Existe uma contradição silenciosa no sistema de saúde brasileiro. O paciente circula entre postos, hospitais, laboratórios, clínicas e farmácias, mas suas informações continuam aprisionadas em estruturas que não se comunicam. Em pleno 2026, ainda é comum que brasileiros carreguem exames impressos, relatem repetidamente seu histórico médico ou precisem refazer procedimentos porque os sistemas simplesmente não conseguem trocar dados de forma eficiente.
O resultado dessa desorganização é conhecido: exames duplicados, perda de dados clínicos, demora em diagnósticos, retrabalho administrativo e desperdício de recursos. Em vez de funcionar como uma rede articulada, o sistema opera como um conjunto de ilhas desconectadas. Essa fragmentação custa caro. E não apenas financeiramente. Quando informações deixam de circular, aumentam os riscos para o paciente, piora a experiência de atendimento e diminui a capacidade de planejamento do setor.
Em um ambiente pressionado pelo envelhecimento populacional, pelo avanço de doenças crônicas e pela incorporação de novas tecnologias, manter dados fragmentados tornou-se incompatível com uma estratégia séria de sustentabilidade. É nesse contexto que o Projeto de Lei 5875 ganha relevância. Embora o debate sobre interoperabilidade pareça técnico, ele trata de algo concreto: a capacidade de transformar informação em cuidado.
O principal mérito do projeto é abandonar uma visão limitada de digitalização. Durante anos, modernizar a saúde significou basicamente informatizar processos feitos em papel. Isso trouxe ganhos, mas também criou uma nova distorção: sistemas digitais incapazes de conversar entre si. Na prática, substituiu-se a fragmentação analógica por uma fragmentação digital sofisticada.
O mundo já percebeu que esse modelo se esgotou. Países europeus avançam na criação de ambientes integrados de dados. Os Estados Unidos ampliaram a pressão regulatória contra mecanismos que dificultam o compartilhamento de informações clínicas. A Estônia tornou-se referência internacional ao estruturar uma arquitetura digital baseada em rastreabilidade, segurança e identidade eletrônica.
O Brasil não está atrasado em capacidade técnica. O SUS desenvolveu iniciativas relevantes, especialmente com a Rede Nacional de Dados em Saúde e com as plataformas digitais do Ministério da Saúde. O que faltava era consolidar uma diretriz nacional clara sobre interoperabilidade.
Essa discussão vai além da tecnologia. A saúde contemporânea passou a depender intensamente de dados qualificados. Sem integração, perde-se capacidade de planejamento, pesquisa, vigilância epidemiológica e formulação de políticas baseadas em evidências. Mesmo ferramentas avançadas, como a inteligência artificial, tornam-se limitadas em ambientes desorganizados.
Existem preocupações legítimas. Proteção de dados pessoais, segurança cibernética, governança e desigualdades regionais de infraestrutura exigirão atenção. Integrar informações exige rastreabilidade, transparência e controle de acesso. Mas reconhecer riscos não pode servir de pretexto para perpetuar a desorganização atual.
Interoperabilidade significa permitir que sistemas distintos compartilhem dados essenciais de maneira segura e padronizada, preservando responsabilidades e direitos. Também será necessário compreender a complexidade federativa brasileira, apoiando municípios que enfrentam limitações de conectividade.
Adiar essa agenda significaria prolongar um modelo de saúde mais caro e menos preparado para o futuro. No fundo, o debate não é sobre softwares. É sobre cuidado. Um sistema moderno não pode depender de informações fragmentadas. Integrar dados tornou-se requisito básico para garantir qualidade, eficiência e sustentabilidade.



