Orgulho também é saúde: por que o 28 de Junho continua sendo um ato de resistência para a população LGBTQIA+

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Violência, discriminação e estigma ainda afastam milhares de pessoas LGBTQIA+ dos serviços de saúde no Brasil. Especialista alerta que combater o preconceito também é uma estratégia de saúde pública e defende um cuidado integral, livre de julgamentos e baseado no respeito à diversidade.

Há 57 anos, frequentadores de um pequeno bar em Nova York decidiram que não fugiriam mais. Na madrugada de 28 de junho de 1969, a reação às constantes batidas policiais no Stonewall Inn transformou um episódio de violência em um marco histórico da luta pelos direitos da população LGBTQIA+. Desde então, o orgulho passou a simbolizar muito mais do que a celebração da diversidade: tornou-se uma afirmação da existência, da cidadania e do direito de viver sem medo.

No Brasil de 2026, essa resistência continua necessária. Embora o país tenha conquistado importantes avanços em direitos e políticas públicas, milhões de pessoas LGBTQIA+ ainda convivem com violência, discriminação e obstáculos para acessar serviços de saúde de forma segura e acolhedora. Para especialistas, falar sobre orgulho significa também discutir prevenção, saúde mental, acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS), combate ao estigma e promoção da cidadania. Mais do que uma pauta de direitos humanos, trata-se de uma questão de saúde pública.

Segundo dados do Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+, o Brasil permanece entre os países com maior número de mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, reflexo de uma violência motivada pela LGBTfobia que persiste em diferentes regiões do país. Mas as agressões físicas representam apenas uma parte desse problema.

A violência também se manifesta quando uma pessoa evita procurar atendimento por medo de sofrer discriminação; quando seu nome social não é respeitado durante uma consulta; quando profissionais desconhecem necessidades específicas relacionadas à orientação sexual e identidade de gênero; ou quando políticas públicas deixam de considerar as diferentes realidades vividas por essa população.

Para o infectologista Dr. Mateus Cardoso, do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo, saúde e orgulho caminham juntos. “Falar de orgulho significa reconhecer conquistas sociais e políticas, mas também lembrar que a população LGBTQIA+ ainda enfrenta desigualdades importantes no acesso à saúde.”

Segundo ele, o direito à saúde vai muito além da oferta de consultas, exames ou medicamentos. “O direito à saúde não se resume ao acesso a consultas, exames ou medicamentos; ele depende também de um ambiente em que as pessoas possam existir sem medo de discriminação, violência ou exclusão. Quando esses direitos são violados, os impactos aparecem nos indicadores de saúde.”

O médico explica que discriminação, estigma e violência produzem efeitos concretos sobre o bem-estar físico e mental da população LGBTQIA+, aumentando o risco de ansiedade, depressão, sofrimento psíquico, uso abusivo de álcool e outras drogas, além de comprometerem o vínculo com os serviços de saúde.

“Quando uma pessoa evita procurar atendimento por receio de sofrer preconceito, perde-se a oportunidade de diagnóstico precoce, prevenção e acompanhamento adequado. Muitas dessas vulnerabilidades não decorrem da orientação sexual ou da identidade de gênero em si, mas das desigualdades produzidas pela discriminação estrutural.”

Muito além do HIV

Durante décadas, a saúde da população LGBTQIA+ foi quase sempre associada à epidemia de HIV. Essa relação teve importância histórica, impulsionou políticas públicas e mobilizou movimentos sociais, mas também alimentou estigmas que permanecem até hoje.

Estudo divulgado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) mostra que romper essa associação é um dos desafios atuais para garantir uma abordagem verdadeiramente integral da saúde LGBTQIA+.

Dr. Mateus Cardoso lembra que a origem desse estigma remonta aos primeiros anos da epidemia. “Esse estigma tem raízes históricas. No início da epidemia de HIV, na década de 1980, houve uma associação equivocada entre o vírus e homens gays, o que levou inclusive ao uso do termo ‘grupo de risco’. Hoje sabemos que o HIV não se restringe a nenhum grupo específico. O risco está relacionado às práticas, aos contextos de vulnerabilidade e, principalmente, ao acesso à informação, à prevenção e aos serviços de saúde.”

Segundo ele, a permanência desse imaginário coletivo produz consequências que vão muito além da discriminação. “A população LGBTQIA+ continua sendo frequentemente associada quase exclusivamente ao HIV, quando, na verdade, estamos falando de uma população diversa, com demandas amplas de saúde, educação, trabalho, cultura e direitos.”

O resultado, afirma o infectologista, é que o preconceito acaba comprometendo as próprias estratégias de enfrentamento da epidemia. “Esse estigma produz consequências concretas. Ele perpetua a falsa percepção de que o HIV é um problema restrito à população LGBTQIA+, o que prejudica as estratégias de prevenção em toda a sociedade.”

O maior desafio já não é tecnológico

A ciência transformou completamente a resposta ao HIV. Hoje, o Brasil oferece gratuitamente pelo SUS preservativos, testagem, profilaxia pré-exposição (PrEP), profilaxia pós-exposição (PEP) e tratamento antirretroviral. Além disso, evidências científicas consolidaram o conceito de Indetectável=Intransmissível (I=I), demonstrando que pessoas vivendo com HIV que mantêm carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual.

