Orgulho que atravessa décadas: a trajetória de David Harrad, pai, ativista e resistência viva do 28 de Junho

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Celebrar o Dia do Orgulho LGBT+, em 28 de junho, é, para David Harrad, um exercício de memória e resistência. “Significa relembrar e comemorar os esforços daqueles que vieram antes de nós”, afirma. Britânico radicado no Brasil há mais de três décadas, David foi protagonista de importantes conquistas ao lado de seu companheiro Toni Reis — juntos, fundaram o Grupo Dignidade em 1992, enfrentaram batalhas judiciais por reconhecimento, adotaram três filhos e transformaram a própria vida em instrumento de transformação coletiva.

Quando chegaram a Curitiba, a organização de pessoas LGBT+ ainda era tímida. As reuniões do grupo que fundaram aconteciam no próprio apartamento do casal, porque sequer havia sede física. Mesmo assim, seguiram firmes. Um dos primeiros embates foi pela regularização da residência de David, então ameaçado de deportação — caso emblemático que culminou na mudança das regras de imigração do país para casais homoafetivos.

Ao longo dos anos, acompanharam — e protagonizaram — mudanças profundas na legislação brasileira, como a união estável, o casamento civil igualitário, o direito à adoção e a criminalização da LGBTfobia. E mesmo com todos os avanços, David não ignora os desafios que persistem, especialmente para quem, como ele, envelhece em uma sociedade ainda marcada pelo preconceito.

A construção de uma família também foi um marco. Tornar-se pai o transformou. “Aprendi a ser mais empático, mais humano. Tive que dividir o tempo entre o ativismo e a vida familiar”, compartilha. Ao lado de Toni, construiu uma relação baseada no diálogo, no respeito e em planos que renovam os sonhos a cada virada de ano. “Nossa vida particular sempre se misturou com questões coletivas.”

No 28 de junho, ele deixa uma mensagem clara: resistir continua sendo necessário. “É preciso manter um senso de indignação e agir”, diz. Aos mais jovens, David estende a mão e faz um convite à continuidade da luta. “Nós que somos mais velhos temos muito para ensinar, mas a juventude também tem suas sabedorias. Que elas assumam seus espaços com coragem.”

E para quem ainda tem medo de se assumir? David responde com a sabedoria de quem viveu isso na pele: “Você será respeitado por sua autenticidade. O importante é se aceitar do jeito que é e criar coragem de viver sua identidade com orgulho”.

Confira a entrevista a seguir:

Agência Aids: O que significa, para você, celebrar o Dia do Orgulho LGBT+ em 2025? O que mudou — e o que ainda precisa mudar?

David Harrad: Significa relembrar e comemorar os esforços daqueles que vieram antes de nós, aqueles que resistiram no levante de Stonewall em 1969. Significa perceber e celebrar como a situação das pessoas LGBT+ mudou para o melhor nestes 33 anos que estou no Brasil. Naquela época, havia apenas em torno de 20 grupos LGBT+ organizados em todo o Brasil. Não havia Paradas do Orgulho LGBT+. Os governos não ouviam nossas reivindicações. A sociedade em geral não nos apoiava. Grande parte das pessoas LGBT+ tinha medo de se assumir perante os outros, por medo de rejeição ou discriminação. Não desfrutávamos de direitos iguais, apesar dos preceitos da Constituição Federal neste sentido. Hoje somos visíveis, a maioria assumida. Muitas grandes empresas têm políticas de inclusão de pessoas LGBT+. Onde o Legislativo foi omisso, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu nossos direitos, como união estável/casamento, adoção, identidade de gênero, criminalização de atos LGBTfóbicos, entre outras conquistas. O Governo Federal tem em sua estrutura uma Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+. Em termos do que ainda precisa mudar, creio que um dos campos mais importantes seja a educação, promover a educação pelo respeito à diversidade de modo geral, inclusive a diversidade LGBT+. Além disso, ainda falta muito para concretizar a proteção contra a violência e a efetivação da criminalização de atos LGBTfóbicos.

