15/3/2007 – 11h25
“A bula do remédio diz que se eu interromper o tratamento, não posso mais utilizá-lo. Estou com alguns comprimidos a mais, fornecidos pelos meus amigos, mas só tenho o suficiente até sábado. Com quem devo reclamar a falta do abacavir?”, diz indignada, Tatiana (nome fictício), 45 anos e desempregada, que se descobriu soropositiva há 6 meses. Em fevereiro deste ano, o Programa Nacional de DST/Aids divulgou nota técnica orientando os Programas Estaduais e Municipais do País a não utilizar em novos tratamentos o Abacavir 300mg, produzido pela Glaxo-Smith-Kline, até a regularização da situação. O motivo, segundo o órgão do Ministério da Saúde, foi a burocracia causada exclusivamente pela farmacêutica em assinatura de novo contrato. O PN informou que nesta sexta (16) recebe o primeiro lote de emergência, sendo que os medicamentos devem chegar ao Estado até a próxima quarta-feira.
“Fico pasma com o descaso do governo, afirmando que toda pessoa soropositiva tem direito aos remédios. Em contato telefônico com minha médica na última sexta-feira, ela informou que, caso o Abacavir não aportasse nos centros de referência , mudaria minha medicação. Por que mudar um tratamento que está dando certo? A substituição somente deveria ser realizada em caso do avanço do vírus, que não é meu caso”, afirma Tatiana*, que se trata no Hospital São Paulo, da Unifesp.
Desde fevereiro, ativistas do Fórum de ONG/Aids de São Paulo criticam o caso e afirmam que o governo não é transparente sobre as negociações de medicamentos. Anteriormente, a diretora do Programa Nacional de DST/Aids, disse em entrevista à Agência de Notícias da Aids que o governo sempre sinalizou quando há uma negociação e sempre fornece os resultados finais. Assim como realiza a negociação com base em tabelas de preços internacionais, como a da ONG Médicos Sem Fronteiras.
Segundo o Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, quando os Estados receberem o medicamento, automaticamente a nota técnica 18/07 não terá mais validade. O documento pede para que os novos tratamentos só utilizem o medicamento Abacavir caso não exista outra alternativa. O texto ainda afirma que a prioridade de uso do anti-retroviral deverá ser para gestantes ou mulheres com possibilidade de engravidar em uso de rifampicina por co-infecção do HIV e Tuberculose (saiba mais).
Tatiana fez reclamações sobre o Ministério da Saúde durante esta semana para o e-mail da redação da reportagem e foi informada de que, talvez, o seu tratamento pudesse ser substituído, conforme a nota técnica afirma, o que ela não concordou. Ela ainda informou que pretende ir nesta sexta ao CRT para verificar se existe medicamento, conforme pediu sua médica no Hospital São Paulo.
Rodrigo Vasconcellos
* O nome foi trocado a pedido da fonte, para não expor sua sorologia à família


