“O que mata é o preconceito”: testagem precoce e tratamento ampliam perspectivas para quem vive com HIV, informa Gaúcha Atualidade

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Rio Grande tem a terceira maior taxa de mortalidade por HIV do país, atrás apenas de Porto Alegre e Alvorada

“Existe vida após o HIV. O vírus é uma condição de saúde que precisa de tratamento, mas não impede uma pessoa de viver plenamente.” A frase resume a experiência de Ana (nome fictício), uma mulher trans de 50 anos que recebeu o diagnóstico de HIV há mais de 20 anos e, desde então, carrega uma história que ajuda a mostrar os desafios e as possibilidades de viver com o vírus.

Em Rio Grande, o número de pessoas cadastradas vivendo com HIV aumentou de aproximadamente 2,6 mil, em outubro de 2025, para 2.739 em 2026. A diferença representa um crescimento estimado de 139 pessoas, ou cerca de 5,3%.

O município também apresenta a terceira maior taxa de mortalidade pela doença entre os municípios gaúchos com mais de 100 mil habitantes, ficando atrás apenas de Porto Alegre e Alvorada.

O HIV (vírus da imunodeficiência humana) ataca o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo contra doenças.

Sem diagnóstico e tratamento, a infecção pode comprometer progressivamente as defesas do corpo e evoluir para a aids (síndrome da imunodeficiência adquirida), estágio mais avançado da infecção.

Entre os diagnósticos registrados em 2026 até setembro, a faixa de 19 a 29 anos concentra o maior número de casos, com 22 registros, o equivalente a 31% do total. As faixas de 30 a 39 anos e de 40 a 49 anos aparecem em seguida, com 16 casos cada, ou 22,5% do total.

Os dados também indicam predominância de pessoas heterossexuais entre os novos diagnósticos.

Quando Ana recebeu o diagnóstico de HIV, há mais de duas décadas, ela já desconfiava do resultado. O que não imaginava era que, anos depois, a doença deixaria de ser a principal preocupação.

— O HIV hoje é uma realidade como a hipertensão ou o diabetes. O problema não é viver com HIV. O problema é o preconceito contra quem vive com HIV — diz.

A rotina, explica, está longe da imagem construída nos anos 1980 e 1990, quando o diagnóstico era frequentemente associado a uma sentença de morte.

— Naquela época, as pessoas tomavam muitos medicamentos, tinham efeitos colaterais muito fortes. Hoje mudou completamente. Tem gente que toma um ou dois comprimidos por dia e leva uma vida normal — relata.

Segundo ela, o acesso ao tratamento e aos serviços especializados faz diferença para quem recebe o diagnóstico.

— A primeira coisa que eu diria para alguém que acabou de descobrir é: não se desespera — pondera.

Apesar dos avanços da Medicina, ela afirma que o estigma continua presente. Por isso, são poucas as pessoas que sabem da sorologia dela.

— Minha família sabe, meus amigos próximos sabem. Mas a gente ainda vive numa cidade pequena. Dependendo do lugar, esse rótulo pode te fechar portas.

Ela lembra situações vividas ao longo dos anos que revelam o medo e a desinformação ainda existentes.

— Eu já vi pessoas se recusando a comer um lanche porque descobriram que quem preparou vivia com HIV. Ainda existe muito desconhecimento.

No mercado de trabalho, ela afirma que também enfrentou dificuldades.

— Sei de pessoas que perderam o emprego logo após contarem que viviam com o vírus.

Segundo a chefe da Unidade de Doenças Infectocontagiosas do Hospital Universitário, Rossana Basso, um dos principais desafios enfrentados hoje é o diagnóstico tardio da infecção pelo HIV.

Conforme a médica, Rio Grande registra uma taxa de detecção superior à média nacional, cenário que preocupa especialistas e reforça a necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico.

— A nossa taxa de detecção chega a ser duas vezes e meia maior que a taxa nacional. A gente tem 42,9 casos a cada 100 mil habitantes. E por que isso? Pelo diagnóstico tardio.

