
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou, na quarta-feira (13/8), o Plano Brasil Soberano. Ele é um conjunto inicial de medidas para mitigar, diminuir os impactos econômicos da elevação unilateral, em até 50%, das tarifas de importação sobre produtos brasileiros anunciadas pelo governo norte-americano no último dia 30 de julho. As ações buscam proteger exportadores brasileiros, preservar empregos, incentivar investimentos em setores estratégicos e assegurar a continuidade do desenvolvimento econômico do país. O Plano é composto por ações separadas em três eixos: fortalecimento do setor produtivo; proteção aos trabalhadores; e diplomacia comercial e multilateralismo.
Além do lançamento oficial das medidas, o presidente Lula tem conversado por telefone com o presidente da China Xi Jim Ping, com o Primeiro-Ministro da Índia, Narenda Modi e com o presidente da Rússia Wladimir Putin. Nessas articulações, o governo brasileiro procura abrir outros mercados de exportação para que o país possa ampliar suas vendas para esses e outros países. O governo conversa com os países que compõem os BRICS, grupo de países emergentes formado pela Rússia, Índia, China, África do Sul além do próprio Brasil, enquanto espera que algum canal de negociação avance com os Estados Unidos. Será que esses países passarão a comprar os produtos brasileiros? Será que o governo do presidente Trump vai se dispor a abrir diálogo e negociações com o governo brasileiro? Nesse momento temos mais perguntas do que respostas. O fato concreto é que os 200 anos de boas relações comerciais construídas com os Estados Unidos foram abalados com a postura irredutível do, até então, maior parceiro comercial do Brasil, o governo americano.

(* charge de William Medeiros publicada no blog de kikacastro)
A Agência Aids quis saber dos ativistas o que pensam em relação a taxação de 50% imposta ao Brasil, pelo governo do presidente Donald Trump. Acompanhe suas reflexões e respostas.
Alessandra Nilo – co-fundadora da Gestos, Sherpa do C20 Brasil e Diretora de Relações Externas da IPPF, para América Latina e Caribe : “Existe nesse momento também, uma tendência de abertura de outros comércios entre outros países”

“O que nós temos discutido aqui apesar de os governos e os países serem soberanos, em relação a suas políticas econômicas sociais e ambientais Esse tarifaço do Trump vai na contramão dos acordos e das propostas que foram aprovadas no âmbito da OMC, Organização Mundial do Comércio. Então por si só já é uma disrupção. É muito importante que nesse momento os países pensem como podem tirar também proveito dessa situação no sentido de que vai ser ser uma oportunidade também para reverem várias relações comerciais que existem entre os países. Existe nesse momento também, uma tendência de abertura de outros comércios entre outros países numa tentativa de começar a isolar os Estados Unidos .No final das contas tudo isso vai acabar afetando muito e, já está afetando ,o acesso a produtos importantes no próprio governo americano .Então se por um lado eu vejo isso com muita preocupação, por outro lado também vejo isso como uma oportunidade de revisão dessas ordens multipolares em relações comerciais e econômicas e isso pode acabar gerando novos caminhos pro próprio comércio internacional. Então, você vê que a China já abriu estradas ligando o Atlântico e o Pacífico passando pelo Brasil. Novas rotas estão sendo criadas de comércio entre Canadá e México diretamente. A União Europeia também agora se abrindo mais pra relações comerciais com a China já que também está sendo afetada pelos Estados Unidos e assim sucessivamente. Então o que a gente está observando, na verdade, é uma grande mudança na ordem das relações também comerciais e há de se esperar pra ver o que vai acontecer. Enquanto isso eu espero que realmente os países se mobilizem construir alternativas que não passem necessariamente apenas pela necessidade da pendência em relação aos Estados Unidos.”
Veriano Terto Jr. – Vice-Presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA): “Uma medida desse tipo não apenas configuraria uma resposta legítima à agressão comercial norte-americana, como também reafirmaria o compromisso do país com a proteção da saúde de seus cidadãos.”

“Os recentes ataques à soberania nacional promovidos pelos Estados Unidos, por meio da imposição de tarifas comerciais de 50% sobre exportações e importações de produtos brasileiros, também podem representar uma oportunidade para que o país responda com medidas capazes de trazer benefícios concretos — em especial, para a saúde pública da população. Nossa lei de reciprocidade permite adotar contramedidas, como a suspensão de patentes sobre bens culturais e estratégicos. Entre os medicamentos que poderiam ter suas licenças suspensas estão aqueles de forte interesse público, como o Lenacapavir e alguns usados no tratamento do câncer. O Lenacapavir, em particular, é um fármaco revolucionário no enfrentamento ao HIV: quando utilizado em profilaxia pré-exposição (PrEP), tem potencial para reduzir de forma significativa a transmissão do vírus. Contudo, o alto custo do medicamento — resultado do monopólio de patentes mantido por uma grande indústria farmacêutica internacional — o torna inacessível para grande parte da população. A suspensão dessa patente poderia ampliar o acesso ao Lenacapavir no Brasil, trazendo enormes benefícios tanto para a prevenção do HIV/aids quanto para o tratamento de milhares de pessoas que dele necessitam. Uma medida desse tipo não apenas configuraria uma resposta legítima à agressão comercial norte-americana, como também reafirmaria o compromisso do país com a proteção da saúde de seus cidadãos.”
Nair Brito – ativista, uma das idealizadoras do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas :“O tarifaço é um ataque econômico e político, e com certeza uma afronta à nossa democracia.”

