“O vírus é democrático”: infectologista Patrícia Rady Müller explica por que mitos sobre HIV ainda persistem

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Especialista afirma que a desinformação continua sendo um dos principais desafios no enfrentamento ao HIV, apesar dos avanços científicos e da eficácia do tratamento

Décadas após o início da epidemia de Aids, o HIV deixou de representar uma sentença de morte para se tornar uma condição crônica, controlável com o tratamento antirretroviral. A ciência também consolidou um dos conceitos mais importantes da resposta à epidemia: pessoas que vivem com HIV, fazem o tratamento corretamente e mantêm a carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual — princípio conhecido como Indetectável=Intransmissível (I=I).

Apesar desses avanços, a desinformação continua alimentando mitos que atravessam gerações e ainda circulam nas redes sociais, em conversas do cotidiano e até em serviços de saúde. Para a infectologista Dra. Patrícia Rady Müller, a principal explicação para esse cenário é a dificuldade de acesso a informações confiáveis.

“Eu acho que é por pura desinformação mesmo das pessoas. Elas às vezes acreditam muito no que está na internet, procuram em fontes erradas e falta informação em fontes seguras de pesquisa”, afirma.

Um dos equívocos mais frequentes é acreditar que toda pessoa vivendo com HIV transmite o vírus. Segundo a infectologista, essa ideia já não corresponde à realidade proporcionada pelo tratamento atual.

“Quando a pessoa vive com HIV, faz o tratamento e há mais de seis meses a carga viral está indetectável, ela não é capaz de transmitir o vírus numa relação sexual”, explica.

Na avaliação da médica, essa crença ainda está ligada à memória dos primeiros anos da epidemia, quando não existiam medicamentos eficazes e muitas pessoas desenvolviam formas graves da doença, frequentemente acompanhadas de sinais físicos visíveis. Hoje, porém, o cenário é completamente diferente para quem tem acesso ao diagnóstico e ao tratamento.

Outro tema que ainda gera confusão é a diferença entre HIV e Aids. Embora os termos sejam frequentemente usados como sinônimos, eles representam conceitos distintos.

“Por definição, HIV é o vírus que pode causar a doença Aids. O fato de uma pessoa viver com HIV não significa que ela vai desenvolver a doença”, explica.

A especialista também destaca que pessoas vivendo com HIV podem formar família e ter filhos com segurança. Para isso, o acompanhamento pré-natal e o controle da carga viral são fundamentais, reduzindo significativamente o risco de transmissão vertical, da gestante para o bebê.

Durante a gestação e também no período de amamentação, a testagem continua sendo uma ferramenta indispensável. Patrícia Rady Müller chama atenção para uma situação pouco conhecida: mulheres que não vivem com HIV podem adquirir o vírus durante a gravidez, no puerpério ou enquanto amamentam.

Segundo ela, as alterações hormonais e imunológicas características desse período tornam a mulher mais suscetível a algumas infecções.

“Essa mulher pode se infectar mais facilmente do que uma mulher que não está amamentando ou uma mulher que não está no puerpério”, explica.

Caso a infecção aconteça durante a amamentação e não seja diagnosticada rapidamente, o risco de transmissão para o bebê aumenta, já que, no início da infecção, a carga viral costuma ser elevada.

“Se ela adquire o vírus quando estiver amamentando, esse vírus vai vir numa carga muito grande naquele momento e fica muito mais fácil passar para o bebê”, alerta.

Quando uma criança contrai o HIV, o tratamento também é feito com medicamentos antirretrovirais específicos para a faixa etária. O maior desafio, segundo a infectologista, costuma ser o diagnóstico precoce.

“Às vezes demora para fazer esse diagnóstico no recém-nascido. Por isso é importante sempre ficar vigilante em relação à mãe que está amamentando”, afirma.

A médica também reforça que o HIV não é transmitido por contato cotidiano, como abraços, beijos ou compartilhamento de objetos. A transmissão ocorre por vias específicas.

“A transmissão do vírus do HIV é por via sexual, por contato de sangue contaminado, ou então da gestante para o bebê”, afirma.

Embora a prevenção combinada tenha ampliado as formas de proteção contra o HIV — com estratégias como a PrEP, a PEP e o próprio tratamento antirretroviral —, Patrícia Rady Müller lembra que a informação continua sendo uma das ferramentas mais importantes para reduzir novas infecções e combater o estigma.

“É para as pessoas saberem onde se informar. Tomarem cuidado para se informar através de sites oficiais ligados ao Ministério da Saúde e, se tiverem dúvidas, consultarem um especialista”, orienta.

Ela também reforça a importância da testagem regular, independentemente do perfil da pessoa.

“O vírus do HIV é democrático. Ele não escolhe sexo, gênero, identidade sexual”, destaca.

Para a infectologista, os maiores desafios da atualidade já não são científicos, mas sociais. Se a medicina avançou a ponto de transformar o HIV em uma condição tratável e de impedir sua transmissão por pessoas com carga viral indetectável, a desinformação e o estigma ainda continuam afetando diretamente a vida de quem vive com o vírus.

Por isso, ela defende que ampliar o acesso à informação de qualidade e incentivar a testagem são passos essenciais para enfrentar a epidemia e desconstruir preconceitos que já não encontram respaldo na ciência.

 

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Dra. Patrícia Rady Müller.

Instagram: @drapatriciaradymuller

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