Da ciência de ponta à força das comunidades, passando pela preocupação com os cortes no financiamento da resposta ao HIV, participantes ouvidos ao fim da conferência contam o que mais marcou a edição realizada no Rio de Janeiro
A AIDS 2026 terminou no Rio de Janeiro deixando uma coleção de impressões que ajuda a dimensionar o tamanho — e também as contradições — da resposta global ao HIV neste momento. Para pesquisadores, profissionais de saúde, ativistas, estudantes e representantes de organizações de diferentes países, a conferência foi espaço de descoberta científica, troca de experiências, formação de redes e contato com novas estratégias de prevenção, tratamento e cuidado. Mas também houve quem saísse do encontro cobrando mais protagonismo das comunidades e respostas mais contundentes diante da crise internacional de financiamento.
Nos depoimentos colhidos durante a conferência, palavras como “inovação”, “diversidade”, “resiliência” e “aprendizado” aparecem repetidamente. Ao mesmo tempo, os cortes de recursos destinados à resposta ao HIV foram lembrados como uma das principais ameaças ao trabalho desenvolvido em diferentes partes do mundo. A necessidade de transformar ciência em respostas concretas para a vida das pessoas também atravessou as avaliações.
Realizada pela primeira vez na América Latina, a Conferência Internacional de Aids reuniu no Rio diferentes gerações e perspectivas sobre a epidemia. Para quem participava pela primeira vez, o impacto veio da dimensão do encontro e da quantidade de conhecimento produzido. Para participantes mais experientes, a edição brasileira foi também uma oportunidade de comparar os avanços desde conferências anteriores e refletir sobre o que ainda precisa mudar.
A Agência Aids ouviu participantes de Brasil, Estados Unidos, Quênia, Nigéria e África do Sul, além de uma estudante sul-africana que cursa mestrado no Reino Unido. As avaliações vão da celebração dos avanços científicos à defesa de maior participação comunitária. Confira:
Octavia Lewis — Estados Unidos, da ONG Positively Trans. Atua como delegada e membro do Conselho Consultivo Nacional:
“Eu diria que, para mim, a conferência deixou a desejar no envolvimento dos membros da comunidade. Pareceu estar muito mais focada nos aspectos científicos e nos pesquisadores do que em realmente ouvir as necessidades da comunidade, especialmente considerando todos os cortes de orçamento que têm impactado nossas comunidades ao redor do mundo.
O que mais me impressionou foi a resiliência da comunidade. Fiquei inspirada ao ver que as pessoas não estão recuando, que estão dando voz às questões que nos afetam e defendendo aquilo de que precisam, sem se sentirem culpadas por isso. Acho que esse foi o melhor aspecto da conferência para mim.”
Dra. Irene Inwani — Quênia, do Hospital Nacional Kenyatta. Pediatra e pesquisadora na área de crianças e adolescentes:
“A conferência foi muito bem organizada. A comunicação foi excelente e nós aproveitamos bastante o evento. As oportunidades de networking, os espaços destinados à interação entre os participantes e os voluntários foram excelentes. Eles realmente tornaram nossa estadia no Rio muito agradável.
O que mais me impressionou foi a diversidade dos temas abordados e a excelente representatividade de participantes de todas as partes do mundo.”
Buhari Isumafe — Nigéria, da Society for Family Health (SFH). Atua em programa de redução de danos para pessoas que usam drogas injetáveis e participou da AIDS 2026 como autor de trabalho científico apresentado em pôster:
“Sabendo que esta é a minha primeira participação na Conferência Internacional de Aids, considero um privilégio estar aqui. Conversei com pessoas que participaram das edições anteriores e há um tema que ouvi repetidamente: os cortes de financiamento. A interrupção dos recursos afetou muitos países e, por isso, a resposta ao HIV não tem sido tão eficaz quanto poderia.
No entanto, uma das principais mensagens defendidas durante a conferência é que os países precisam fortalecer a mobilização de recursos internos para cuidar de seus próprios cidadãos. Afinal, os recursos e o apoio dos doadores internacionais vão acabar um dia, e cada país precisa estar preparado para sustentar sua própria resposta ao HIV.
Apesar desses desafios, aprendi muito aqui. Conheci pessoas, troquei experiências e descobri como diferentes organizações conseguem alcançar grandes resultados mesmo com recursos limitados. Esse é o principal aprendizado que levarei de volta para casa.
A resiliência de todos os participantes [foi o que mais me impressionou]. Além disso, enquanto você está neste centro de convenções, tem a oportunidade de fazer perguntas e sempre encontra pessoas dispostas a compartilhar conhecimentos e oferecer orientações. Isso foi realmente muito marcante.”
Ikenna Nwakamma — Nigéria, da Caritas Nigéria. Atua na unidade de prevenção, cuidado e apoio do programa de HIV:
“Acho que a conferência foi bastante esclarecedora. Ela é muito rica em inovações e pesquisas, o que é extremamente importante. Também acredito que seja uma excelente plataforma para compartilhar ideias e novos aprendizados na área do HIV.
A qualidade dos trabalhos apresentados, a qualidade das publicações, dos resumos científicos e dos demais produtos científicos exibidos [foi o que mais me impressionou]. E, claro, a diversidade de pessoas que participaram da conferência.”
Tandega Padmaja — África do Sul. Cientista e participante pela primeira vez da Conferência Internacional de Aids:
“É incrível. É realmente maravilhoso. Tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas muito interessantes.
