Outubro Verde e a Sífilis Congênita: um agravo 100% evitável que ainda desafia a saúde pública no Brasil

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Celebrado em todo o país, o Outubro Verde é o mês dedicado à mobilização pelo combate à sífilis e à sífilis congênita. A data foi instituída para chamar a atenção de gestores, profissionais de saúde e da população para a importância da testagem, do tratamento e da eliminação da transmissão vertical da infecção — aquela passada da mãe para o bebê durante a gestação. Em São Paulo, a campanha vem sendo reforçada desde 2016, com a realização da Semana Paulista de Mobilização contra a Sífilis Congênita, uma iniciativa que une vigilância, atenção básica e sociedade civil em torno do mesmo objetivo: reduzir casos e salvar vidas.

Mesmo com os avanços, os números ainda revelam um desafio. A sífilis congênita continua sendo um dos problemas mais persistentes da saúde pública brasileira. Transmitida da mãe para o bebê, a infecção pode causar abortos, natimortos e diversas complicações graves, mas é totalmente evitável quando há diagnóstico e tratamento adequados. Para a médica pediatra e epidemiologista Dra. Carmen Domingues, coordenadora das ações para eliminação da transmissão vertical do HIV, da sífilis e do HTLV no Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo, o cenário exige um olhar atento, humano e comprometido com o cuidado integral das gestantes.

100% prevenível

“A sífilis congênita é a passagem do Treponema pallidum, a bactéria causadora da sífilis, da mãe para o bebê durante a gestação. É um agravo 100% evitável”, explica a doutora.

“Basta que a mulher faça o teste durante o pré-natal e, caso o resultado seja positivo, inicie o tratamento adequado com penicilina benzatina. É um medicamento simples, barato e altamente eficaz.”

Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta números preocupantes. Segundo Carmen, o país está inserido em uma região — as Américas — que concentra a maior incidência de sífilis adquirida e congênita no mundo:

“Dentro da América Latina, o Brasil tem taxas muito elevadas. Isso acontece porque ainda temos muita sífilis adquirida, e, quanto maior esse número, maior a chance de transmissão para gestantes e bebês”, afirma.

Dra. Carmen Domingues | Acervo Pessoal

Desigualdades que atravessam o corpo das mulheres

Os dados mais recentes do estado de São Paulo mostram que a sífilis congênita não atinge todas as mulheres da mesma forma:

“A taxa de incidência de sífilis congênita em bebês de mães pardas é 41% maior do que em bebês de mães brancas. Entre as mães pretas, é 31% maior”, destaca Carmen.

“Quando olhamos para a sífilis em gestantes, o risco é ainda mais desigual: a taxa de detecção entre gestantes pretas é 82% superior à de mulheres brancas.”

Esses números evidenciam a influência de fatores como pobreza, escolaridade e acesso tardio ao pré-natal:

“A gente observa que essas mulheres enfrentam vulnerabilidades sobrepostas: desigualdade racial, social e territorial. Elas muitas vezes acessam os serviços de forma tardia ou encontram barreiras no atendimento, o que aumenta o risco de infecção e de transmissão para o bebê”, acrescenta.

Para a médica, enfrentar a sífilis congênita passa necessariamente por uma resposta intersetorial e antirracista.

“Não é só uma questão de saúde. É também uma questão de direitos humanos. A gente precisa olhar para essas desigualdades e garantir um atendimento de qualidade para todas as mulheres, sem distinção.”

O papel do diagnóstico e do pré-natal qualificado

O diagnóstico precoce é a chave para a eliminação da sífilis congênita. Toda gestante deve realizar o teste para sífilis no primeiro trimestre, no terceiro trimestre e novamente no momento do parto. Em alguns municípios, como São Paulo, esse acompanhamento é ainda mais rigoroso, com até cinco testagens durante a gestação, segundo a médica.

“A testagem deve começar assim que a mulher inicia o pré-natal. De preferência com o teste rápido, que permite diagnóstico e início do tratamento no mesmo dia. Se o teste for reagente, já aplicamos a primeira dose de penicilina e seguimos com o VDRL [exame de sangue utilizado para rastrear a sífilis] para confirmar e acompanhar a evolução”, detalha a especialista.

