OMS aposta em vigilância inteligente e medicamentos de longa duração para transformar a resposta ao HIV

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Atualizações apresentadas na AIDS 2026 propõem mudanças na vigilância epidemiológica, reorganizam o cuidado com pessoas vivendo com HIV e reforçam a necessidade de acelerar o acesso à PrEP de longa duração em todo o mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou nesta segunda-feira (28), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), novas recomendações para prevenção, diagnóstico, tratamento e monitoramento do HIV e das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Reunidos na sessão “Atualizações da Organização Mundial da Saúde sobre diretrizes clínicas, prestação de serviços e vigilância: novas recomendações para HIV e infecções sexualmente transmissíveis”, especialistas destacaram que as novas diretrizes representam uma mudança de paradigma na resposta global ao HIV, com foco na sustentabilidade dos sistemas de vigilância, na ampliação das terapias de longa duração e na oferta de uma prevenção mais centrada nas necessidades das pessoas.

As apresentações foram conduzidas por Dra. Shona Dalal, da sede da OMS, na Suíça; Dra. Alexandra Calmy, dos Hospitais Universitários de Genebra (HUG); e Dra. Angela Tembo, da Ezintsha, na África do Sul.

Vigilância precisa acompanhar a era digital

Abrindo a sessão, Dra. Shona Dalal destacou que os sistemas de vigilância do HIV precisam evoluir para acompanhar a transformação digital dos sistemas de saúde.

Segundo Dra. Dalal, embora o volume de dados disponíveis tenha crescido exponencialmente nos últimos anos, a maior parte dessas informações continua subutilizada devido à fragmentação entre bancos de dados e programas de saúde.

“Estamos em uma era de transformação digital, mas ainda trabalhamos com sistemas desenvolvidos para finalidades isoladas. Precisamos conectar essas informações para transformá-las em conhecimento útil para a saúde pública”, afirmou.

Dra. Dalal lembrou que, em 2025, levantamento da OMS mostrou que 47 países relataram interrupções nos serviços relacionados ao HIV, enquanto 26 informaram prejuízos às funções de vigilância epidemiológica, incluindo entrada de dados, limpeza de bancos de informação, acesso aos sistemas e previsão de insumos. Outros 29 países perderam profissionais especializados em dados, comprometendo o monitoramento dos programas nacionais.

Entre as principais mudanças apresentadas estão a adoção de uma definição simplificada de caso de HIV baseada exclusivamente em critérios diagnósticos, independentemente da condição clínica, e a recomendação do algoritmo com três testes para confirmação diagnóstica em pessoas com 18 meses ou mais.

Outro destaque foi a atualização dos indicadores para Doença Avançada pelo HIV (Advanced HIV Disease – AHD). A OMS recomenda que todos os sistemas nacionais passem a monitorar um conjunto mínimo de indicadores capazes de acompanhar desde o diagnóstico até o tratamento de infecções oportunistas, especialmente tuberculose e meningite criptocócica.

A vigilância precisa identificar precocemente as pessoas com doença avançada, garantir que recebam o pacote de cuidados recomendado e acompanhar seus desfechos ao longo do tempo. “É essencial identificar as pessoas vivendo com HIV precocemente, avaliar a oferta do pacote de cuidados para doença avançada e monitorar os resultados do tratamento e as mortes relacionadas ao HIV”, afirmou a especialista, destacando que o novo conjunto de indicadores permitirá aos países acompanhar toda essa trajetória de forma mais consistente.

A organização também lançou um novo checklist para que os países avaliem a qualidade e a completude de seus sistemas de vigilância, identificando prioridades de investimento e fortalecimento institucional. Segundo Dra. Dalal, o objetivo não é criar um mecanismo de fiscalização, mas apoiar governos na construção de sistemas mais robustos e sustentáveis.

Tratamento deixa de seguir “linhas” rígidas

Na segunda apresentação, Dra. Alexandra Calmy afirmou que a resposta ao HIV entra em uma nova fase, na qual a classificação tradicional em primeira, segunda e terceira linhas de tratamento perde importância.

Segundo a infectologista, o histórico clínico, as falhas terapêuticas anteriores, a vulnerabilidade dos pacientes e o risco de resistência aos medicamentos passam a orientar melhor a escolha do esquema antirretroviral do que a simples posição do tratamento na sequência terapêutica. “Hoje, o histórico do tratamento, as falhas terapêuticas prévias, a vulnerabilidade do paciente e o risco de resistência são mais informativos do que simplesmente classificar um esquema como de primeira, segunda ou terceira linha”, afirmou Dra. Calmy. Para ela, essa mudança representa uma nova forma de pensar o cuidado, mais individualizada e baseada nas necessidades de cada pessoa vivendo com HIV.

