Na abertura da pré-conferência da AIDS 2026, dra. Mariângela Simão, Winnie Byanyima e a ativista mexicana Amaranta Gómez Regalado afirmam que o maior desafio para acabar com a epidemia deixou de ser científico e passou a ser político
A resposta mundial ao HIV entrou em uma nova era. Depois de quatro décadas marcadas por extraordinários avanços científicos, especialistas avaliam que o maior obstáculo para controlar a epidemia já não é a falta de medicamentos ou de novas tecnologias. O desafio agora é outro: enfrentar o avanço das desigualdades, reconstruir políticas públicas ameaçadas pelo enfraquecimento da cooperação internacional e impedir que retrocessos nos direitos humanos comprometam conquistas históricas.
Esse foi o principal recado da sessão inaugural de alto nível da pré-conferência da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada neste domingo (26), no Rio de Janeiro. Sob o tema “Repensando a resposta global à aids: transição para uma nova era de direitos e justiça sexual e reprodutiva”, representantes do governo brasileiro, das Nações Unidas e dos movimentos sociais defenderam que o combate ao HIV precisa voltar a ser conduzido pelas comunidades, pela defesa da democracia e pela garantia de direitos.
Ao longo do debate, três vozes sintetizaram esse novo momento da resposta global: a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Mariângela Simão; a diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima; e a ativista indígena zapoteca e defensora dos direitos das pessoas trans Amaranta Gómez Regalado, do México. Embora falassem a partir de lugares diferentes — governo, sistema ONU e movimentos sociais —, as três convergiram em um mesmo diagnóstico: sem justiça social, igualdade de gênero e participação comunitária, não será possível alcançar o objetivo de acabar com a aids como problema de saúde pública.
A sessão foi organizada pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF) em parceria com a Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero.
“Precisamos reinventar a resposta sem perder aquilo que nos trouxe até aqui”

Ao abrir sua participação, Mariângela Simão afirmou que o mundo vive uma mudança profunda no cenário internacional. Segundo ela, a redução dos recursos destinados ao HIV, a crescente instabilidade geopolítica e os ataques aos direitos humanos exigem uma transformação da resposta construída nas últimas quatro décadas.
Para a secretária, entretanto, reinventar essa resposta não significa abandonar os princípios que fizeram do enfrentamento ao HIV uma referência mundial. “A pergunta de hoje não é apenas como preservar aquilo que construímos para enfrentar a epidemia. Precisamos reinventar essa resposta sem perder os valores que fizeram dela uma história de sucesso.”
Dra. Mariângela ressaltou que o HIV nunca foi apenas uma doença infecciosa. Desde o início da epidemia, explicou, o vírus encontrou terreno fértil nas desigualdades sociais, econômicas e de gênero. “Quando mulheres não podem decidir sobre seus próprios corpos; quando meninas abandonam a escola; quando pessoas deixam de acessar os serviços de saúde por causa do estigma ou da discriminação, é aí que o HIV prospera”, afirmou.
Por isso, segundo ela, igualdade de gênero deve ser entendida como política pública de prevenção e não apenas como uma pauta complementar. “A igualdade de gênero não é um complemento da resposta ao HIV. Ela é uma das estratégias mais poderosas de prevenção.”
A secretária lembrou que mulheres submetidas à violência por parceiros íntimos apresentam risco significativamente maior de adquirir o HIV, evidenciando que combater a violência de gênero também significa prevenir novas infecções.
Outro alerta foi direcionado ao futuro dos sistemas de saúde. Para Mariângela, a escassez de recursos não pode levar governos a concentrarem esforços exclusivamente na oferta de medicamentos. “Tratamento salva vidas, mas, sozinho, não encerrará a epidemia.”
Ela defendeu uma assistência integrada, capaz de reunir prevenção, saúde sexual e reprodutiva, saúde mental e atenção primária em um mesmo sistema. “As pessoas não vivem suas vidas separando HIV, saúde sexual, saúde reprodutiva e saúde mental. Precisamos construir sistemas centrados nas pessoas, e não em programas isolados.”