Agência Aids: Você e Toni Reis são referência de resistência e amor no Brasil. Como foi construir essa trajetória, especialmente em um país que nem sempre reconheceu os direitos da população LGBT+?

David Harrad: Nossa vida particular sempre se misturou com questões coletivas. A trajetória começou com a fundação do Grupo Dignidade em Curitiba em 1992, voltado para a promoção e defesa dos direitos das pessoas LGBT+. Durante mais de um ano, o Grupo se reunia em nosso apartamento, porque inicialmente ter uma sede própria era um sonho inalcançável. Depois, eu tive o problema de residência legal no Brasil e essa foi a primeira grande luta nossa como casal, que se tornou pública e no final acabou mudando as regras de imigração do Brasil. Sempre fomos persistindo, com a adoção conjunta dos filhos, com o reconhecimento da união estável… Com os esforços conjuntos de muitas pessoas e instituições, isto se tornou possível.

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Agência Aids: Como você enxerga a importância da visibilidade de casais como vocês para inspirar outras pessoas LGBT+?

David Harrad: Não queremos ser um modelo, cada casal tem sua forma própria de agir e levar a vida. Por outro lado, a visibilidade é importante porque mostra que é possível construir uma relação duradoura entre duas pessoas do mesmo sexo. É importante também para a sociedade perceber que existem outras possibilidades de configuração familiar, além da tradicional.

Agência Aids: O amor de vocês atravessa décadas. Como é sustentar esse vínculo afetivo em meio às lutas sociais e aos desafios cotidianos?

David Harrad: Nossa relação se baseia no cuidado um do outro, do respeito, da cumplicidade, do gostar um do outro, da admiração mútua, do diálogo, do combinado… Faz em torno de 25 anos que a cada virada de ano fazemos um planejamento individual e também do casal. Pode acontecer de não cumprir todo ele, mas serve como norte para nos orientar ao longo do ano apesar dos desafios que possam surgir.

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Agência Aids: Com a chegada dos filhos, que aprendizados a vivência em família trouxe para você como cidadão e ativista?

David Harrad: Aprendi a dividir o tempo de uma forma mais equilibrada, entre ativismo e vida familiar, para poder dar atenção para os filhos. Aprendi a ser uma pessoa mais empática, mais “humana”.

Agência Aids: Ao lado de Toni, você tem atuado incansavelmente pela promoção de direitos. O que te move a continuar essa luta?

David Harrad: Apesar dos desafios que enfrentamos ao longo desses anos todos, nunca desistimos. Sempre persistimos e resistimos. E isso funcionou. Junto com muitas outras pessoas, contribuímos para o avanço rumo à cidadania plena das pessoas LGBT+. Perceber que isso é possível é uma motivação para continuar.

Agência Aids: Como foi acompanhar e participar das conquistas legais — como a união estável, o casamento igualitário e o reconhecimento de direitos civis — ao longo dos anos?

David Harrad: Foi emocionante! Para falar a verdade, quando começamos em 1992, jamais imaginamos que chegaríamos a ver, em nossas vidas, tantas conquistas importantes para a população LGBT+.

Agência Aids: Em tempos de retrocessos e discursos de ódio, o que podemos fazer para manter acesa a chama da resistência?

David Harrad: Manter um senso de indignação e agir. Desenvolver estratégias para desmentir os discursos de ódio, de forma inteligente, com evidências. Encontrar formas de “driblar” os retrocessos, adaptando a atuação para encontrar brechas que permitam avançar.

Agência Aids: Como britânico radicado no Brasil, como você enxerga as diferenças (e semelhanças) entre os movimentos LGBT+ aqui e na Europa?