“Não se fala em outra coisa por aqui no último mês: tarifaço imposto pelo governo Trump para alguns produtos brasileiros, e o impacto disso sobre a nossa economia. E não é pra menos, uma vez que, o desemprego decorrente do fechamento de empresas afetadas pelas sobretaxas, e a redução do numero de vagas naquelas que ficam é muito sério nesse cenário. O agronegócio avalia perdas de milhões de reais; o aumento nos custos da importação de medicamentos e insumos farmacêuticos, especialmente aqueles com patentes afetará a saúde e a vida das pessoas que dependem de medicamentos de uso continuo como câncer, aids e outras patologias. Enfim, uma cascata devastadora para nossa economia, e consequentemente para a vida de nós brasileiros. O tarifaço é um ataque econômico e político, e com certeza uma afronta a nossa democracia. Diante desse cenário o governo brasileiro reage com medidas de socorro as empresas afetadas pelo tarifaço, tais como: linhas de créditos, compra de produtos que não foram exportados, enfim, o objetivo é minimizar o impacto na economia brasileira gerados pelo tarifaço. Leiga que sou sobre economia, acredito que todas essas ações estão certas, isto é, “salvar a economia e proteger o emprego”, contudo, dentro de mim algo diz: não seria esse o momento oportuno para construirmos outro modelo de economia e sociedade? Será que diante desses contextos não caberia uma avaliação da super lucratividade individual em detrimento da pauperização de muitos trabalhadores e trabalhadoras do mesmo cenário em questão? Perguntas como esta estão com certeza povoando a cabeça da gente daqui, e as respostas? onde estão? O tarifaço chega nos meus ouvidos assim” Vejam como a economia e a política de vocês são frágeis, basta mexer no lucro”. O deus lucro ao meu ver precisa ser contestado, ele faz pessoas reféns em todo o planeta, estabelecendo reinados de fome, miséria, exclusão, e infelicidade. Poucos com muito e muitos sem nada, esse parece ser o legado desse deus. Economia andando em direção a solidariedade, divisão das riquezas , bem estar dos povos, me refiro aqui a comida, casa, trabalho, lazer, saúde e educação seria um caminho para uma vida pacifica e digna aqui no Brasil e no planeta terra. E do jeito que está não teremos por muito tempo nem terra, nem vida e nem mais nada, porque conseguimos nos destruir. Acredito e gostaria que os governos acreditassem, tanto o governo brasileiro, quanto os demais países afetados pelo tarifaço, que poderiam aproveitar o momento de tensão provocado pelo governo americano, e caminharem rumo a um modelo econômico e político solidário e participativo, nos quais, a economia e a política sejam sustentáveis e acessíveis, onde o excedente da produção seja transformado em riquezas para todos e todas, no qual o agronegócio seja negocio bom para os/as envolvidos/as. Sei que não é fácil assim, se isso fosse essa revolução já teria acontecido, mas talvez a questão não seja a facilidade, mas a mudança de deus, e do entendimento sobre quem esse deus beneficia. Pena dizer isso, mas diante do tarifaço do Trump o pobre pagará a conta outra vez. Até quando suportaremos isso?”
Henrique Ávila – Coordenador da LUSO+, Rede Lusófona de Pessoas Vivendo e Convivendo com HIV/Aids : “Por sorte, nós temos potências como a China tomando a frente para mitigar o efeito dessas ações incoerentes dos Estados Unidos.”

“Donald Trump tem tentado redesenhar as formas das relações entre os países . Tem feito isso na base da ameaça e apostando alto no no no grito. Nesse sentido ele tem essa questão da televisão do jogar com as necessidades os medos das nações com a tentativa de se fortalecer. Isso é um perigo porque o multilateralismo é o que mantém a economia pulsante, a economia ativa .Gera renda ,gera riqueza, promove essa integração multinacional entre os países. Com essas tarifas ele vem promovendo incertezas tanto para os trabalhadores ,quanto para a população em geral. É de se pensar também com relação a retirada dos Estados Unidos do apoio mundial nessa reconfiguração . Por sorte, nós temos potências como a China tomando a frente para mitigar o efeito dessas ações incoerentes dos Estados Unidos. Nós somos parceiros comerciais dos Estados Unidos há tempos e assim acredito que além de questões políticas e ideológicas tem também esse interesse na nossa própria economia : tem o Pix tem a questão do petróleo na Foz do Amazonas. Isso gera muita insegurança para a população, para o país. Por sorte o governo tem dado uma boa resposta . Tem apoiado as empresas , lançou esse programa de apoio às empresas. A população tem se unido tem boicotado os meios pagamentos que são ligados diretamente aos Estados Unidos . Eu mesmo faço essa lição de casa: eu utilizo mais o Pix porque eu sei que o Pix é nossa , é nacional. O PIX é algo que é do país promove a nossa soberania e garante a circulação do dinheiro sem que a gente dê lucro pra eles. Então assim nós estamos vivendo uma reconfiguração das relações globais entre os países. De certo modo Trump está fazendo isso no grito . É de se preocupar também com as populações, as pessoas que estão em situação de mais vulnerabilidade porque se há um aumento da inflação essas pessoas perdem o poder de compra. Perdem a capacidade de se alimentar, de ter segurança alimentar de uma forma mais concisa, de uma forma mais plena. Então esperamos que a justiça americana possa rever essas questões entre o Brasil e os Estados Unidos para garantir o melhor para a população : geração de renda e manutenção dos empregos do país”
Redação Agência Aids
Dicas de entrevista:
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