Dra. Calmy apresentou as principais mudanças incorporadas às diretrizes da OMS de 2025, incluindo:

  • novos esquemas preferenciais baseados em inibidores da integrase;
  • possibilidade de reutilização de determinados medicamentos na composição dos esquemas;
  • primeira recomendação da OMS para terapia oral dupla como estratégia de simplificação;
  • primeira recomendação para uso de tratamento antirretroviral injetável de longa duração em pessoas com carga viral suprimida.

Para a pesquisadora, a inclusão da terapia injetável representa um marco histórico.

Ela destacou que a recomendação envia um sinal importante para fabricantes, agências regulatórias e organismos internacionais de compras de medicamentos, reforçando que essas tecnologias precisam fazer parte da resposta global ao HIV e não permanecer restritas a países de alta renda.  “A recomendação da OMS envia um sinal muito forte aos fabricantes, aos órgãos reguladores e às agências de aquisição de medicamentos de que esses produtos devem integrar a resposta global ao HIV”, afirmou. Para Dra. Calmy, a incorporação dos antirretrovirais de longa duração às diretrizes representa um marco histórico e deve impulsionar esforços para ampliar sua disponibilidade em países de baixa e média renda.

Apesar dos avanços, Dra. Calmy alertou para desafios importantes. A concentração da inovação em poucas empresas farmacêuticas pode limitar o acesso global, e ainda há lacunas de evidências para populações prioritárias, como pessoas com doença avançada pelo HIV, frequentemente excluídas dos ensaios clínicos de medicamentos de longa duração.

Ela também chamou atenção para a necessidade de ampliar o rastreamento da hepatite B antes da adoção de esquemas simplificados e reforçou que a inovação tecnológica somente produzirá impacto se vier acompanhada de acesso equitativo.

PrEP de longa duração exige mudanças na forma de oferecer prevenção

Encerrando a sessão, Dra. Angela Tembo abordou os desafios para transformar os avanços científicos da prevenção em acesso efetivo.

Segundo ela, embora existam hoje opções altamente eficazes de PrEP, incluindo produtos de longa duração, a cobertura mundial ainda permanece insuficiente para alterar a dinâmica da epidemia.

“As emissões estão diminuindo, mas não rápido o suficiente. Temos produtos excelentes, porém a cobertura continua baixa e o acesso permanece desigual”, afirmou.

Tembo destacou que os novos métodos reduzem barreiras associadas ao uso diário da PrEP oral, oferecem maior discrição, diminuem a necessidade de decisões frequentes sobre adesão e ampliam as possibilidades de escolha para os usuários. Entretanto, ressaltou que esses benefícios dependem da existência de sistemas de saúde preparados para ofertá-los.

Entre os principais desafios estão a capacitação das equipes de saúde, a garantia do abastecimento dos medicamentos, o manejo de doses atrasadas e a simplificação dos fluxos assistenciais. A pesquisadora ressaltou que os produtos de longa duração reduzem a carga de adesão para os usuários, mas aumentam as exigências para os sistemas de saúde. “O desafio está no sistema de oferta: é preciso capacitar os profissionais de saúde, saber como lidar com doses atrasadas e garantir o abastecimento adequado desses produtos”, afirmou.

Dra. Tembo também defendeu que o planejamento da implementação comece antes mesmo da aprovação regulatória dos novos produtos, evitando que o acesso demore anos para acompanhar as evidências científicas. “Com os injetáveis de longa duração vimos aprovações revolucionárias, mas o acesso, na maioria dos casos, continua chegando anos depois dos resultados de eficácia. Precisamos começar a planejar a implementação antes mesmo da aprovação regulatória”, disse.

Ela também apresentou experiências realizadas em países africanos mostrando que modelos mais flexíveis aumentam significativamente a adesão, como:

  • redução do número de visitas presenciais por meio do autoteste para HIV;
  • possibilidade de escolha entre diferentes métodos preventivos;
  • integração da PrEP aos serviços de planejamento familiar;
  • fortalecimento do apoio comunitário;
  • expansão da oferta para farmácias, plataformas comunitárias e outros serviços além das unidades públicas de saúde.

Ao concluir sua apresentação, Dra. Tembo defendeu que a prevenção precisa ser desenhada a partir das necessidades das pessoas.

Segundo ela, o desafio agora não é apenas desenvolver novos medicamentos, mas criar modelos de cuidado que garantam acesso, equidade e liberdade de escolha para diferentes populações.

A sessão reforçou que as novas recomendações da OMS buscam alinhar inovação científica, fortalecimento dos sistemas de saúde e acesso equitativo às tecnologias de prevenção e tratamento. As diretrizes apresentadas durante a AIDS 2026 deverão orientar a atualização das políticas nacionais nos próximos anos, especialmente em relação ao monitoramento epidemiológico, à incorporação de terapias de longa duração e à expansão da prevenção combinada.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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