No caso dos bebês, a testagem e o acompanhamento também são rigorosos:

“Todos os recém-nascidos de mães com sífilis devem ser avaliados. Se houver sinais de infecção, o bebê recebe tratamento com penicilina por dez dias e é acompanhado por 18 meses”, explica.

Tratar a gestante é essencial, mas tratar o parceiro é indispensável

Um dos pontos mais críticos, segundo Carmen Domingues, é o tratamento simultâneo das parcerias sexuais.

“Não adianta tratar apenas a gestante se o parceiro não for tratado. O risco de reinfecção durante a gravidez é alto. Todas as parcerias sexuais nos últimos 90 dias precisam ser testadas e tratadas, mesmo que o teste inicial dê negativo, porque a sífilis tem um período de incubação de até 90 dias”, ressalta.

Ela também destaca a importância do que chama de “pré-natal da parceria sexual”, um modelo que inclui o parceiro no acompanhamento da gestante.

“É um momento de cuidado compartilhado. A parceria deve fazer os testes para sífilis, HIV e hepatites, e aproveitar para cuidar da própria saúde. As unidades precisam estar preparadas para receber essas pessoas com horários mais flexíveis, inclusive noturnos ou aos sábados.”

Atenção básica: o coração da prevenção

Para a coordenadora, a atenção básica é o pilar central do enfrentamento à sífilis congênita.

“É na unidade básica de saúde que começa o cuidado com a mulher e com o bebê. Precisamos de um pré-natal qualificado, com pelo menos sete consultas, testagem oportuna, vínculo com a gestante e acompanhamento até o fim do tratamento.”

Ela reforça que os profissionais precisam estar capacitados para identificar, tratar e acompanhar casos:

“Não basta aplicar a penicilina. É necessário acompanhar os exames, garantir o retorno e buscar as pacientes que não voltaram ao serviço. O acolhimento e o vínculo são essenciais para o sucesso do tratamento.”

Além do atendimento direto, a médica defende o fortalecimento de ações comunitárias:

“A equipe de saúde precisa ir ao território, identificar gestantes, oferecer testagens em campanhas e ampliar o acesso a preservativos. O combate à sífilis começa antes mesmo da gravidez,quando conseguimos diagnosticar e tratar mulheres em idade reprodutiva.”

Estigma, desconhecimento e o poder da informação

O desconhecimento ainda é uma barreira importante.

“Muitas mulheres não sabem o quanto a sífilis pode ser grave para o bebê. É diferente do HIV, que tem uma percepção maior de risco. A sífilis, por ser muitas vezes silenciosa, passa despercebida. E o estigma de ser uma infecção sexualmente transmissível também afasta as pessoas do diagnóstico”, afirma.

Para ela, é urgente falar mais sobre saúde sexual de forma positiva e educativa, especialmente nas escolas.

“A gente precisa ensinar que sexualidade é parte da saúde. Falar de forma acolhedora, sem moralismo. A sífilis tem cura e é essa a mensagem mais importante.”

 

“A sífilis congênita é um evento totalmente prevenível. É um absurdo ainda termos bebês que morrem ou nascem com sequelas por algo que pode ser evitado com um teste e uma injeção de penicilina”, desabafa a médica.

Em 2024, o Estado de São Paulo registrou 4.209 casos de sífilis congênita, dos quais 509 resultaram em abortos ou natimortos 12,1% do total.

“Esses números representam vidas que poderiam ter sido salvas. Apesar disso, há avanços: entre 2022 e 2024, o estado reduziu a taxa de incidência em 5,6%, chegando a 8,4 casos para cada mil nascidos vivos. Ainda não é o ideal, mas mostra que estamos no caminho certo.”

O caminho para a eliminação

Eliminar a sífilis congênita como problema de saúde pública é uma meta global e também um compromisso do Brasil.

“Para chegar lá, precisamos reduzir a sífilis adquirida, garantir testagem oportuna e fortalecer a atenção básica. É preciso investir em educação, acolhimento e acesso, principalmente para as populações mais vulneráveis”, reforça Carmen.

A doutora encerra com um recado direto:

“A sífilis tem cura. O que falta é garantir que todas as pessoas tenham a mesma chance de se prevenir e de se tratar. A eliminação é possível e começa com o cuidado, o conhecimento e o compromisso de todos nós.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo

Tel.: (11) 5087-9901

Apoios