Outubro Verde: “O Brasil ainda não eliminou a sífilis congênita como problema de saúde pública por falta de vontade política”, diz o médico Mauro Romero

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A sífilis congênita – condição em que um bebê nasce com sífilis devido à transmissão da infecção da mãe para o feto durante a gravidez –, continua sendo um desafio de saúde pública. Em 2021, foram registrados no Brasil mais de 167 mil novos casos de sífilis adquirida e 74 mil casos em gestantes. No mesmo ano, outras 27 mil ocorrências de sífilis congênita foram diagnosticadas, além de 192 óbitos por esse tipo de sífilis. Por conta do aumento de novos casos entre gestantes e recém-nascidos, a infecção tem causado preocupação na comunidade médica e na sociedade como um todo. Mas então, quais são as estratégias necessárias para acabar a sífilis congênita enquanto problema de saúde pública no país? Para responder a pergunta, neste Outubro Verde – campanha de conscientização sobre a sífilis e sífilis congênita, a Agência Aids conversou com o médico Mauro Romero Leal Passos,  reconhecido nacionalmente por sua atuação no combate à sífilis. Ele é ginecologista, artista e professor titular e chefe do setor de DST da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, no Rio de Janeiro.

Dr. Mauro Romero destacou que, apesar dos esforços das autoridades de saúde, a epidemia de sífilis continua se espalhando e a educação da população sobre diagnóstico precoce, tratamento adequado e prevenção se torna cada vez mais necessária e urgente. Nesse sentido, sublinhou que campanhas de conscientização e testagem em larga escala são fundamentais para combater essa ameaça à saúde pública no Brasil.

Segundo o especialista, eliminar o estigma associado à sífilis também é um passo importante rumo ao objetivo.

“Muita gente ainda acha que sífilis está atrelado a promiscuidade, que é coisa de posto de saúde de periferia, de gente pobre… e não é! A sífilis está acometendo e sempre acometeu todas as camadas sociais”, afirmou.

O especialista observou que a doença não faz distinção de classes sociais, no entanto, reconhece que populações mais vulneráveis estão mais suscetíveis a maiores agravos da infecção.

Testar e tratar 

O médico considera que o tratamento da sífilis é simples, acessível e altamente eficaz, e quanto mais se testar e tratar, menos casos de transmissão vertical da sífilis surgirão. Além disso, ele aponta a necessidade de responsabilizar todas as partes envolvidas, incluindo instituições de saúde que não investigaram casos de sífilis de maneira apropriada. 

Ainda em relação aos desafios enfrentados no maior país da América Latina, dr. Mauro Romero criticou a falta de estudos qualitativos das fichas de notificação e ressalta a importância de investigar as causas subjacentes, como a limitação de exames em alguns territórios.

Tratamento 

No que diz respeito a novos tratamentos, ele mencionou que “não há avanços significativos nesse campo, e a penicilina segue sendo o tratamento padrão.”

Quando questionado sobre estratégias conjuntas para resolver o problema, o especialista enfatizou a importância da prevenção, do conhecimento sobre a sífilis e da testagem frequente. “Precisamos de mais investimento em políticas de saúde, a falta de autoteste para sífilis é um problema grave. O Brasil já possui testes semelhantes para outras doenças.”

É possível eliminar a sífilis congênita

Apesar de todos os desafios citados, acredita que é tecnicamente possível eliminar a sífilis congênita, desde que haja uma estrutura adequada e um comprometimento político sério para testar e tratar todas as gestantes de maneira apropriada, em tempo oportuno.

“Hoje são vários os impeditivos, a situação não é específica do Presidente da República, do diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), nem tão pouco sozinho de quem atende o paciente, muito menos da mãe grávida que está infectada. A questão passa por uma série de fatores envolvendo o estado, toda a sociedade civil, a imprensa, as sociedades médicas […]”, disse.

O ginecologista explicou que para determinar se uma gestante tem sífilis congênita, é fundamental seguir critérios específicos. “Um deles é a detecção de treponema pallidum, o agente causador da sífilis, na gestante. Essa detecção pode ocorrer mesmo que a mãe não apresente sintomas visíveis da doença, como feridas genitais ou manchas na pele. Às vezes, a sífilis pode permanecer latente, o que significa que o treponema pallidum entrou no corpo, mas não apresenta sinais clínicos óbvios. Nesses casos, é possível coletar uma amostra de sangue da gestante e medir os anticorpos produzidos em resposta ao agente infeccioso. Se esse teste der positivo, mesmo na ausência de sintomas, é indicativo de sífilis latente, e o tratamento deve ser administrado.”

Cuidados na gestação

“Quando o tratamento é realizado até 1 mês antes do parto, o bebê nasce protegido. No entanto, é importante garantir que a gestante seja tratada antes do parto. Ela não deve receber tratamento nos dias anteriores ao parto, pois é necessário um intervalo de tempo para que a penicilina atravesse a placenta e alcance o bebê por meio do cordão umbilical para tratar a infecção. O ideal é iniciar o tratamento até a 28ª semana de gestação. Caso o bebê nasça após a 40ª semana, é aconselhável tratar até a 35ª ou 36ª semana. Embora a chance de o bebê nascer infectado seja reduzida, não é nula.”

“Por isso, insisto que o primeiro passo crucial é realizar os exames de diagnóstico. Testar a gestante, testar, testar e testar… No Brasil, um problema alarmante é que em muitos casos, cerca de 40% das notificações de sífilis congênita ocorrem quando a mãe é diagnosticada positiva apenas durante o parto”, lamentou afirmando que isso significa que a qualidade do acompanhamento pré-natal foi insatisfatória.

Segundo o médico, esse dado é um fato documentado pelo próprio Ministério da Saúde e deve ser olhado com seriedade, “para saber onde foi feito o pré-natal, quem fez, o que está anotado na caderneta…”

Notificação compulsória

“O Brasil tem uma lei de notificação compulsória, ou seja, a sífilis é uma doença que você perde a sua individualidade e é obrigado a fazer o registro [às autoridades de saúde]; essa lei diz que cabe ao estado fazer a vigilância epidemiológica. O estado te obriga a notificar determinadas HIV, hepatite B, hepatite C, sífilis, sífilis adquirida, mas o Brasil não faz investigação de caso”, criticou, destacando que só com avaliação profunda é possível observar quais foram as oportunidades perdidas, as falhas e assim, corrigi-las.”

Sobre os gargalos, de acordo com o especialista, o ideal é trabalhar de forma integrada para que sejam superados, mas isso só será viabilizado com qualificação dos diagnósticos. “Não há estudo qualitativo das fichas”, lamentou.

Só com a união dos múltiplos esforços, segundo o especialista, será possível mudar a realidade da doença no país. “É fundamental uma política estratégica e de compromisso com a pauta da sífilis, dando visibilidade ao tema. Somente no estado do Rio de Janeiro são 180 óbitos em crianças em decorrência da sífilis. Qual calamidade matou 180 crianças no ano?”, questionou o médico, lembrando que “ainda há muitos óbitos que nem são registrados como sífilis congênita.” 

Prevenção 

Falando de prevenção, o especialista assegurou que  o preservativo é indispensável na luta contra a doença. “A ferida da sífilis pode passar despercebida e ser confundida, por isso, a camisinha é tão fundamental na prevenção.”

Políticas públicas de saúde

Maior investimento para políticas de saúde pública, o que inclui a massificação e ampliação da testagem é outro caminho, segundo ele.

O médico acredita que é possível vencer a sífilis adquirida e congênita enquanto problema de saúde pública. “A sífilis adquirida pode demorar um pouco, mas a sífilis congênita tecnicamente é possível acabar em 1 ou 2 anos. Se toda pessoa gestante for testada e tratada, daqui nove meses não teremos novos casos de sífilis congênita”, finalizou.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Dr. Mauro Romero

Instagram: @drmauroromero

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