Tratamento mudou a vida
Ao falar sobre o cotidiano, Ana destaca uma mensagem que considera fundamental: hoje é possível viver, trabalhar, estudar, construir relacionamentos e fazer planos.

— Existe vida após o HIV. O HIV é apenas uma condição de saúde que precisa e deve ser tratada — frisou Ana.

Rossana Basso lembra que ainda há confusão entre HIV e AIDS. Segundo ela, a infecção pelo HIV não significa necessariamente que a pessoa desenvolverá a doença, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente e o tratamento é iniciado de forma adequada.

— Viver com HIV é você ter uma infecção pelo vírus. A AIDS é quando, não tratada, a pessoa pode desenvolver doença — explicou.

Ela explica que uma das mensagens mais importantes trabalhadas pelos serviços de saúde atualmente é o chamado “I=I”, que significa “indetectável igual a intransmissível”.

Na prática, pessoas que realizam o tratamento corretamente e atingem carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual.

A infectologista afirma que os avanços na medicina transformaram a realidade das pessoas que vivem com HIV.

— Com o diagnóstico precoce e o paciente sendo medicado, esse paciente fica indetectável, ele não transmite o vírus através de relação sexual desprotegida e ele vai ter uma vida normal, inclusive com qualidade de vida normal.

O município conta com o Programa Municipal de IST/HIV/HV, o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e o Ambulatório Municipal de IST, que funcionam no Centro de Vigilância em Saúde, antigo Posto IV, na Avenida Major Carlos Pinto, 551, no Canalete.

O atendimento também pode ser buscado nas unidades de saúde da rede municipal e no Serviço de Atenção Especializada em Infectologia (SAE-HU-Furg), localizado na Rua Visconde de Paranaguá, 102.

Prevenção disponível gratuitamente
A profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP, está disponível em todas as UBSs, no ambulatório de IST/HIV/HV, na rua Marechal Floriano Peixoto, e no Serviço de Atendimento Especializado em Infectologia do HU-Furg.

A medicação deve ser utilizada antes de relações sexuais desprotegidas, um comprimido por dia ou sob demanda, e tem como objetivo evitar o contágio pelo HIV. O remédio é fornecido gratuitamente pelo SUS.

Para ter acesso à PrEP, é necessário ter mais de 15 anos, pesar acima dos 35kg, ser sexualmente ativo e apresentar risco aumentado de infecção, que é avaliado individualmente.

A PEP pode ser encontrada nas seguintes unidades:
A profilaxia pós-exposição, PEP, consiste na administração de dois comprimidos que devem ser iniciados até 72 horas após uma relação sexual desprotegida ou outra exposição de risco ao HIV. O tratamento dura 28 dias e é feito com acompanhamento médico.

O tratamento pode ser encontrado na UPA Cassino, UPA Junção e na Unidade 24h do Parque Marinha.

Testagem gratuita e sem agendamento
Para a médica, ampliar a testagem é uma das ferramentas mais importantes para reduzir os casos de diagnóstico tardio e interromper a cadeia de transmissão do vírus.

— O teste de HIV tem que ser banalizado, literalmente, como um teste de glicemia. Tendo conhecimento de quem tem a gente consegue interromper a cadeia de transmissão do vírus — conta.

A testagem é feita a partir de uma amostra de sangue e é recomendada a cada seis meses, especialmente para pessoas com vida sexual ativa ou maior exposição ao risco.

A recomendação é que, em casos de relação sexual desprotegida, exposição a situações com risco de infecção pelo HIV ou exposição frequente a essas situações, a pessoa procure uma unidade de saúde para receber atendimento e a prescrição adequada.

“Não é o fim”
Ao final da conversa, a mensagem que Ana faz questão de deixar é voltada principalmente para quem recebeu o diagnóstico recentemente.

— Não é o fim da vida. Não é uma sentença de morte. Procure atendimento, aceite ajuda, siga o tratamento e se cuide.

Ela afirma que os anos vivendo com HIV ensinaram uma lição simples.

— A gente aprende a viver um dia de cada vez. Tem momentos difíceis, claro. Mas existe vida, existe futuro e existe cuidado. O que ninguém deveria enfrentar é o preconceito.

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