
Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, morreu em 7 de julho de 1990, aos 32 anos, em decorrência de complicações da Aids. Nos meses que antecederam sua morte, ele apareceu em rede nacional, deitado numa cama, respirando com ajuda de aparelhos, dizendo: “A morte está ali na frente, e a gente continua andando”. Era o rosto da aids em um país que ainda tratava o vírus como sentença e castigo.
Mais do que um cantor vivendo com HIV, Cazuza se tornou símbolo de humanidade em meio ao caos. Não se escondeu, ao contrário, enfrentou a exposição com a mesma coragem com que cantava contra a hipocrisia, desafiando o preconceito de uma sociedade que ainda associava a doença à marginalidade.

Cazuza grita para a câmera | Foto: Reprodução / Site oficial Cazuza
Após sua morte, em 1990, sua mãe, Lucinha Araújo, fundou a Sociedade Viva Cazuza, instituição que acolheu por muitos anos crianças e adolescentes vivendo com HIV. A organização também atua na luta por acesso ao tratamento, prevenção e dignidade para quem vive com o vírus no Brasil. É parte de um legado que não se encerra na música, mas continua vivo nas políticas públicas, nas famílias afetadas e nas histórias de quem foi acolhido por esse gesto de amor transformado em ação.
Ele foi um dos primeiros artistas brasileiros a declarar publicamente que vivia com HIV, um gesto de coragem e ruptura. Cazuza enfrentou a exposição com o mesmo ímpeto com que cantava contra a hipocrisia e os moralistas. Sua vida e sua morte ajudaram a dar forma humana à epidemia, rompendo o silêncio em torno de um tema que muitos ainda evitavam.
Mas em 2025, em um Brasil onde a PrEP está disponível no SUS, onde se fala em I=0 (indetectável é igual zero risco de transmissão) e onde muitas pessoas com HIV vivem décadas com saúde e dignidade, o que resta da memória de Cazuza? O que ele ainda diz a uma geração que nasceu conectada, criada entre outras batalhas por liberdade?
Cazuza ainda canta
Nas plataformas de streaming musicais, os números não mentem: Hits como ‘Exagerado’, ‘O Tempo Não Para’, ‘Faz Parte Do Meu Show’, ‘Codinome Beija-Flor’ e ‘Ideologia’ se provam atemporais. São mais de 60 milhões de reproduções em todas as músicas citadas, com a mais tocada chegando perto dos 200 milhões, sucesso absoluto. Mas esse sucesso alcança as gerações que vieram após sua partida?

Carlos Alberto, de 25 anos, é criador de conteúdo e fã de MPB e rock brasileiro. Ele conta como, por mais que a geração atual as vezes pareça não buscar tantas referências musicais antigas, Cazuza segue presente nas playlists:
“Conheci o Cazuza através do meu pai, de 60 anos, ele pegou essa época da ascensão desse estilo musical. Quando criança, não me atraía tanto, mas na juventude voltei a ouvir Cazuza por conta própria e comecei a pesquisar sobre a vida dele. Assisti ‘O Tempo Não Para’ e é muito doido, porque você conhece não só o artista, mas a pessoa também, e percebe que ele era um gênio, ele tinha uma ousadia que era um diferencial para a minha geração. Com certeza é uma inspiração para muitas pessoas ainda.”
Um desafio à moral conservadora
O beijo em Ney Matogrosso, no palco, em plena década de 1980, foi mais que afeto entre dois artistas: foi um gesto político. Num tempo em que não ser heterossexual ainda era tratada como escândalo, doença ou piada, Cazuza fazia da própria existência um confronto direto ao conservadorismo.
Hoje, quando o discurso sobre diversidade sexual avança, mas a violência contra LGBTQIAPN+ segue alarmante, Cazuza segue sendo referência para muitos. Para jovens bissexuais que ainda enfrentam invisibilidade, para artistas que buscam se expressar sem filtro, para quem transforma dor em arte.

Letícia Pereira, estudante paulista de 20 anos, define Cazuza como “representação perfeita da juventude disruptiva” e relata a conexão que teve com o artista antes mesmo de nascer:
“Meus pais me contaram sobre o dia em que foram ver o filme do Cazuza e eu não parava de me mexer na barriga da minha mãe. Quando soube dessa história comecei a escutar as músicas dele e me apaixonei, foi como relembrar alguma coisa incrível.”
Letícia ainda chama atenção para a forma como Cazuza também desafiava a época com o próprio corpo. Não era só a voz rouca ou o jeito debochado de quem cuspia verdades, era o modo como ocupava espaço sendo afetuoso, exagerado, bissexual e livre em um país que, nos dias de hoje, ainda falha ao falar de desejo:
“Vejo como símbolo de resistência. O jeito como se expressava sexualmente, mantendo a liberdade e própria personalidade em foco. Como uma pessoa bissexual, saber que esse grande ídolo nos representou quando nem se imaginava que isso existia me traz alegria e esperança.”
Onde (ainda) está Cazuza?
Cazuza ganha nova vida no ensino superior brasileiro não apenas como estrela musical, mas como objeto de análise acadêmica Um dos trabalhos que exemplificam esse interesse recente é o TCC “Tudo ou nada: características da identidade do Cazuza manifestadas através de suas canções”, da PUC‑SP (fonte), que investiga como suas letras expressam camadas da identidade do artista.
Outro trabalho relevante é o da UFPB, “Cazuza: vivendo a finitude: análise das composições do artista à luz da logoterapia” (fonte). Nele, o pesquisador examina as letras do último álbum de Cazuza sob a perspectiva da logoterapia de Viktor Frankl, destacando elementos como dor, culpa e o confronto com a mortalidade.
Esses estudos mostram que Cazuza deixou de ser apenas um cantor para se tornar, também para os jovens, um objeto de reflexão sobre identidade. E é também nesse espaço que Cazuza segue atravessando gerações.

Caderno do Cazuza – Faz Parte do Meu Show | Foto: Universal Music Store
Trinta e cinco anos após sua morte, Cazuza resiste nas músicas que seguem sendo redescobertas, nas histórias de jovens que se reconhecem em sua coragem, nos trabalhos acadêmicos que tratam sua obra como pensamento vivo. Cazuza está onde há alguém com o peito aberto e o desejo de liberdade.
Dizer que ele vive é reconhecer que sua arte ultrapassou a biografia. Que seu corpo, sua voz e suas escolhas continuam provocando. Ele vive no direito de amar sem pedir desculpas, de falar de sexo sem vergonha, de existir sem caber e, claro, nos ouvidos de quem tem bom gosto.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins


