“O sucesso será medido pelas infecções que conseguirmos evitar”: Fundo Global e parceiros apostam no lenacapavir para acelerar o fim da epidemia de HIV

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Especialistas, governos e financiadores defendem que o sucesso da PrEP injetável semestral dependerá de acesso equitativo, integração aos serviços de saúde e protagonismo das comunidades

Como transformar uma das maiores inovações recentes da prevenção do HIV em redução efetiva de novas infecções? Essa foi a questão central da mesa “Do produto ao impacto: estratégias nacionais para ampliar o acesso ao lenacapavir e acelerar o controle da epidemia de HIV”, realizada durante a AIDS 2026. Representantes do Fundo Global, do governo dos Estados Unidos, da Universidade de Yale e do Ministério da Saúde do Malawi apresentaram os avanços e os desafios para ampliar o acesso ao lenacapavir, medicamento apontado como uma ferramenta estratégica para acelerar o controle da epidemia.

Na abertura da sessão, Françoise Vanni, diretora de Relações Externas do Fundo Global, destacou que o lenacapavir representa mais do que uma nova tecnologia de prevenção. Segundo Vanni, trata-se de uma oportunidade para reduzir barreiras relacionadas ao estigma, ampliar as opções de prevenção e alcançar populações que não se beneficiam ou não preferem os métodos atualmente disponíveis.

“A oportunidade é sem precedentes, mas a janela para moldar seu impacto é limitada”, afirmou. Para a dirigente, o sucesso dependerá da capacidade dos países de implementar estratégias eficazes, equitativas e centradas nas pessoas, com forte participação das comunidades.

Vanni lembrou que o Fundo Global e o governo dos Estados Unidos ampliaram a meta conjunta de alcançar três milhões de pessoas utilizando lenacapavir até 2028, um milhão a mais do que o objetivo inicialmente anunciado em 2024. Segundo ela, dez países já iniciaram a implementação da estratégia: Essuatíni, Quênia, Lesoto, Malawi, Moçambique, Nigéria, África do Sul, Uganda, Zâmbia e Zimbábue. Até o fim de junho de 2026, mais de 50 mil pessoas haviam iniciado o uso do medicamento em cerca de 900 unidades de saúde.

Da inovação científica ao impacto populacional

Na apresentação sobre a estratégia global de implementação, Dra. Ingrid Katz, da Yale School of Medicine, ressaltou que a eficácia do lenacapavir, embora extraordinária, não será suficiente para alterar o curso da epidemia sem políticas públicas bem estruturadas.

“O impacto dependerá de como introduzimos o medicamento, onde ele será expandido, quem conseguiremos alcançar e como o integraremos aos sistemas de prevenção, testagem e tratamento do HIV”, afirmou.

Dra. Katz destacou que o diferencial do lenacapavir está na aplicação semestral, oferecendo uma alternativa discreta para pessoas que enfrentam dificuldades de adesão à PrEP oral diária por motivos como estigma, privacidade ou rotina.

Ela explicou que a implementação vem sendo conduzida de forma coordenada entre governos, Fundo Global, Departamento de Estado dos EUA, Fundação Gates, Unitaid, CHAI, fabricantes, ministérios da saúde e organizações comunitárias. A estratégia busca evitar o atraso histórico entre a disponibilização de novas tecnologias em países ricos e seu acesso em países de baixa e média renda.

Segundo Dra. Katz, a meta intermediária é oferecer cerca de 600 mil anos-pessoa de proteção em 24 países ainda em 2026, como etapa para atingir a visão da UNAIDS de 20 milhões de pessoas utilizando PrEP até 2030.

Primeiros resultados mostram alta demanda

Na sequência, Dra. Izukanji Sikazwe Sikaulu, do Fundo Global, apresentou os primeiros dados da implementação.

Até o final de junho, os países participantes haviam atualizado protocolos nacionais, obtido aprovações regulatórias, capacitado mais de 10 mil profissionais de saúde, incluindo navegadores de pares e conselheiros, e iniciado dezenas de milhares de pessoas no lenacapavir.

