Ongs e Programa Estadual DST/Aids-SP pedem à Globo retratação sobre sugestão de morte para pessoas vivendo com HIV dada no ‘BBB14’

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17/03/2014 – 17h

Continua causando indignação o silêncio da Globo quanto à sugestão dada pela advogada Angela, participante do reality show “BBB 14” , de que a morte das pessoas vivendo com HIV seria a solução para acabar com o vírus. A moça fez o comentário infeliz na sexta-feira, dia 14. Imediatamente, vieram as manifestações de revolta contra a fala dela, nas redes sociais. Foram muitos os pedidos de retratação da Globo, o que, até esta segunda-feira (dia 17), não havia acontecido. Entidades e ongs continuam se manifestando. Abaixo, reproduzimos na íntegra as cartas endereçadas à Globo pelas coordenação do Programa Estadual de DST/Aids-SP, Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids e Fórum de Ongs /Aids:

À CENTRAL GLOBO DE PRODUÇÃO
A Coordenação Estadual DST/Aids-SP manifesta sua preocupação em relação ao episódio ocorrido no último dia 14 de março na 4ª edição do Programa Big Brother Brasil da Rede Globo de Televisão, que envolveu a advogada Angela, 26 anos, de São Roque (SP). Na ocasião, a mesma sugeriu “vamos matar todo mundo”, como forma de eliminar a epidemia de AIDS. Não satisfeita, a advogada emendou: “o que mais me irrita é saber que a aids existe porque teve um idiota que foi transar com um macaco”.

Considerando as informações incorretas e eticamente condenáveis no que se refere tanto a epidemia quanto as pessoas vivendo com HIV/Aids, que reforçam o preconceito e o estigma , solicitamos a Rede Globo de Televisão a retificação da declaração feita pela participante do reality show
Para eliminarmos a epidemia é preciso saber informar e, sobretudo, respeitar os direitos humanos das pessoas vivendo com HIV/Aids.
Dra. Maria Clara Gianna
Coordenadora do Programa Estadual DST/Aids-SP

RNP+ Brasil lamenta que a Rede Globo preste desserviço à saúde de milhares de brasileiros
Emissora deveria informar ao invés de reforçar o preconceito e a discriminação às pessoas com HIV

“Vamos matar todo mundo.” Com a frase, uma participante do Big Brother Brasil 14 sugeriu que se acabasse com a epidemia de HIV/AIDS no planeta. Transmitida em rede nacional pela Rede Globo na sexta-feira, 14 de março, a sugestão da pena de morte às pessoas que vivem com HIV e AIDS, acompanhada da informação de que “um idiota” teria feito sexo com um macaco e posteriormente disseminado o vírus, sem que a emissora tivesse pedido explicações a ela – como fez em outras ocasiões com afirmações descabidas –, preocupa a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+ Brasil) ao formar a opinião de milhares de telespectadores em todo o país.

A pandemia de HIV/aids eclodiu no início dos anos 1980, acompanhada de preconceito, discriminação e uma sentença de morte às suas vítimas. A partir de 1996, a introdução da terapia antirretroviral – combinação (coquetel) de medicamentos – tem aumentado paulatina e significativamente a expectativa de vida das pessoas infectadas pelo HIV, chegando-se a que, na atualidade, para as pessoas que contraíram o vírus por via sexual, com diagnóstico e tratamento oportunos, a expectativa de vida é similar àquela das pessoas sem HIV.

Milhares de cidadãs e cidadãos em todo o Brasil têm HIV e não sabem; significativa parcela destes brasileiros deve chegar aos serviços de saúde com complicações provocadas pela AIDS, síndrome que se instala no organismo de quem tem o vírus HIV, não conhece o diagnóstico e não recebe tratamento.
Recentemente, pesquisas científicas têm mostrado que essas mesmas drogas podem impedir que o vírus instale-se no organismo de um indivíduo possivelmente infectado pelo vírus, se em até 72 horas depois da ocorrência sexual ou profissional procurar um serviço de saúde e tomar o coquetel por um mês. Adotada há alguns anos pelo Ministério da Saúde em todo o Brasil, essa estratégia é chamada de profilaxia pós-exposição (PEP). Outro estudo, sobre a profilaxia pré-exposição (PrEP), sugere combinar o coquetel ao uso de preservativos para reduzir expressivamente a infecção em populações mais vulneráveis ao vírus, como jovens em fase escolar e adultos em idade de alta produtividade no trabalho.

Atualmente, sabe-se que pessoas com HIV que tomam seus antirretrovirais regularmente têm chance desprezível de infectar suas parcerias sexuais. A estratégia do tratamento como forma de prevenção (TcP) da transmissão do HIV começa a ser implantada no Brasil. A circuncisão masculina tem elevada eficácia na proteção da infecção para homens heterossexuais. Baseados em evidências, pesquisadores em todo o mundo têm afirmado que essas novas tecnologias de prevenção e de tratamento podem acabar com a transmissão do HIV em até 50 anos.

A RNP+ Brasil lamenta profundamente que a Rede Globo tenha se omitido no cumprimento de seu papel social, contribuindo para aprofundar o preconceito, a discriminação e prestando um desserviço às pessoas que vivem com HIV e AIDS. Lamentamos ainda que o apresentador do programa, em respeito à sua longa amizade com o cantor e compositor Cazuza, vítima mortal da AIDS, não tenha se sensibilizado com a frase infeliz da participante do reality show.

Em nome das pessoas que vivem com HIV e AIDS no Brasil, de seus pais e de seus filhos – que ficariam órfãos com a eliminação de seus pais soropositivos –, a RNP+ Brasil pede que a Rede Globo de Televisão se esforce para corrigir a declaração da participante de seu programa de entretenimento.

Criada em 1995 no Rio de Janeiro, a RNP+ Brasil tem atuação em todos os estados e no distrito federal, nos quais participa de conferências e conselhos de saúde, bem como na proposição e monitoramento de políticas públicas de saúde. Acreditamos que contribuímos para o controle da transmissão do HIV e para a eliminação da epidemia de AIDS no Brasil. Até que a cura torne-se uma realidade e não a eliminação das pessoas que vivem com HIV e AIDS.
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, 16 de março de 2014.

Fórum de Ongs/Aids de São Paulo repudia manifestações do programa ‘Big Brother Brasil’

O Fórum de Ongs/Aids de São Paulo, colegiado que reúne mais de 100 organizações com atuação em defesa da saúde pública de qualidade e pela garantia de manutenção dos direitos das pessoas que vivem com HIV e Aids ,e das minorias mais afetadas pela epidemia, vem através desta nota manifestar seu repúdio as manifestações ocorridas no programa “Big Brother Brasil” da ultima sexta-feira, 14 de março, com a sugestão da pena de morte às pessoas que vivem com HIV e Aids e outras atitudes desrespeitosas progatonizadas por uma das participantes e transmitidas em rede nacional.

As manifestações ferem diretamente os Direitos Humanos das pessoas que vivem com HIV e Aids no Brasil, suas famílias e entrono social e oferece um desserviço a luta por igualdade de tratamento e incentivo a descoberta da sorologia. Lamentamos também que a Rede Globo, concessão publica, tenha permitido tamanha atrocidade ser veiculada, semeando a desinformação e discriminação, por fim espere que tal afirmação possa ser retratada e que a luz da informação e solidariedade brilhe acima da guerra por audiência e anunciantes.

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