Pai soropositivo comemora o seu dia com a filha, que nasceu sem o vírus, nos braços

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09/08/2014 – 12h

Quando recebeu o diagnóstico de HIV, o técnico em edificações Saulo Fonseca de Lima, 56 anos, sofreu com a ideia de que poderia deixar seus dois filhos “sem pai no mundo”. O mais velho, Henrique, tinha três anos e a segunda filha, Clarice, ainda ia nascer – a mulher de Saulo, Renata, estava no fim da gravidez. Passados 18 anos, nesse domingo (10), Saulo vai comemorar o Dia dos Pais ao lado de três filhos, porque a família aumentou com a chegada da caçulinha, Sofia, de dez meses. “Não existe pai mais realizado do que eu”, ele diz.

E tem mais herdeiro chegando na família Fonseca de Lima. Em breve, vai nascer o primeiro filho de Henrique. “Não deu para ver o sexo, pois o bebê está sentado, mas a Renata aposta num menino”, conta o futuro avô, certo de que a casa ficará mais alegre e animada com duas crianças crescendo juntas. “Vou adorar ver isso”, ele comenta.

Enfrentando o diagnóstico

Saulo conta que quando ele e Renata esperavam a filha do meio, Clarice, ele começou a emagrecer. Nunca havia ficado doente e estranhou a perda repentina de peso. Procurou um médico, que pediu o exame de HIV.

“Eu não imaginava que daria positivo. Fiquei sem chão. A Renata fez o teste e deu positivo. Imediatamente, ela começou a tomar os antirretrovirais. O Henrique fez o teste e deu negativo, graças a Deus. Logo depois, a Clarice nasceu com diagnóstico positivo e eu me senti, mais uma vez, derrotado.”

Saulo conta que se preocupava com o futuro das crianças sem os pais. “Porque eu achava que íamos morrer e eles ficariam soltos no mundo.” Clarice nasceu prematura e, desde pequena, se mostrou guerreira, lutando pela vida. “Puxou à mãe, a quem eu devo tudo o que tenho e sou hoje. Renata tem uma cabeça maravilhosa e se estou vivo é por causa dela”, continua Saulo.

Clarice cresceu bem, segundo o pai, tem vida normal, amigos, namorados e lida bem com a doença. “Tudo o que a Clarice quer é ser feliz e fazer felizes as pessoas que vivem com ela.”

Mais tranquilos, com o casal de filhos entrando bem na fase adulta e eles mesmos com a saúde em dia, a carga viral indetectável, ambos trabalhando com disposição, Saulo e Renata começaram a sonhar com outro bebê.

Reprodução assistida

O casal se informou sobre a possibilidade da gravidez sem risco no Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids (CRT), ligado ao Programa Estadual de DST/Aids do Estado de São Paulo. Era ali que Renata se tratava, e se trata até hoje, com a infectologista Denise Lotufo. Ela os encaminhou para o Ambulatório de Reprodução Assistida – na época o setor contava com a lavagem de esperma, método que elimina o HIV dos espermatozoides.

“Acontece que a gente acabou engravidando antes de fazer esse procedimento, pelo método natural mesmo”, conta Saulo. “Claro que sabíamos que nossa carga viral estava indetectável e seguiu assim, fizemos um controle médico rigoroso durante os nove meses. Mesmo assim, ficava uma preocupação. Afinal, risco sempre existe, não há certezas nessa vida.”

Sofia nasceu sem HIV. “Fomos abençoados”, ele diz. “Criança é uma bênção de Deus e estamos todos muito felizes aqui em casa.”

Gravidez com segurança

A médica Denise Lotufo, gerente da Assistência Integral à Saúde do CRT-SP, explica que, hoje em dia, com a carga viral indetectável, é possível o homem ter filho sem transmitir o HIV a ele. Mas, para isso, é preciso que haja acompanhamento médico.

“Se a parceira não tem o vírus, é recomendada a inseminação artificial, realizada da mesma forma que é feita pelos casais soronegativos. Ou a profilaxia pré-exposição (PrEP), que é a administração de antirretrovirais para se evitar a infecção. Aí, a orientação cabe ao médico. A PrEP pode, por exemplo, ser ministrada só no período fértil quando os dois vão transar. Depende do entendimento com o médico”, diz a infectologista.

Denise explica que o Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece a opção da lavagem de espermas. NO CRT, o serviço existiu graças a uma parceria com a Faculdade de Medicina do ABC. “Mas o convênio acabou e estamos tentando uma nova parceria para trazê-lo de volta. Inclusive, queremos fazer a lavagem aqui mesmo, dentro do CRT. Antes, era na faculdade do ABC.”

A infectologista Zarifa Khoury, do Hospital Emílio Ribas e do Programa M unic ipa de DST/Aids de São Paulo, alerta para o fato de que é muito importante a carga viral do homem que queira ser pai estar indetectável há pelo menos um ano. E da mulher também, no caso de ela ter HIV. “Além disso, o casal precisa estar livre de quaisquer outras DSTs e com a saúde geral em dia”, continua Zarifa. “A lavagem do esperma aumenta a segurança.”

Dica de entrevista:

Denise Lotufo, CRT-SP
Tel.: (11) 5087-9835

*Os nomes foram trocados a pedido da família

Fátima Cardeal (fatima@agenciaaids.com.br)

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