de colo de útero, é importante dizer que a vacina também protege os meninos contra as verrugas genitais, uma condição benigna, mas que causa lesões importantes no pênis. “Além de incomodar, é esteticamente feio, o que causa estigma e vergonha em meninos justamente nessa faixa bastante ativa da sexualidade”, diz Eduardo Lima.
Mitos ainda são fortes
Junto com a vacina da covid-19, a vacina do HPV é uma das que mais sofre com notícias falsas propagadas sem embasamento científico. “A desinformação é, sem dúvida, um dos fatores que mais colabora para a hesitação vacinal”, afirma Maria do Socorro Martins, presidente da Sociedade Paraibana de Pediatria e membro do Departamento Científico de Imunizações da SBP. “Famílias em dúvida e inseguras não vão levar seus filhos para vacinar”, lamenta.
No caso do HPV, o principal mito talvez seja o de que aplicar a vacina em crianças, especialmente em meninas, poderia incentivar o início da atividade sexual —o que não é verdade. Em um estudo feito pela Fundação do Câncer divulgada em 2022, por exemplo, 22% dos pais e responsáveis acreditavam que a vacina poderia incentivar a iniciação sexual precoce dos filhos.
“É algo na cabeça dos pais e responsáveis, não há qualquer embasamento científico sobre isso. As crianças muitas vezes nem sabem o que é uma infecção sexualmente transmissível ou por que estão tomando aquela vacina específica”, diz Martins. “Elas sabem que precisam se vacinar porque é importante para ficarem saudáveis, porque está no calendário”, afirma.
Vale dizer também que a vacina, além de eficaz, é segura e não tem qualquer efeito sobre o ciclo reprodutivo da mulher ou do homem e também não interfere em nada na menstruação e na fertilidade futura.
Por outro lado, como o foco das campanhas é muito centrado na questão do câncer de colo de útero, muitos meninos não recebem a vacina e acabam em maior risco de não só se contaminarem e desenvolverem doenças a partir disso como ainda transmitirem o vírus durante atividade sexual.
Na pesquisa feita pela Fundação do Câncer, por exemplo, entre 26% e 37% das crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos ouvidos não sabiam que a vacina diminui a incidência de verrugas nos órgãos genitais. Entre os responsáveis, 33% não sabiam dessa informação.
“É importante ressaltar que os meninos também são vítimas do HPV e podem desenvolver cânceres como de orofaringe e ânus”, explica Mônica Levi. “Mesmo as verrugas genitais são um problema sério e de difícil tratamento, pois as lesões podem voltar”, alerta ela.
Adolescentes precisam de ‘resgate’
Se, por um lado, a vacinação entre crianças tem avançado, entre adolescentes, a imunização contra o HPV ainda precisa de um empurrão maior.
O Ministério da Saúde estima que sete milhões de jovens entre 15 e 19 anos estejam sem proteção contra o vírus. Por isso, em fevereiro deste ano, a pasta lançou uma campanha de “resgate” desses jovens para priorizar a vacinação entre eles. No entanto, até final de agosto, pouco mais de 100 mil indivíduos haviam recebido a dose.
O número é preocupante, pois é justamente nessa faixa etária em que o contato sexual ocorre com maior frequência —e, portanto, o risco de transmissão e infecção é maior. Conseguir aumentar os índices de vacinação nesse grupo é muito importante: experiências em outros países, como Escócia, Dinamarca e Austrália mostram que, com a ampliação da proteção entre os jovens, os índices de câncer de colo de útero caem próximos a zero.
“A vacina não é capaz de tirar o vírus do corpo depois que ele entra”, afirma Mônica Levi. “Por isso, o melhor a fazer é vacinar assim que possível e garantir que ele ou ela estejam protegidos no futuro.”