Sou cientista, então gostei das sessões científicas, mas também gostei das sessões de advocacy. Você percebe que a ciência é importante, mas aquilo que fazemos no laboratório precisa se traduzir naquilo de que as pessoas realmente precisam. Isso é muito bacana.
Daria nota 10, definitivamente. Foi incrível. O local também é lindo e as sessões foram muito boas. Dez de dez.”
Odwa Mkiva — África do Sul / Reino Unido. Estudante de mestrado em Saúde Pública no Reino Unido, bolsista da AIDS 2026 e participante pela primeira vez:
“Foi muito interessante. Muitas das coisas que estou fazendo na minha pesquisa fizeram parte dos temas discutidos, então foi realmente muito útil para pensar em como vou desenvolver minha dissertação e em como vou planejar meus resultados. Foi muito útil nesse sentido.
Eu provavelmente daria nota 8, um 8 razoável. É a primeira vez que participo de uma conferência especificamente dedicada a uma doença ou condição como o HIV, então foi muito interessante.
Gostei da forma como organizaram a conferência em diferentes trilhas. Há espaços em que você aprende sobre o impacto social do HIV na vida das pessoas e outros em que pode conhecer as pesquisas e as novas inovações na área do HIV. Então, é uma boa combinação de diferentes aspectos relacionados à doença, que permite que você se informe e, ao mesmo tempo, aprenda.
Está tudo tão cheio de coisas acontecendo aqui que a nossa cabeça fica a mil. Não fiz praticamente nenhum trabalho da faculdade esta semana. Estou tentando ver tudo o que posso aqui.”
Letícia Zanagha — Brasil. Médica e participante pela primeira vez da Conferência Internacional de Aids:
“Eu estou achando ótima. É a primeira vez e agora eu já quero participar de novo. De 1 a 10, eu daria nota 10. Pelo menos, eu não tive nenhum problema. Só é bem cansativo, porque é o dia inteiro com muita informação.”
San Elen Dovo — África do Sul, da Universidade de Pretória. Participou pela primeira vez de uma conferência internacional fora da África do Sul:
“A conferência foi boa. Houve muitas apresentações de qualidade, muitas inovações e muitos avanços. O cenário parece promissor.
Eu daria nota 9. Acho que houve algumas questões logísticas, como a dificuldade de deslocamento e também para encontrar alimentação, entre outras coisas. Mas, no geral, daria nota 9.”
Toni Araújo — Brasil, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Educador comunitário na Educação Comunitária do INI/Fiocruz:
“Acho que todo mundo sai ganhando com esse evento. É a primeira vez que a conferência acontece na América Latina, e isso é um marco. Tivemos muitos avanços desde a edição de Munique até agora. Aprendemos muita coisa, continuamos aprendendo e discutindo temas muito importantes. Acho que a sociedade como um todo ganha muito com um evento como esse.
Acho que, principalmente, [o que mais chamou minha atenção foi] a excelente organização. As atividades aconteceram de forma muito fluida, tudo estava muito bem organizado. O Global Village trouxe atividades incríveis e todo o panorama apresentado nos painéis foi muito enriquecedor. Pela experiência que tive em edições anteriores, esta conferência está realmente incrível. Foi um show de bola.”
Lance Sherriff — África do Sul / Estados Unidos. Atua há cerca de 26 anos na resposta ao HIV/aids e em projetos relacionados à tuberculose e outras doenças:
“Parabenizo os organizadores, os profissionais que trabalharam no evento e todos os voluntários. Desculpe, não dormi o suficiente.
O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa, e acho que a conferência foi muito bem realizada. Mas a grande questão é: para onde vamos agora? Não há dinheiro chegando. Há 15 anos, na África do Sul, a Dra. Christa Dönges já nos alertava sobre isso, falando especificamente da tuberculose. Ela dizia: ‘Não haverá ajuda chegando. Vocês são a ajuda de que precisam.’ Acho que essa mensagem continua muito atual.
O que mais me impressionou foi uma sessão sobre uma iniciativa apresentada por uma mulher trans das Filipinas. Diante da redução dos recursos financeiros, eles desenvolveram uma estratégia muito interessante: utilizar salões de beleza como pontos de atendimento.
As pessoas vão ao salão para receber aconselhamento, iniciar ou acompanhar o tratamento e acessar outros serviços de saúde. Funciona como um centro integrado de atendimento, um verdadeiro ‘one-stop shop’. Afinal, praticamente todo mundo vai ao salão para cortar o cabelo de tempos em tempos. A proposta é aproveitar esse espaço de convivência para oferecer cuidados de saúde de forma mais acessível. Achei essa ideia extremamente inovadora e inspiradora.”
As diferentes avaliações mostram que a AIDS 2026 não terminou apenas com um balanço dos avanços científicos apresentados no Rio. Para muitos dos participantes, a conferência também deixou uma pergunta para os próximos anos: como transformar todo o conhecimento produzido, as novas tecnologias e a mobilização vista durante o encontro em respostas capazes de chegar às comunidades que mais precisam?
Entre elogios, críticas e notas que chegaram a 10, uma percepção atravessa boa parte dos depoimentos: apesar das dificuldades financeiras, políticas e sociais enfrentadas pela resposta global ao HIV, há uma comunidade internacional disposta a continuar produzindo ciência, compartilhando conhecimento, cobrando acesso e buscando caminhos para que os avanços não fiquem restritos aos centros de pesquisa ou às salas de conferência.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




