Ao som de uma canção lançada há mais de quatro décadas, ativistas de diferentes países ocuparam os corredores da Conferência Internacional de Aids para cobrar recursos, exigir a cura do HIV e denunciar que o desfinanciamento da resposta global é uma escolha política — não falta de dinheiro.
Quem caminhava pelos corredores do Riocentro ao meio-dia desta quarta-feira (29) talvez tenha pensado, por alguns instantes, que o carnaval havia chegado mais cedo ao Rio de Janeiro. A orquestra de frevo abriu caminho entre estandes, pesquisadores, representantes de governos, organizações internacionais e da indústria farmacêutica. Sombrinhas coloridas balançavam no alto, um estandarte conduzia o cortejo e centenas de vozes repetiam um refrão conhecido pelos brasileiros. “Onde está o dinheiro?”
A marchinha “Onde Está o Dinheiro?”, eternizada por Gal Costa no álbum Profana (1984), voltou a ganhar vida — desta vez, como trilha sonora de um dos protestos mais simbólicos da 26ª Conferência Internacional de Aids.
A música, criada para satirizar o desaparecimento dos recursos públicos, parece ter atravessado quatro décadas para dialogar com um dos maiores desafios enfrentados hoje pela resposta global ao HIV. A pergunta feita por Gal Costa tornou-se a pergunta feita por milhares de ativistas: “Onde está o dinheiro para a aids?”

Não era apenas uma performance cultural. Era uma denúncia. E um recado direto aos governos, financiadores internacionais, organismos multilaterais, empresas farmacêuticas e à comunidade científica.
Enquanto o frevo embalava o cortejo, cartazes denunciavam a crise do financiamento global e cobravam respostas urgentes. Entre eles, mensagens como “Precisamos da cura já”, “Quebrem as patentes” e “Saúde não é mercadoria” resumiam o sentimento de quem vive diariamente as consequências das decisões políticas tomadas longe dali.
A Marcha das Comunidades da AIDS 2026 saiu do estande da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero, percorreu os corredores principais do Riocentro, passou pelos estandes de empresas farmacêuticas e terminou no palco principal da Global Village. O percurso foi cuidadosamente escolhido.
Cada parada representava um destinatário da mensagem. Cada verso do frevo transformava-se em cobrança. Cada passo lembrava que a resposta à epidemia não pode sobreviver apenas das promessas feitas em conferências.

No palco principal da Global Village, o tom da manifestação mudou. As músicas deram lugar aos depoimentos.
As falas emocionadas de pessoas vivendo com HIV transformaram o protesto em um poderoso relato sobre envelhecimento com o vírus, efeitos colaterais dos tratamentos, acesso desigual às novas tecnologias e a necessidade de investir na pesquisa da cura.
“Nós queremos ser curados. Não queremos apenas eliminar a aids como problema de saúde pública; queremos eliminar o HIV. É a cura que queremos”, afirmou Fabiana de Oliveira, lideranças do Movimento Nacional da Cidadãs Posithivas, sendo interrompida por dezenas de pessoas que respondiam em coro:
“Cura já! Cura já! Cura já!”
As reivindicações iam muito além do financiamento. Houve pedidos pela quebra das patentes dos medicamentos, acesso universal às novas tecnologias, tratamentos de longa duração, medicamentos modernos para crianças, inclusão das populações trans, negras, indígenas e ciganas, além de políticas específicas para quem envelhece vivendo com HIV.

Uma das falas mais impactantes lembrou que sobreviver ao HIV já não significa necessariamente viver bem. “Eu não vou morrer de HIV, mas posso morrer das consequências dos medicamentos. Os remédios atacam nossos rins, nosso fígado. Estamos desenvolvendo câncer. Não nos deixem morrer. Olhem para nós”, disse a ativista Renata Souza, representante das mulheres vivendo com HIV no Conselho Nacional de Saúde.
Outra ativista fez um relato que sintetizou três décadas de tratamento. “Meu corpo já suportou 143 mil comprimidos ao longo de 30 anos. Nós não aguentamos mais. Queremos tratamento digno e a cura.”
Também houve espaço para lembrar que o estigma continua sendo um dos maiores desafios da epidemia.

“A aids já não mata a maioria das pessoas. A gente morre de depressão. A gente morre de suicídio. A saúde mental e o estigma continuam sendo grandes desafios para quem vive com HIV.”
Entre as lideranças que ocuparam o palco, Marina Vergueiro, da Rede Lusófona de Pessoas Vivendo com HIV/Aids, ampliou o alcance das reivindicações ao relacionar a resposta ao HIV com outras agendas de direitos humanos. Em seu discurso, defendeu uma resposta global baseada na solidariedade entre os povos e puxou palavras de ordem como “Palestina livre”, “Cura já” e “medicamentos de longa ação para quem vive com HIV”. A fala foi acompanhada pelo coro dos manifestantes, reforçando que o acesso às novas tecnologias de prevenção e tratamento precisa chegar também às pessoas que vivem com o vírus, e não apenas às estratégias de prevenção.
Para Juliana, da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero, a manifestação teve um objetivo claro: desmontar o discurso de que faltam recursos para financiar a resposta ao HIV.
“A resposta ao HIV está sofrendo um desfinanciamento crônico e extremo. Mas esse desfinanciamento não acontece porque falta dinheiro. Esse argumento é falso. Existe dinheiro, mas ele está sendo direcionado para outras prioridades, muitas delas contrárias aos direitos humanos e à saúde.”
Ela afirma que o crescimento dos investimentos militares em diferentes países ajuda a explicar a redução dos recursos destinados ao HIV.
“A militarização tem crescido em todo o mundo e recebido recursos que antes financiavam políticas sociais e de saúde. A Gestos, a IPPF e o movimento brasileiro de aids não aceitam a narrativa de que falta dinheiro para a aids. O que existe é uma escolha política.”
Segundo Juliana, outro ponto central é garantir que os recursos cheguem às organizações comunitárias.
Sem o envolvimento das comunidades, sem os serviços e o monitoramento liderado pelas comunidades, a resposta ao HIV nunca teria alcançado o nível de eficiência e capilaridade que possui hoje. Queremos recursos para o HIV, para a AIDS e para as comunidades, no Brasil e no mundo.”

Ao final do ato, o frevo voltou a tomar conta do espaço. Mas já não era apenas música. Era uma forma de transformar cultura em denúncia.
Era o carnaval emprestando sua irreverência à maior conferência de aids do mundo para lembrar que, enquanto governos anunciam avanços científicos inéditos — como medicamentos de longa duração e pesquisas promissoras rumo à cura —, a resposta global continua ameaçada por decisões políticas que retiram recursos exatamente de quem mais precisa deles.
Quarenta e dois anos depois de Gal Costa perguntar “Onde está o dinheiro?”, a resposta continua sem aparecer. A diferença é que, desta vez, o mundo inteiro ouviu a pergunta.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



