Documento pede compromissos concretos de candidaturas e partidos com paridade política, enfrentamento à violência, renda, políticas de cuidado e justiça climática; entidade defende que propostas tenham meta, orçamento e prazo
A dez dias do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, a ONU Mulheres colocou no centro do debate eleitoral uma contradição brasileira: as mulheres são maioria entre quem escolhe os representantes do país, mas continuam minoria entre aqueles que ocupam os espaços de poder.
Dos mais de 158 milhões de brasileiros aptos a votar em 2026, cerca de 83,9 milhões são mulheres, o equivalente a 52,84% do eleitorado. Entre as candidaturas, porém, a participação feminina cai para 34,85%: são 7.165 mulheres entre 20.560 candidaturas consideradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
É nesse cenário que a ONU Mulheres lançou as “10 Propostas pela Vida das Mulheres”, documento dirigido a candidatas, candidatos, partidos políticos, instituições públicas e à sociedade. A iniciativa reúne medidas relacionadas à participação política, violência de gênero, autonomia econômica, trabalho de cuidado e mudanças climáticas.
A mensagem da organização é que compromissos eleitorais precisam ultrapassar as declarações genéricas.
“Palavras bonitas sobre mulheres já existem em quantidade suficiente no Brasil. O que esperamos é compromisso que caiba em três critérios: sua sugestão tem meta? Tem orçamento? Tem prazo? Um compromisso que não responde a essas três perguntas não muda a vida de nenhuma mulher”, afirma Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil.
Maioria nas urnas, minoria no poder
Um dos principais pontos levantados pela ONU Mulheres é a sub-representação política feminina.
Embora representem 52,8% do eleitorado, as mulheres ocupam atualmente 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 18,5% do Senado, segundo a organização. Entre as 91 deputadas federais eleitas em 2022, 29 são mulheres negras — menos de 6% do total de integrantes da Câmara.
A ONU Mulheres informa ainda que o Brasil passou da 133ª para a 139ª posição no ranking mundial de representação parlamentar feminina entre 2025 e 2026.
A primeira proposta do documento é justamente estabelecer a paridade entre homens e mulheres como meta, com prazos e objetivos numéricos para aumentar a presença feminina em cargos eletivos, funções de nomeação, direções partidárias e posições de liderança no Legislativo.
A segunda trata das condições para disputar uma eleição. A organização defende maior fiscalização das cotas, transparência na distribuição dos recursos partidários e eleitorais e acesso efetivo das candidatas ao financiamento de campanha, com atenção especial às mulheres negras e àquelas expostas a múltiplas formas de discriminação.
Violência política cresce e entra no centro do debate
A violência política de gênero ocupa um capítulo próprio do documento — e ganha ainda mais relevância diante dos dados registrados neste ano eleitoral.
Segundo informações divulgadas pelo TSE, o número de processos relacionados à violência política de gênero passou de 15 em 2022 para 177 até setembro de 2026, aumento de mais de 11 vezes em quatro anos.
Nesta semana, o próprio TSE e a Procuradoria-Geral Eleitoral anunciaram um protocolo conjunto para ampliar a prevenção, o acolhimento, o monitoramento e o enfrentamento desses casos.
A ONU Mulheres propõe fortalecer a aplicação da Lei 14.192/2021, inclusive no ambiente digital. A legislação estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra as mulheres e criminaliza condutas destinadas a impedir ou dificultar sua participação política ou o exercício do mandato.
Entre as medidas defendidas estão canais acessíveis de denúncia, proteção às vítimas, atuação coordenada das instituições, publicação de dados oficiais e formação das equipes responsáveis pelo atendimento.
Violência contra as mulheres permanece desafio
A pauta eleitoral proposta pela ONU também extrapola a participação institucional e alcança uma das questões mais graves enfrentadas pelas mulheres brasileiras: a violência.
De janeiro a julho deste ano, 848 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública. Foram 28 mortes a menos do que no mesmo período de 2025, uma redução de 3,2%, mas os números ainda representam uma média de aproximadamente quatro feminicídios por dia.
A ONU Mulheres propõe que governos estabeleçam metas e orçamento específico para prevenção da violência, ampliem os serviços especializados, fortaleçam medidas protetivas e garantam investigação e respostas mais rápidas.
A organização também inclui entre suas propostas tratar o machismo como uma questão de política pública, com ações permanentes de educação para a igualdade envolvendo escolas, famílias, comunidades, meios de comunicação, redes digitais e instituições.
Cuidado também é política pública
Outro eixo do documento trata de uma desigualdade que começa dentro de casa.
No Brasil, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens destinam 11,7 horas às mesmas tarefas. Entre mulheres pretas e pardas, a carga é ainda maior.
A ONU defende a implementação do Plano Nacional de Cuidados nos territórios, com orçamento, ampliação de creches e serviços compatíveis com os horários de trabalho das famílias, além de formação, contratos formais, salários dignos e proteção social para trabalhadoras do cuidado.
A desigualdade também aparece na renda. Segundo os dados reunidos pela organização, nas empresas brasileiras com mais de cem funcionários, as mulheres recebem cerca de 21% menos que os homens. Em 2024, 45,6% das mulheres negras ocupadas estavam na informalidade, diante de 33,8% dos homens brancos.
A proposta é combinar igualdade salarial, formalização do trabalho e proteção social com políticas de qualificação profissional, transporte, cuidado, inclusão digital, acesso ao crédito e participação em mercados e compras públicas.
Clima também tem gênero e raça
As três últimas propostas relacionam desigualdade de gênero e crise climática.
A ONU Mulheres defende que recursos destinados à adaptação e ao enfrentamento das mudanças climáticas cheguem também às organizações lideradas por mulheres e que indígenas, negras, quilombolas e integrantes de povos e comunidades tradicionais tenham participação efetiva nos espaços onde as políticas ambientais são decididas.
A entidade aponta que, durante a COP30, realizada em Belém, as mulheres representaram 44% das delegações nacionais, mas apenas 36% das pessoas que chefiavam essas delegações.
O documento propõe ainda que gênero e raça sejam considerados na elaboração, execução e avaliação das políticas climáticas, com metas, orçamento e dados capazes de demonstrar quais grupos são alcançados — e quais continuam ficando de fora.
As 10 propostas da ONU Mulheres
As medidas apresentadas pela entidade podem ser resumidas em dez compromissos: ampliar a presença das mulheres nos espaços de poder; garantir igualdade nas disputas eleitorais; enfrentar a violência política de gênero e raça; fortalecer o combate à violência contra as mulheres; combater o machismo; ampliar as políticas de cuidado; promover igualdade econômica; direcionar financiamento climático às mulheres que protegem os territórios; garantir participação feminina nas decisões sobre o clima; e incorporar gênero e raça às políticas climáticas.
Mais do que uma carta de intenções, a ONU Mulheres afirma que o documento pretende estabelecer parâmetros para que compromissos assumidos durante a campanha possam ser posteriormente acompanhados pela sociedade.
No centro da iniciativa está uma questão que os números tornam evidente em 2026: as mulheres são mais da metade do eleitorado brasileiro, mas ainda estão longe de ocupar metade dos lugares onde as decisões políticas são tomadas.
Redação da Agência de Notícias da Aids