David Harrad: Infelizmente, eu não participava de movimentos LGBTI+ quando eu morava na Inglaterra há mais de 30 anos atrás. Aprendo isso no Brasil ao lado do Toni.

Agência Aids: A linguagem e a tradução sempre estiveram presentes no seu trabalho. Que papel a cultura, as palavras e as narrativas têm na luta por direitos?

David Harrad: A luta por direitos não necessariamente precisa ser uma atividade de confrontação agressiva. Uma visão da conjuntura com discernimento, palavras bem escolhidas, argumentos bem fundamentados em evidências concretas e diálogo educado em consonância com o interlocutor são capazes de abrir caminhos que levam à conquista de direitos antes negados. A decisão de focar atenção no STF diante da inércia do Legislativa para com a garantia dos nossos direitos é um exemplo de como isto pode dar certo.

Agência Aids: O que você deseja ver no futuro da luta LGBT+ no Brasil?

David Harrad: Desejo que as conquistas obtidas sejam defendidas e mantidas e que se consiga atuar para diminuir o preconceito, a discriminação e a violência.

Agência Aids: Que mensagem você deixaria para as juventudes LGBT+ que estão chegando agora à militância?

David Harrad: Precisamos de jovens lideranças para assumir e continuar na promoção e defesa dos nossos direitos. Nós que somos mais velhos, para não dizer idosos, temos muito para ensinar a partir do que aprendemos nesses anos todos. Mas a juventude também tem suas sabedorias e seus conhecimentos peculiares que devem ser respeitados e desenvolvidos para inovar na militância.

Agência Aids: E para quem ainda tem medo de se assumir ou de viver sua identidade com orgulho?

David Harrad: No contexto em que eu me criei, na Inglaterra dos anos 1960 e 1970, primeiro a homossexualidade era um assunto tabu e só foi descriminalizado em 1967, quando eu tinha 9 anos. Segundo, só tinha o modelo heterossexual para aprender e seguir na pequena cidade onde eu morava. Quando percebi no início da adolescência que eu era gay, eu não conseguia me aceitar como tal e depois eu morria de medo de me assumir, principalmente porque achava que sofreria rejeição por parte dos meus pais.  Aprendi depois de muito conflito interno que o importante é ser você mesmo. Tive medo à toa, quando me assumi, meus pais me aceitaram. Não precisa se esconder ou fingir ser algo que não é. O importante é se aceitar do jeito que é e criar a coragem de viver sua identidade com orgulho. No final, apesar de eventuais dificuldades, você será respeitado/a por sua autenticidade.

📅 O que é o 28 de Junho?

O dia 28 de junho é reconhecido internacionalmente como o Dia do Orgulho LGBT+. A data marca o aniversário da Rebelião de Stonewall, que aconteceu em 1969, em Nova York, quando pessoas LGBT+ — em especial travestis, mulheres trans negras, gays e lésbicas — reagiram a uma violenta batida policial no bar Stonewall Inn, um dos poucos espaços que aceitavam abertamente pessoas LGBT+ naquela época.

O protesto espontâneo durou vários dias e se transformou em um símbolo de resistência contra a repressão, a violência e a exclusão. Foi a partir dali que o movimento moderno pelos direitos LGBT+ ganhou força, com as primeiras marchas do orgulho acontecendo nos anos seguintes, em várias partes do mundo.

O 28 de junho, portanto, não é uma data de festa no sentido superficial — mas sim de memória, visibilidade e reivindicação de direitos. É um dia para honrar quem resistiu, celebrar as conquistas da comunidade e lembrar que a luta ainda continua, especialmente diante dos retrocessos, da LGBTfobia e das desigualdades que persistem.

No Brasil, o Dia do Orgulho também se conecta com as trajetórias de militantes históricos, como David Harrad, que transformaram suas vidas em ferramentas de transformação social, enfrentando o preconceito e ajudando a construir um país mais plural e justo.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

David Harrad

E-mail: davidharrad@hotmail.com

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