“Os arroubos de Trump podem servir para ampliar parcerias”, diz Ministro Alexandre Padilha ao jornal O Globo

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Quatro meses depois de voltar ao comando do Ministério da Saúde, Alexandre Padilha afirma que sua prioridade na pasta, o programa que prevê atendimento especializado na rede privada a pacientes do SUS, tem tido boa adesão, com a participação de mais de cem hospitais particulares em todo o país. Em entrevista ao GLOBO, o ministro disse que a ideia é expandir a iniciativa a partir deste mês, quando planos de saúde também poderão oferecer seus serviços como forma de abater dívidas com a União. Diante da  pressão do Congresso para um ajuste fiscal que restrinja gastos, Padilha afirmou não haver debate no governo sobre a possibilidade de acabar com o piso de recursos para a Saúde, e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura no sentido contrário, aumentando os investimentos na área. —Nenhum colega de governo nunca veio conversar comigo sobre qualquer hipótese de redução dos recursos da Saúde —afirma o ministro na entrevista. Padilha também disse que o quadro apontado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que incluiu o Brasil na lista de 20 países com maior número de crianças que não receberam vacinas, começou a ser revertido. Na entrevista, o ministro ainda disse acreditar que a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros, que deve entrar em vigor a partir de 6 de agosto, pode impulsionar o fortalecimento da indústria nacional da saúde e aproximar os brasileiros de países da União   Europeia e da Ásia, como a Índia.

 

 

O Brasil voltou neste ano à listada OMS dos 20 países com mais crianças não vacinadas no mundo. O que explica esse retrocesso? 

Nós já começamos a reverter esse quadro. Os nossos dados, divulgados em 2025, mostram o crescimento da cobertura vacinal. Estamos ampliando essa cobertura no país. Das 16 vacinas que a gente aplica, 15 delas avançaram em 2025, nos primeiros meses, na comparação com 2024, e uma delas está estável. Uma coisa importante é o avanço do Saúde na Escola. Nos primeiros quatro meses, mais de um milhão de crianças foram vacinadas dentro da escola. 

Os Estados Unidos anunciaram o fim do financiamento a iniciativas globais de saúde, como a Gavi, uma organização global que ajuda a comprar vacinas destinadas a crianças em países pobres.Esse corte pode afetar o Brasil? 

Nós temos visto o presidente americano, Donald Trump, desde o começo do governo, fazer ataques absurdos à saúde. Tudo que puder piorar a saúde global ele tem feito. Com todo o esforço mundial pós-pandemia, ele tenta impedir e reduzir recursos. O ataque de qualquer país à Organização Mundial de Saúde ou aos fundos de cooperação afeta a saúde global e obriga outros países a assumir maior protagonismo.

Qual será a estratégia adotada pelo Brasil para alcançar as metas do G20em saúde diante da interrupção de financiamentos pelos EUA? 

Nós estamos encarando isso como uma oportunidade: aproveitar a preocupação de empresas da União Europeia com os cortes de investimento em pesquisa e o cancelamento de contratos nos Estados Unidos. Ele cancelou um contrato com uma empresa privada americana, então imagina o que pode fazer com outras formas de produção de vacinas? Vamos aproveitar essa insegurança jurídica, a postura anti vacina, anti pesquisa e anti cooperação dos EUA para atrair investimentos ao Brasil, reforçando o papel da coalizão do G20. Portanto, vemos esses arroubos do Trump como uma oportunidade. Uma oportunidade para fortalecer nossas parcerias com a União Europeia, com a Índia, com os Brics. Para ampliar a produção de medicamentos e insumos aqui no Brasil.

O governo aposta no Agora Tem Especialistas, que  prevê atendimento de pacientes na rede  privada com forma de reduzir as filas no SUS.Como tem sido a adesão a esse programa até agora?

Já há mais de cem hospitais que aderiram. É um mecanismo novo .A nossa meta é poder ofertar para o ano que vem R$ 2 bilhões de crédito. Isso significa trocar esse crédito por R$ 2 bilhões por cirurgias, exames, tratamento especializado. Se alcançarmos essa meta, é mais do que tudo o que foi feito, por exemplo, no programa de redução de filas que havia antes. E também abrimos a possibilidade de adesão aos planos de saúde, que também têm rede própria de hospitais, ou podem credenciar hospitais. É lá (na rede privada) que está a maioria dos médicos especialistas, os equipamentos para exames complexos como tomografia, ressonância, ecocardiograma.

O senhor acredita que o  programa poderá servir de bandeira eleitoral para Lula em 2026,  como espera o presidente? 

A primeira  motivação para o Ministério da Saúde se dedicar tanto ao Agora Tem Especialistas é para cumprir um compromisso feito pelo presidente Lula durante as eleições. Ele disse que ia usar todos os mecanismos possíveis da saúde pública e da saúde privada para que a gente pudesse ter mais atendimento especializado, mais consultas e mais cirurgias especializadas no país. A população iidentifica algumas ações inovadoras, como essa.Mas a gente  não está preocupado em que isso seja uma marca.

Há discussões no governo sobre a possibilidade de mudança no piso da saúde? 

Nunca vi qualquer debate dentro do governo, muito menos por parte do presidente Lula, sobre redução dos recursos da Saúde, muito pelo contrário. O presidente fez o maior aumento de orçamento que o Ministério da Saúde já teve na sua história. Ele (Lula) o tempo todo reafirma a saúde como investimento. Nunca vi o presidente Lula (defender o fim do piso), e nenhum colega de governo nunca veio conversar comigo sobre qualquer hipótese de redução dos recursos da Saúde.

Antes  de o Congresso entrar em recesso, o governo enfrentou reclamações de parlamentares pela     demora em liberar emendas, em especial da Saúde.Essa questão foi resolvida? 

A partir do dia que o Ministério da Saúde esteve autorizado pela aprovação do orçamento, para empenhar e pagar, nós batemos o recorde na liberação de emendas. Fizemos portarias que ajudam os parlamentares a priorizar as emendas conforme as necessidades de saúde dos territórios onde atuam. Temos uma grande prioridade no país: reduzir o tempo de espera para cirurgias, tratamentos, consultas e exames. Fizemos um esforço para que boa parte das emendas fosse direcionada a isso —e está acontecendo.

O tarifaço anunciado por Donald  Trump afeta a área da saúde no país, como no preço de remédios? 

O impacto que vai ter em empresas de medicamentos vamos ter que acompanhar. Nós temos empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos. Então, vamos ter um papel importante de apoiar essas empresas.

O senhor participou de reunião com o presidente nesta semana para discutir a reação do Brasil ao tarifaço. O que foi decidido? 

O Brasil tem regras. Nós não vamos fazer nada fora da regra.O presidente Lula não vai cometer nenhum ato contra a Constituição brasileira. Nós vamos fazer tudo o que for necessário para defender o Brasil.Não vamos permitir que uma atitude absurda, nascida de uma mentira, de um presidente irresponsável, venha impactar a saúde do povo brasileiro. Essa é a minha missão enquanto ministro da Saúde.

Entrevista concedida as jornalistas Karolini Bandeira e Jenifer Gularte de O Globo

 

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