Embora os agonistas de GLP-1 sejam uma opção para casos selecionados, alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento médico continuam sendo essenciais para a saúde e a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV
Durante boa parte da epidemia de HIV, um dos maiores desafios enfrentados por médicos e pacientes era combater a perda de peso e a desnutrição. A síndrome consumptiva — caracterizada pelo emagrecimento intenso e involuntário — tornou-se uma das marcas da doença antes da ampla disponibilidade da terapia antirretroviral.
Quatro décadas depois, esse cenário mudou radicalmente. Graças aos avanços no tratamento, as pessoas vivendo com HIV passaram a ter maior expectativa e qualidade de vida. Como consequência, surgiram novos desafios para os serviços de saúde: o aumento da obesidade, do diabetes, da hipertensão e das doenças cardiovasculares, condições que acompanham o envelhecimento dessa população e refletem também as transformações no estilo de vida da sociedade.
Nesse novo contexto, a popularização dos medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 — conhecidos como “canetas emagrecedoras” — despertou dúvidas entre pessoas vivendo com HIV. Afinal, esses medicamentos são seguros? Há interação com os antirretrovirais? Quem realmente deve utilizá-los?
Segundo o infectologista Dr. Álvaro Furtado Costa, médico do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo (CRT-SP) e presidente do Comitê de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), os medicamentos podem fazer parte do tratamento, desde que exista indicação clínica e acompanhamento especializado.
“O objetivo é melhorar a saúde e a funcionalidade, não perseguir um padrão estético”, resume o especialista.

Uma nova realidade para quem vive com HIV
Para Dr. Álvaro Furtado, o envelhecimento das pessoas vivendo com HIV transformou completamente o perfil dos pacientes atendidos nos serviços especializados.
“Nas últimas décadas, o perfil mudou porque as pessoas estão sobrevivendo mais. Ao mesmo tempo, houve mudanças no estilo de vida da população, aumento do sedentarismo, da obesidade e do consumo de alimentos ultraprocessados”, afirma.
O especialista ressalta que o ganho de peso observado em parte dessa população não pode ser explicado por um único fator. Embora o HIV e alguns medicamentos antirretrovirais possam contribuir em determinadas situações, essa é apenas uma parte de um quadro muito mais complexo.
“O próprio HIV pode influenciar, alguns antirretrovirais também podem contribuir em determinados casos, mas isso explica apenas uma parte da história. É preciso avaliar alimentação, atividade física, qualidade do sono, saúde mental, menopausa, alterações hormonais e outras condições clínicas”, explica.
Segundo ele, compreender essa multiplicidade de fatores é essencial para definir a melhor estratégia terapêutica e evitar soluções simplistas para um problema que envolve aspectos biológicos, comportamentais e sociais.

Canetas emagrecedoras podem ser utilizadas?
A resposta é sim — desde que exista indicação médica. Os agonistas de GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes, também podem beneficiar pessoas vivendo com HIV. Estudos iniciais têm demonstrado resultados promissores, incluindo redução da gordura visceral e melhora de fatores associados ao risco cardiovascular.
“O paciente com HIV pode utilizar esses medicamentos caso tenha critérios para isso, como obesidade ou diabetes. Os primeiros estudos foram bastante encorajadores, mas é fundamental que exista acompanhamento por um profissional capacitado. Não é um medicamento para ser usado por conta própria”, destaca.
Outra dúvida frequente diz respeito à possibilidade de interação entre esses medicamentos e a terapia antirretroviral. Segundo o infectologista, as evidências disponíveis até o momento são tranquilizadoras.
“Até o momento, não foi demonstrada nenhuma interação clinicamente relevante entre os agonistas de GLP-1 e os antirretrovirais utilizados atualmente”, afirma.
As contraindicações permanecem as mesmas observadas na população geral, incluindo histórico de câncer medular de tireoide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, gravidez e algumas doenças gastrointestinais graves.

O risco da automedicação e da influência das redes sociais
Se, por um lado, as redes sociais ampliaram o debate sobre o tratamento da obesidade, por outro também estimularam a procura indiscriminada pelas chamadas canetas emagrecedoras.
Dr. Álvaro Furtado conta que é cada vez mais comum receber pacientes que chegam ao consultório pedindo uma marca específica, muitas vezes influenciados por conteúdos publicados na internet, sem que exista uma avaliação médica adequada.
“As redes sociais ajudaram a divulgar que a obesidade pode ser tratada, mas muitas pessoas procuram essas medicações sem preencher os critérios de indicação. O mais importante é avaliar se realmente existe necessidade, quais são os riscos, como está a massa muscular e qual será o acompanhamento durante o tratamento”, alerta.
Além da automedicação, outro problema é a compra desses medicamentos em canais informais, prática que pode expor os pacientes a produtos falsificados, armazenados de forma inadequada ou manipulados sem controle de qualidade.
Segundo o especialista, essa situação aumenta o risco do uso de doses incorretas e favorece a ocorrência de efeitos adversos importantes, como náuseas, vômitos, desidratação e perda excessiva de massa muscular.

Emagrecer sem comprometer a saúde
Embora os medicamentos representem um importante avanço no tratamento da obesidade, eles não substituem mudanças no estilo de vida. Para pessoas vivendo com HIV, essa combinação torna-se ainda mais importante, principalmente durante o envelhecimento.
“A pessoa que vive com HIV precisa entender que dieta e atividade física são fundamentais. A obesidade é uma doença complexa, não é falta de força de vontade. O medicamento amplia as opções de tratamento, mas não é a solução isolada”, afirma.
Dr. Álvaro chama atenção especialmente para a preservação da massa muscular, aspecto essencial para manter autonomia, capacidade funcional e qualidade de vida, sobretudo entre pessoas idosas ou mais frágeis.
“O tratamento ideal associa o medicamento à musculação, exercícios resistidos, alimentação rica em proteínas e acompanhamento nutricional. Em idosos, é necessário iniciar com doses menores e estabelecer metas de perda de peso mais conservadoras”, orienta.

O novo desafio é envelhecer com qualidade de vida
Os avanços da terapia antirretroviral transformaram o HIV em uma condição crônica para milhões de pessoas. Se antes o objetivo era impedir a perda de peso e controlar infecções oportunistas, hoje o desafio é mais amplo: promover um envelhecimento saudável e prevenir doenças crônicas que podem comprometer a qualidade de vida.
Nesse cenário, as canetas emagrecedoras representam mais uma ferramenta terapêutica disponível, mas não substituem o cuidado integral nem devem ser encaradas como solução rápida para a perda de peso.
“O foco deve ser melhorar a saúde como um todo. Alimentação adequada, atividade física, acompanhamento multiprofissional e tratamento individualizado continuam sendo os pilares para prevenir complicações e promover um envelhecimento saudável das pessoas que vivem com HIV”, conclui.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dr. Álvaro Furtado
dr.alvarocosta



