“O SUS produz vida e resistência”: nos 35 anos do sistema, debate expõe desigualdades e chama à mobilização popular

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No seminário em comemoração aos 35 anos do Sistema Único de Saúde (SUS), organizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e pela plataforma Outra Saúde, especialistas e ativistas discutiram as desigualdades no atendimento à saúde e a necessidade de tornar o SUS mais igualitário e antirracista.

Participaram da mesa a professora Rachel Gouveia (UFRJ), o pesquisador quilombola Matheus Brito (CONAQ/UFBA), a vereadora de São Paulo Luana Alves (PSOL) e a professora Márcia Couto (USP). Durante o encontro, eles apresentaram dados e relatos que mostraram como o racismo institucional e as políticas de privatização aumentam as desigualdades na saúde, além de indicarem caminhos de resistência para fortalecer o SUS.

O evento foi realizado na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

SUS como redutor de desigualdades

Em sua fala, Luana Alves definiu o SUS como “um redutor de desigualdades fundamental” na sociedade brasileira. Ela lembrou que o princípio da universalidade do sistema quebra a lógica histórica de exclusão:

“O SUS traz uma concepção contraintuitiva a tudo que o Brasil foi: a ideia de que todas as vidas valem o mesmo, independentemente de você poder pagar ou não”.

Apesar dos avanços ao longo dos 35 anos, Luana alertou que o SUS sofre ameaças reais de desmonte. Ela recordou que, no governo passado, chegou-se a propor a “desuniversalização” do sistema, restringindo-o apenas aos muito pobres e empurrando o restante da população para os planos privados.

“O plano era deixar o SUS como está, bem sem recursos, só para a camada miserável, e massificar planos populares de saúde subsidiados”, denunciou.

Ela defendeu mobilização popular e controle social para barrar esses retrocessos:

“Nossa organização é fundamental. Movimentos sociais de saúde, ativistas, conselheiros — nosso papel é muito importante”, concluiu, chamando a sociedade a se engajar na defesa do SUS.

Vacinação em queda

A professora Márcia Couto trouxe outro olhar, ao analisar a hesitação vacinal. Ela apontou o paradoxo da vacinação no Brasil: embora as vacinas estejam amplamente disponíveis de forma gratuita pelo SUS, as taxas de vacinação vêm caindo nos últimos anos, principalmente entre as famílias de renda mais alta.

“Assistimos, desde 2013, a uma queda consistente na cobertura vacinal infantil… com maior cobertura entre a população de baixa renda e menor nas camadas A e B”, observou.

Esse dado surpreende e revela novas dinâmicas sociais. Segundo Márcia, trata-se de um contraste entre acesso e aceitação. Em seu estudo qualitativo com famílias de alta renda em São Paulo, ficou claro que muitas optavam por não vacinar os filhos, mesmo sem dificuldade de acesso. Essa postura, avaliou, funciona como “uma forma de distinção social”, já que certos grupos acreditam não precisar das políticas públicas de saúde.

A professora da FMUSP, Márcia Couto, fala diante do público

“Há quem pense: meu filho tem plano, tem toda estrutura privada, então posso abrir mão da imunização”, contou, mostrando como privilégio econômico e desinformação se combinam para ameaçar a proteção coletiva.

Márcia também destacou o contexto de negacionismo científico e politização que alimenta a recusa às vacinas. Nos últimos anos, teorias conspiratórias e discursos antivacina ganharam força, inclusive entre parcelas instruídas da população.

“Vivemos um cenário de crescente negacionismo, em que ideologias conservadoras buscam retirar a ideia do bem comum e da proteção coletiva que a vacina traz”, lamentou.

Diante disso, ela defende fortalecer a comunicação pública e as ações de educação em saúde, levando em conta as questões de classe, gênero e raça para reconstruir a confiança da população.

Quilombolas em risco

Representando as comunidades tradicionais, o quilombola Matheus Brito trouxe números preocupantes que escancaram a permanência das desigualdades raciais na saúde:

“Nos 35 anos do SUS, avançamos muito, mas ainda há caminhos a percorrer. A população quilombola hoje sofre com taxas altíssimas de mortalidade por causas evitáveis”, afirmou.

Ele citou que, em 2025, entre as principais causas de morte nos quilombos estão diarreia e desnutrição, muitas vezes atingindo crianças pequenas.

O quilombola e membro do CONAQ, Mateus Brito

“A gente não pode permitir que isso exista. Não dá pra conviver com isso e achar que é tranquilo”, protestou Matheus, lembrando que esses problemas básicos já deveriam estar superados.

O ativista ressaltou que esses indicadores graves não acontecem por acaso, mas são resultado direto de um racismo histórico e institucional.

“Não sejamos ingênuos: um país que passou por colonização violenta e escravização brutal gerou instituições coloniais e racistas.”

Um chamado coletivo: SUS como vida e resistência

Fechando a mesa, a professora Rachel Gouveia reforçou que as questões de raça, gênero e classe precisam estar no centro da construção de um SUS melhor. Militante do movimento antimanicomial e pesquisadora da UFRJ, Rachel destacou que o racismo não é algo secundário, mas sim “espinha dorsal da formação social brasileira e da constituição do próprio SUS”.

Para Rachel, aplicar a interseccionalidade no SUS significa reconhecer que a desigualdade não é genérica: ela se expressa de formas diferentes conforme a combinação de fatores sociais. Como exemplo, citou a divisão racial do trabalho nos serviços de saúde:

“Quem são as pessoas que literalmente colocam a mão no ‘trabalho sujo’ do cuidado? Em grande parte, mulheres negras – enfermeiras, técnicas, auxiliares – lidando diariamente com corpos e vidas marginalizadas”, observou, lembrando que a pandemia de Covid-19 deixou essas desigualdades ainda mais visíveis.

Rachel destacou também a importância de recuperar a participação popular e a politização do cuidado. Segundo ela, é preciso fortalecer conselhos de saúde e espaços de controle social nas bases, retomando estratégias comunitárias que marcaram o início do SUS.

Rachel Gouveia, professora da UFRJ e ativista antimanicomial

“O avanço da extrema-direita pulverizou certas conquistas. Vamos ter que olhar para trás, para os anos 1970-80, e retomar estratégias de mobilização de base para pensar o futuro”, comentou, defendendo a valorização dos agentes comunitários de saúde e dos profissionais que atuam na ponta do sistema.

Apesar dos desafios, Rachel mostrou otimismo ao lembrar das vitórias já conquistadas e das iniciativas em curso. Como mensagem final, ela convocou todos a se engajarem na luta por um SUS antirracista e humano:

“Quando radicalizamos na questão racial, não é ‘assunto de preto’ – é uma convocação coletiva. Todo mundo faz parte da luta antirracista, inclusive na reivindicação de um SUS antirracista”.

E, diante de um auditório atento, lembrou do que está em jogo nessa batalha diária:

“O SUS produz resistência. O SUS produz vida”.

Nas palavras da professora, mesmo sob ataques e dificuldades, o sistema público de saúde brasileiro continua sendo fruto da esperança coletiva e um instrumento de vida e dignidade para milhões – um legado que precisa ser defendido com urgência e humanidade.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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