Mais de 200 representantes da sociedade civil, pessoas vivendo com HIV e organizações parceiras fizeram um apelo contundente às Nações Unidas por uma nova mobilização política e financeira para impedir retrocessos históricos no combate à aids. O alerta foi dado nesta quinta-feira (15), durante uma Audiência Multissetorial realizada na sede da ONU, em Nova York, em meio ao temor crescente de que cortes de financiamento e ataques aos direitos humanos estejam comprometendo décadas de avanços na resposta global ao HIV.
O encontro reuniu ativistas, lideranças comunitárias, especialistas e representantes de governos de forma presencial e virtual, em preparação para a Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre HIV/Aids de 2026, marcada para os dias 22 e 23 de junho. Na ocasião, os Estados-membros irão negociar uma nova Declaração Política que deverá orientar as ações globais de combate ao HIV pelos próximos cinco anos.
Na abertura da audiência, a presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, destacou a importância da pressão da sociedade civil para manter a resposta ao HIV como prioridade internacional.
“Os esforços de vocês são necessários agora mais do que nunca para garantir que as decisões tomadas aqui cheguem às comunidades que representam. Em um mundo onde existem inovações e os recursos continuam abundantes, não há razão para não levarmos essa luta para o próximo nível, juntos”, afirmou.
O tom da reunião foi marcado por preocupação, mas também por senso de urgência. Em diversos discursos, representantes comunitários denunciaram os impactos da redução do financiamento internacional, especialmente sobre serviços liderados por organizações locais e populações-chave mais vulneráveis ao HIV.
A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, afirmou que o mundo vive um momento decisivo.
“A resposta à aids sempre foi impulsionada pela coragem, pela resiliência e pela recusa em aceitar a injustiça de que algumas vidas importam mais do que outras. Esse mesmo espírito é necessário novamente agora”, declarou. “Temos uma oportunidade real de acabar com a aids como ameaça à saúde pública em todos os lugares, mas isso dependerá das escolhas feitas nos próximos cinco anos.”
Entre as principais demandas apresentadas durante a audiência estão a ampliação do financiamento doméstico pelos países, a proteção dos direitos humanos e a institucionalização do trabalho realizado por organizações comunitárias.
Para Florence Riako Anam, o atual cenário representa um teste para a governança global da saúde.
“As perturbações do último ano testaram todos nós. Mas este momento também oferece uma oportunidade genuína para uma nova liderança”, afirmou. “As pessoas vivendo com HIV continuarão aqui em 2031 e nos anos seguintes. Suas necessidades continuarão sendo urgentes.”
A defesa do protagonismo comunitário também foi reforçada pelos cofacilitadores da Reunião de Alto Nível da ONU. O embaixador Charles Masole afirmou que o sucesso do Botswana no enfrentamento ao HIV só foi possível graças à pressão contínua de ativistas e organizações civis.
“Essa parceria entre liderança governamental e defesa da sociedade civil foi — e continua sendo — essencial para sustentar o progresso no mundo inteiro”, disse.
Já o embaixador David Bakradze reforçou que as comunidades devem ser tratadas como parte central da infraestrutura de saúde pública.
“As comunidades não podem ser vistas como uma linha de orçamento descartável. Elas são essenciais para acabar com a aids”, declarou.
A audiência marca o início de uma nova etapa de mobilização internacional que deve se intensificar nas próximas semanas, enquanto governos negociam o texto final da nova Declaração Política sobre HIV/aids. O relatório oficial da audiência, que será divulgado pela presidência da Assembleia Geral da ONU nos próximos dias, servirá de base para as negociações diplomáticas antes da reunião de junho.
Em um cenário global marcado por incertezas econômicas, crises humanitárias e disputas políticas, líderes comunitários alertam que o futuro da resposta ao HIV dependerá menos das promessas e mais da capacidade dos governos de transformar compromissos em financiamento, proteção de direitos e ações concretas.
Redação da Agência de Notícias da Aids