Apesar dos resultados considerados animadores, Dra. Sikazwe alertou que os indicadores mais importantes ainda estão por vir.

“O desafio não é apenas entregar doses, mas garantir que estamos alcançando as pessoas com maior risco de adquirir o HIV”, afirmou.

Dados apresentados durante a sessão mostram que, em países como Zâmbia e Quênia, mais de 80% dos usuários que iniciaram o lenacapavir nunca haviam utilizado PrEP anteriormente, indicando que a nova tecnologia está conseguindo alcançar pessoas até então fora da prevenção. “O desafio não é quantas doses entregamos, mas se estamos alcançando os indivíduos com maior risco de contrair o HIV”, afirmou Izukanji Sikazwe Sikaulu, destacando que os primeiros resultados apontam para uma demanda real pelo medicamento.

A especialista ressaltou ainda que os melhores resultados de continuidade vêm sendo observados em programas com forte acompanhamento comunitário, reforçando o papel das organizações da sociedade civil na manutenção do cuidado.

Entre as prioridades apontadas estão o fortalecimento dos modelos comunitários de atendimento, a integração com serviços de saúde sexual e reprodutiva, a ampliação da testagem para HIV e o monitoramento em tempo real da demanda e dos estoques.

Malawi apresenta experiência pioneira

Representando o Ministério da Saúde do Malawi, Feliya Nyirenda apresentou a experiência do país, um dos primeiros da África a iniciar a implementação do lenacapavir.

Ela lembrou que o Malawi reduziu em 76% as novas infecções por HIV desde 2010, mas ainda registra cerca de 14,2 mil novas infecções anuais. O objetivo nacional é reduzir esse número para 7,4 mil até 2027.

Segundo Nyirenda, a introdução do lenacapavir ocorre em três fases, começando por 48 unidades de saúde e avançando gradualmente conforme a disponibilidade do medicamento. Até julho de 2026, o país já havia treinado 335 profissionais, distribuído 11 mil doses e iniciado a oferta do medicamento em unidades selecionadas.

Dados preliminares mostram 303 usuários inscritos, sendo que 60,7% nunca haviam utilizado PrEP, enquanto 35,3% migraram do cabotegravir e apenas 3,9% vieram da PrEP oral. A maior parte dos usuários é composta por mulheres entre 20 e 34 anos, incluindo gestantes e lactantes.

A representante destacou que o país vem investindo em campanhas de comunicação, entrevistas em rádio e televisão, materiais educativos e integração do lenacapavir aos serviços de saúde sexual e reprodutiva. “Estamos observando que muitos profissionais de saúde aceitaram bem o lenacapavir. Também vimos que ele se integrou bem aos caminhos já existentes de prestação de serviços de PrEP”, afirmou. Ela acrescentou que “estamos observando que mais clientes estão demandando a PrEP com lenacapavir”, sinalizando uma rápida aceitação da nova tecnologia.

Entre os desafios, citou a necessidade de ampliar o treinamento das equipes, fortalecer a cadeia de suprimentos, garantir disponibilidade de testes rápidos para HIV, evitar desabastecimentos e ampliar clínicas móveis para alcançar populações prioritárias. Ela reforçou que “precisamos fortalecer a integração do HIV com os serviços de Saúde Sexual e Reprodutiva, pois a PrEP não é oferecida como um serviço isolado”, e destacou ainda que “também precisamos gerar demanda pela PrEP e por outras intervenções de prevenção do HIV, como o uso de preservativos”.

Comunidades no centro da resposta

Ao longo da sessão, um ponto foi consenso entre os palestrantes: o sucesso do lenacapavir dependerá menos da inovação farmacológica e mais da capacidade dos países de construir modelos de atenção acessíveis, integrados e sustentáveis.

Para os especialistas, a participação das comunidades na geração de demanda, no monitoramento dos serviços e na redução do estigma será decisiva para que o medicamento deixe de representar apenas um avanço científico e se transforme em uma ferramenta capaz de acelerar o controle da epidemia de HIV em escala global.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

Apoios