
“Antes de ser técnica do Ministério da Saúde, eu sou uma mulher preta. E muitas vezes, nem considerada mulher ou ser humano neste sistema racista que enfrentamos todos os dias.”
Com essa fala forte e pessoal, a sanitarista Emily Conceição abriu uma das rodas de conversa mais potentes realizadas durante o Julho das Pretas. Intitulada “Quem cuida de quem cuida? Interseccionalidades e Iniquidades em Saúde”, a live promovida pela Anaids (Articulação Nacional de Luta Contra a Aids) e pelo Coletivo Feminista Gabriela Leite reuniu vozes negras do governo, da militância e da academia em uma escuta radical sobre saúde, HIV, racismo e justiça social.
Mediada por Carla Almeida, mulher branca, cisgênera e militante feminista, a roda foi marcada pela emoção e enfrentamento coletivo das estruturas que violam as mulheres negras no Brasil – especialmente as que vivem com HIV. “O protagonismo aqui é das mulheres negras que atuam em diferentes campos, trazendo olhares diversos sobre um problema comum: o racismo estrutural que atravessa as políticas públicas”, pontuou.
“Eles combinaram de nos matar, e nós combinamos de não morrer” – Conceição Evaristo

Emily, farmacêutica e assessora técnica do Ministério da Saúde, iniciou o encontro situando sua própria trajetória de mulher preta, retinta e periférica, até ocupar um cargo de articulação interministerial no Programa Brasil Saudável. “Muitas vezes a gente está nos lugares, mas sem a caneta. Mesmo dentro das instituições, o racismo tenta nos silenciar.”
Ela explicou que o Brasil Saudável busca eliminar até 2030 doenças negligenciadas como hanseníase, malária, tuberculose, hepatites virais e infecções sexualmente transmissíveis. “O Brasil Saudável articula ações interinstitucionais para enfrentamento dos determinantes sociais que vão para além do setor saúde, para o enfrentamento de situações estruturais.”
Ela destacou ainda os desafios para implementar ações com enfoque interseccional: “Nós temos a Política Nacional de Saúde da População Negra desde 2009, mas ela ainda não foi efetivada nos territórios. É necessário considerar as amarras do racismo estrutural no país”.
A sua presença no governo federal, ressaltou, não é símbolo de representatividade, mas de reparação. “Estamos buscando articulações com os Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos para enfrentar as desigualdades de forma intersetorial. Não dá para seguir tratando iniquidades estruturais com soluções isoladas”, pontuou.
A fala de Emily vai de encontro aos dados apresentados por Carla na abertura da livre. Ela trouxe um panorama das desigualdades enfrentadas por mulheres negras no Brasil: maior vulnerabilidade à violência doméstica, feminicídios (63% das vítimas), insegurança alimentar, trabalho precário e violência obstétrica. Quando o tema é HIV/aids e outras infecções sexualmente transmissíveis, o cenário se repete: “São elas que proporcionalmente mais morrem de aids, têm os piores desfechos relacionados à sífilis e à sífilis congênita”, destacou.
“As mulheres negras vivendo com HIV não aparecem nos debates. E a gente está cansada”

A ativista Cleide Jane, coordenadora da ONG Amires e integrante do Coletivo Gabriela Leite, vive com HIV desde 1995. Ela falou como mulher preta, carioca, evangélica e ativista há décadas na luta contra a aids. Sua fala foi marcada por dor e lucidez:
“Nós estamos totalmente cansadas de dialogar e ser esquecidas por essas pautas. Eu tenho lipodistrofia e até hoje não recebi atendimento. As mulheres cis negras vivendo com HIV não aparecem dentro dos debates. A gente está cansada de falar para a política.”
Cleide falou sobre sua trajetória de luta, os apagamentos dentro e fora dos movimentos sociais e a necessidade urgente de reparação:
“Nos dizem que a culpa é do antirretroviral, e fica por isso mesmo. Ninguém nos ouve. Estamos adoecidas, física e psicologicamente, e isso é invisível até para quem se diz aliado.”
“Nossos corpos são resistência”

De Cuiabá, em Mato Grosso, a fala de Xica da Silva, travesti negra, presidenta do Grupo Livre Mente, foi um dos pontos mais emocionantes do encontro. Ela começou situando a realidade hostil da região:
“Mato Grosso é a cidade mais branca, mais machista, mais transfóbica que tem. E a gente continua batendo de frente, mostrando que estamos aqui.”
Xica criticou o distanciamento dos ministérios e gestores das realidades locais: “Eles dizem que têm propostas, mas não chega até nós. Nós, que estamos com a cara na rua, sabemos que a pauta não acontece.”
Ao mencionar a fala da companheira Cleide, disse: “Cleide Jane, você não está sozinha, meu amor. Ninguém vai nos silenciar. Estamos construindo política com os nossos corpos. Mesmo debilitadas, somos resistência.”
“Nossa luta também está dentro do governo”

Mesmo doente, Josilene Santos, mulher negra, lésbica e paraense da periferia de Belém, fez questão de participar. Representando o Ministério das Mulheres, ela reafirmou que a reconstrução das políticas públicas exige coragem e escuta:
“Muita gente acha que minha formação é frágil porque sou do Norte. Mas estou aqui. Minha mãe teve 15 filhos, formou todos com consciência social. E eu estou aqui para dizer: precisamos de políticas que cheguem às mulheres negras, indígenas, quilombolas, travestis, às que vivem nas comunidades esquecidas.”
Josilene falou sobre a retomada da Conferência Nacional das Mulheres e as ações articuladas com outros ministérios, e reconheceu: “Mesmo estando na gestão, não é fácil. O racismo é institucional, e a gente segue enfrentando barreiras.”
“A juventude negra é o presente, não só o futuro”

Com apenas 22 anos, Ellen Fonseca, jovem ativista periférica de Porto Alegre, trouxe uma das falas mais provocadoras da roda: “Não somos apenas o futuro. Somos o presente. Estamos sendo violentadas agora. E muitas políticas são feitas sobre nós, sem nós.”
Ellen cobrou mais escuta e participação da juventude negra na construção das políticas públicas, e denunciou o apagamento institucional: “A juventude está na comunidade indígena, trans, PCD, LGBT. Mas quando chega a hora da construção, ficamos como adereço, não como parte ativa.”
Ela também criticou a ausência de implementação local: “As políticas nascem em Brasília, mas não chegam na Lomba do Pinheiro. A minha vizinha violentada não sabe que tem um programa pra ela. O município nos ignora. É preciso construir na base.”
Representatividade travesti no Conselho Nacional de Saúde

A roda se encerrou com a fala de Camila Lima, mulher travesti da periferia de Primavera do Leste, conselheira da Anaids e a primeira travesti da história a compor a Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher do Conselho Nacional de Saúde.
“Essa conquista é coletiva. Representa as travestis, as mulheres negras, todas as pluralidades que somos. Estar nesse lugar é lutar por uma saúde equânime para todas.”
Camila também denunciou o conservadorismo dentro do próprio conselho: “Mesmo ocupando o espaço, enfrentamos resistência. Mas vamos continuar. Porque nossa presença é política.”
“Mais do que saúde, é reparação histórica”

No encerramento, Carla Almeida agradeceu todas as participantes e reforçou o compromisso da Anaids: “Falar de saúde das mulheres negras é falar de direitos. É enfrentar o racismo, o machismo, a LGBTI+fobia e todas as formas de opressão. Garantir políticas públicas para essas mulheres é um dever do Estado – e um ato de justiça social.”
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Assista a live na íntegra:
Dica de entrevista
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