Iniciativa reunirá coletivos, movimentos sociais, instituições e serviços de saúde em um espaço colaborativo dentro da maior conferência mundial sobre HIV/aids, que será realizada no Rio de Janeiro
A realização da Conferência Internacional de Aids 2026 no Rio de Janeiro representa uma oportunidade histórica para que experiências brasileiras de enfrentamento ao HIV/aids ganhem projeção global. No entanto, para organizações da sociedade civil, especialmente aquelas formadas por jovens lideranças, a participação em um evento internacional dessa dimensão ainda esbarra em desafios como barreiras linguísticas, limitações de acesso e desigualdades de visibilidade.
Foi para enfrentar esses obstáculos que surgiu a Estação Ocupe SUS Juventudes, iniciativa que ocupará um espaço estratégico dentro da Vila Global da AIDS 2026, reunindo organizações, coletivos, movimentos sociais, instituições de ensino e serviços de saúde em uma programação dedicada à educação popular em saúde, à defesa dos direitos humanos e à valorização das respostas comunitárias lideradas por jovens.
Mais do que um estande expositivo, a proposta busca transformar o espaço em um ponto permanente de encontro, diálogo e incidência política, conectando experiências locais às discussões globais sobre HIV, saúde pública e juventudes.
Para Lucas Barcellos, ativista da Rede Jovem Rio+ e um dos articuladores da iniciativa, o momento exige respostas coletivas diante dos desafios enfrentados pelas políticas públicas de saúde.
“Essa articulação se torna fundamental em um período em que várias metas globais falharam e em que assistimos ao avanço do conservadorismo e a tentativas de privatização de hospitais federais — inclusive aqui no Rio de Janeiro, com unidades de grande peso para o sistema. Fazer esse movimento com todo mundo junto, construindo essa estrutura coletiva, é a nossa resposta política.”
A programação da Estação Ocupe SUS Juventudes prevê rodas de conversa, sessões de storytelling, diálogos entre juventudes, ações de advocacy, espaços de networking, minioficinas e mostras de campanhas desenvolvidas em diferentes regiões do país.
Uma estação para conectar territórios e experiências
Inspirada na lógica de uma viagem de trem, a Estação Ocupe SUS Juventudes será organizada em diferentes “paradas”, pelas quais os participantes poderão circular para conhecer metodologias, práticas e vivências desenvolvidas em diversos territórios brasileiros.
A proposta é utilizar a metáfora do trem para simbolizar movimento, conexão e construção coletiva, aproximando realidades distintas que compartilham desafios comuns relacionados à saúde, aos direitos humanos e à justiça social.
Segundo Robson Lucas Oliveira Ferreira, coordenador da Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids do Estado de São Paulo (Rede Jovem SP+), a presença da sociedade civil brasileira é indispensável em um evento da magnitude da AIDS 2026.
“Não tem como falar de um evento deste tamanho no Brasil sem a sociedade civil brasileira. Como diz o nosso lema: ‘Nada de nós, sem nós’. A saúde, a nossa condição e o nosso futuro estão sendo debatidos ali, e nós precisamos estar presentes de forma ativa. A Estação dá a oportunidade para que as juventudes e as organizações que muitas vezes não estão à vista possam ter a visibilidade que merecem.”
Cada atividade foi pensada como uma oportunidade para troca de conhecimentos, fortalecimento de redes e construção conjunta de estratégias capazes de responder aos desafios contemporâneos da saúde pública, especialmente aqueles que impactam as juventudes e populações mais vulnerabilizadas.
Juventudes brasileiras conectadas a movimentos globais
A Estação Ocupe SUS Juventudes é resultado de uma construção coletiva liderada por redes de juventudes e movimentos sociais brasileiros em parceria com organizações internacionais de jovens.
A articulação pretende combinar a experiência acumulada pelos movimentos de controle social e educação popular do Sistema Único de Saúde (SUS) com a atuação de lideranças juvenis globais, transformando o espaço em um ambiente de acolhimento, diversidade e incidência política.
Para a coordenação de engajamento comunitário da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (RNAJVHA), essa conexão entre agendas locais e internacionais fortalece a capacidade de resposta dos movimentos juvenis.
“Significa fortalecer vozes, compartilhar experiências e construir respostas coletivas para desafios comuns. É uma oportunidade de levar a potência do SUS para o mundo e trazer aprendizados que fortalecem a participação juvenil, a democracia e os direitos humanos em nossos territórios.”
Convocatória aberta busca ampliar participação da sociedade civil
Para garantir uma programação diversa e representativa, a coordenação da Estação Ocupe SUS Juventudes lançou uma convocatória aberta destinada a organizações, coletivos, movimentos sociais e instituições interessadas em compartilhar experiências durante a AIDS 2026.
A prioridade será dada a iniciativas que não possuam espaço próprio na Vila Global, ampliando a participação de grupos historicamente menos visíveis nos grandes eventos internacionais.
As organizações interessadas poderão inscrever propostas de atividades por meio de formulário online. O prazo de inscrição permanece aberto até o dia 10 de julho de 2026.
As propostas serão avaliadas pela equipe organizadora com base em critérios como relevância temática, potencial de mobilização e alinhamento com os princípios de defesa do SUS.
A coordenação informa que o projeto disponibilizará a estrutura física e organizará a programação do espaço. Já os custos operacionais e logísticos relacionados às atividades, incluindo materiais, impressos e serviços de interpretação, ficarão sob responsabilidade das organizações proponentes.
Os quatro pilares da Estação Ocupe SUS Juventudes
A programação da iniciativa foi estruturada em quatro eixos centrais, que refletem os desafios e as perspectivas das juventudes brasileiras na atualidade.
O primeiro deles é Educação Popular em Saúde e Defesa do SUS, voltado para reflexões sobre participação social, controle social, comunicação popular e fortalecimento das políticas públicas de saúde.
O segundo eixo é Vigilância Popular em Saúde, dedicado à valorização de iniciativas comunitárias de monitoramento, produção de conhecimento e enfrentamento das desigualdades que afetam os territórios.
O terceiro pilar aborda Interseccionalidade, Estigma e Direitos Humanos, promovendo debates sobre diversidade, equidade, combate às discriminações e garantia de direitos para populações historicamente vulnerabilizadas.
Já o quarto eixo, Projetos de Felicidade para um Futuro Ancestral das Juventudes, busca estimular reflexões sobre bem-viver, saúde mental, cultura, pertencimento, fortalecimento comunitário e construção de perspectivas de futuro para as novas gerações.
Para a assistente social Analice de Oliveira, idealizadora do Ocupe SUS Juventudes, todos esses temas estão conectados por um mesmo propósito.
“Essa é a linha que une tudo: se o SUS cuida do corpo e da mente, a vigilância popular garante um território seguro, com acesso e equidade. Isso significa garantir que os jovens tenham acesso a insumos de saúde sexual e reprodutiva, profilaxias de emergência (como a PEP e a PrEP) e tratamento adequado para IST/HIV/Aids.”
Ao reunir organizações de diferentes regiões do país e promover o diálogo entre movimentos locais e redes internacionais, a Estação Ocupe SUS Juventudes pretende garantir que as vozes das juventudes brasileiras tenham protagonismo em uma das mais importantes conferências globais sobre saúde.
Redação da Agência de Notícias da Aids



