Um clérigo que enxergou a importância do acolhimento, da convivência, do incentivo ao tratamento e da educação para jovens e crianças na primeira década da chegada do HIV em São Paulo, no Brasil. Fundou as primeiras casas de apoio para este público. Deu mais um passo: com ousadia e muita coragem, disse que a Igreja deveria rever sua posição em relação aos preservativos e sempre incentivou o uso desse insumo de prevenção. Com Alzheimer já há algum tempo, morando em Turim, na Itália, Padre Valeriano Paitoni morreu na madrugada de domingo, na casa de convivência para anciãos onde passou seus últimos anos na cidade italiana.
Comoção, respeito e reverência por seu trabalho e história.
Acompanhe a repercussão entre profissionais e ativistas que conviveram e conheceram de perto o legado de Valeriano.
Dra. Marinella Della Negra, infectologista responsável pelo primeiro ambulatório que atendeu crianças com HIV no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo:
“Tinha uma personalidade marcante, cuidava e gerenciava as casas com muita responsabilidade.”

“Recebi uma notícia que me deixou triste: a morte do Padre Valeriano. Quem era este padre? — os mais jovens perguntarão. E, com muito respeito, saudade e de forma breve, esclareço que Padre Valeriano foi um representante da Igreja Católica que, nos primeiros anos da pandemia de HIV, foi responsável pela Casa Siloé, que abrigava crianças vivendo com HIV. Tinha uma personalidade marcante, cuidava e gerenciava a casa com muita responsabilidade e, nas horas vagas, era um artesão da madeira. Um adeus cheio de gratidão, carinho e saudade — e a certeza de que a recepção será uma festa.”
Dra. Maria Clara Gianna, ex-coordenadora do CRT/Aids de São Paulo:
“Nós temos que agradecer muito a importância das ações e atitudes do Padre Valeriano na consolidação e construção da resposta brasileira ao HIV e à Aids.”

“Padre Valeriano, temos uma enorme admiração pelo seu trabalho — pelo seu trabalho com as casas de apoio, pela criação da Casa Siloé para as crianças filhas de pais que viviam com HIV. Eram crianças que muitas vezes precisavam de todo cuidado e apoio, e aquelas casas de apoio — eu lembro bem da Casa Siloé, que ele esteve à frente — foram sempre referência importantíssima nos anos 80.
Nessa mesma época, tenho que falar também da importância do Padre Valeriano dentro da Igreja Católica, colocando em pauta as estratégias de prevenção e o uso do preservativo como forma de conter o crescimento do HIV. O Padre Valeriano foi fundamental nesses enfrentamentos. Nós temos que agradecer muito a importância das ações e atitudes do Padre Valeriano na consolidação e construção da resposta brasileira ao HIV e à Aids.”
Eduardo Barbosa, coordenador do Mopaids — Movimento Paulistano de Luta Contra Aids:
“Ele esteve muito além de seu tempo e sem estar preso a amarras, sejam elas quais fossem.”

“Muito triste esta notícia. Fiquei sabendo há pouco. Padre Valeriano foi um grande incentivador e partícipe da história inicial do Foaesp e do Mopaids. Além de todo o seu trabalho com as crianças vivendo com HIV e expostas nas casas de apoio mantidas por ele — Casa Siloé, Lar Suzanne e Lar Betânia, em especial. Atuou de forma incisiva na divulgação de métodos preventivos. E recordo, com emoção, uma celebração eucarística em que ele ergueu a camisinha no momento da consagração. Ele esteve muito além de seu tempo e sem estar preso a amarras, sejam elas quais fossem. Devemos manter viva a sua memória. Padre Valeriano, presente!”
Redação da Agência de Notícias da Aids