Para Mateus Cardoso, esses avanços mudaram radicalmente a vida de milhares de pessoas. “Para a população LGBTQIA+, especialmente para homens gays, bissexuais, outros homens que fazem sexo com homens e pessoas trans, esses avanços significaram mais autonomia, mais segurança e melhor qualidade de vida.”

No entanto, ele ressalta que nenhuma tecnologia consegue superar, sozinha, as barreiras impostas pelo preconceito. “Hoje contamos com ferramentas extremamente eficazes de prevenção e tratamento. No entanto, nenhuma dessas conquistas científicas será plenamente efetiva enquanto o preconceito continuar funcionando como barreira ao cuidado.”

E faz um alerta que resume um dos principais desafios atuais da resposta ao HIV. “Atualmente, o maior desafio em relação ao HIV não é a falta de tecnologia, mas o estigma. E combater o estigma também é uma intervenção de saúde pública.”

Saúde integral significa olhar para a pessoa inteira

Especialistas defendem que a saúde da população LGBTQIA+ precisa ser compreendida de forma muito mais ampla do que a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis.

Saúde mental, envelhecimento, atenção básica, saúde sexual e reprodutiva, prevenção das violências, acompanhamento hormonal para pessoas trans e promoção da qualidade de vida fazem parte desse cuidado.

Segundo o infectologista, o primeiro passo é abandonar a ideia de que essa população deve ser lembrada apenas quando o assunto é HIV. “A saúde é muito mais ampla do que isso.”

Ele destaca que pessoas trans necessitam de acesso qualificado ao processo transexualizador e à terapia hormonal, enquanto homens trans e mulheres cis devem ser incluídos nas estratégias de rastreamento de câncer ginecológico sempre que houver indicação clínica. “O cuidado deve ser individualizado, baseado nas necessidades de cada pessoa, e não em estereótipos.”

Quando o preconceito adoece

Diversos estudos demonstram que pessoas LGBTQIA+ apresentam maior frequência de ansiedade, depressão e sofrimento psíquico. A causa, porém, não está na orientação sexual ou identidade de gênero. Está na exposição contínua ao preconceito, à violência, à exclusão social e à rejeição familiar — fenômeno conhecido como estresse de minoria.

O impacto dessa discriminação é visível na rotina dos serviços de saúde. “Na prática, isso significa que muitas pessoas LGBTQIA+ adiam consultas, deixam de realizar exames preventivos ou interrompem tratamentos por medo de serem julgadas, desrespeitadas ou terem sua identidade questionada.”

O resultado é conhecido. “O diagnóstico tardio de doenças, menor adesão ao cuidado e o agravamento de condições que poderiam ser prevenidas ou tratadas precocemente.”

O SUS avançou, mas o acolhimento ainda precisa avançar junto

O Brasil possui uma das políticas públicas mais avançadas da América Latina para a população LGBTQIA+: a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Apesar disso, sua implementação ainda acontece de maneira desigual entre estados e municípios.

Na avaliação do infectologista, houve avanços importantes na formação dos profissionais, mas ainda existe um longo caminho para garantir atendimento verdadeiramente inclusivo.

“Muitas das dificuldades não decorrem de má vontade, mas de uma formação que historicamente dedicou pouco espaço às questões relacionadas à saúde da população LGBTQIA+.”

Segundo ele, acolher bem também faz parte do tratamento. “Quando uma pessoa se sente julgada ou desrespeitada em uma consulta, ela tende a adiar o retorno ao serviço de saúde, deixa de realizar exames preventivos, interrompe tratamentos ou evita procurar assistência.”

Por isso, investir na qualificação dos profissionais é uma estratégia de saúde pública. Mais do que conhecimento técnico, é preciso desenvolver competências relacionadas à comunicação, diversidade e equidade.

“A confiança pode ser uma ferramenta terapêutica. Quando o paciente confia no profissional, ele testa, previne, trata e retorna ao acompanhamento. O acolhimento não é apenas uma questão de empatia; é uma intervenção que melhora desfechos em saúde.”

Orgulho é existir. E também é cuidar

Reduzir as desigualdades em saúde da população LGBTQIA+ passa por fortalecer políticas públicas, ampliar o acesso aos serviços, produzir mais pesquisas, qualificar profissionais e enfrentar os determinantes sociais que alimentam a exclusão.

Para o dr. Mateus, essa não é uma pauta restrita a um grupo específico. “A saúde da população LGBTQIA+ não deve ser tratada como uma pauta de um único grupo. É um indicador da capacidade de uma sociedade de oferecer cuidado com qualidade, equidade e respeito à dignidade humana.”

Neste 28 de junho, a mensagem deixada pelo infectologista sintetiza o significado do Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. “O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ é, antes de tudo, um momento para reafirmarmos que saúde, dignidade e direitos humanos caminham juntos. Não existe saúde plena quando uma pessoa deixa de procurar atendimento por medo de ser discriminada ou quando precisa esconder quem é para ser acolhida.”

E conclui: “Como infectologista, acredito profundamente no poder da ciência. Mas aprendi que a ciência, sozinha, não elimina barreiras. Ela precisa caminhar ao lado da educação, das políticas públicas e do respeito às diferenças. O orgulho não é apenas uma celebração da diversidade; é também um compromisso coletivo com uma sociedade mais justa, mais saudável e mais humana para todos.”

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Dr. Mateus Cardoso

Instagram: @mateus.infectologia

 

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