Dra. Mariângela também demonstrou preocupação com o impacto da retração do financiamento internacional sobre as organizações comunitárias. “Investir em direitos humanos e na liderança comunitária talvez seja o investimento mais inteligente que possamos fazer neste momento.”
“O sucesso da resposta ao HIV foi construído pela parceria entre governos, ciência e comunidades. É essa aliança que precisamos fortalecer novamente para enfrentar os desafios desta nova era.”
“A aids é alimentada pela injustiça”

Se Mariângela Simão apresentou a visão de quem formula políticas públicas, a diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, ampliou o debate para o cenário internacional e fez um dos discursos mais contundentes da abertura da pré-conferência.
Segundo ela, o mundo vive um dos momentos mais delicados desde o início da epidemia. Além da redução histórica da ajuda internacional, conflitos, instabilidade geopolítica e o avanço de governos conservadores colocam em risco programas que salvaram milhões de vidas nas últimas décadas.
Para Byanyima, porém, o momento exige mais do que resistência. “A pergunta não é apenas como defender a resposta ao HIV. A questão é como aproveitar este enorme momento de mudança para construir uma resposta mais forte e diferente para o futuro.”
A dirigente afirmou que o HIV sempre foi impulsionado pelas desigualdades e que, por isso, qualquer estratégia que ignore direitos humanos estará condenada ao fracasso. “A natureza da aids é a injustiça. A epidemia vive das desigualdades — entre homens e mulheres, entre ricos e pobres, entre países ricos e países pobres, entre aqueles cujos direitos são protegidos e aqueles cujos direitos são negados.”
Ao longo da fala, Winnie lembrou que meninas e mulheres continuam sendo as mais afetadas em diversas regiões do planeta, especialmente na África Subsaariana, onde milhares de novas infecções ainda ocorrem semanalmente entre adolescentes e mulheres jovens.
Ela também citou as populações-chave — gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, profissionais do sexo, pessoas que usam drogas e pessoas privadas de liberdade — como grupos que seguem enfrentando criminalização, violência e exclusão dos serviços de saúde.
Segundo a diretora do Unaids, acabar com a epidemia significa enfrentar essas desigualdades de forma direta. “Se realmente queremos acabar com a aids, precisamos redobrar nosso compromisso com a igualdade de gênero, a autonomia corporal, os direitos humanos e a liderança política. Essas não são pautas acessórias. São pré-requisitos para o sucesso.”
Reconstruir movimentos, e não apenas financiar projetos
Um dos momentos mais aplaudidos da sessão ocorreu quando Winnie defendeu uma mudança profunda na forma como a cooperação internacional se relaciona com a sociedade civil.
Segundo ela, durante muitos anos a resposta ao HIV concentrou esforços em financiar projetos específicos de organizações não governamentais. Embora esses investimentos tenham sido importantes, afirmou que chegou o momento de reconstruir movimentos sociais fortes.
“Precisamos voltar a construir movimentos. O apartheid não foi derrotado por financiamentos para ONGs. Foi derrotado por movimentos populares. Os trabalhadores conquistaram direitos porque se organizaram. Agora precisamos reconstruir esse poder coletivo para enfrentar a aids.”
Ela defendeu maior integração entre organizações que atuam na resposta ao HIV, movimentos feministas, coletivos LGBTQIA+, organizações de justiça racial, povos indígenas e demais grupos que enfrentam violações de direitos. “Nunca precisaremos tanto uns dos outros quanto agora”, resumiu.
Sistemas de saúde desenhados para pessoas, e não para doenças
Outro eixo central do discurso foi a necessidade de transformar a organização dos serviços de saúde. Segundo Winnie, ainda hoje muitos sistemas obrigam as pessoas a percorrer diferentes serviços para atender necessidades que fazem parte da mesma vida.
Uma mulher vivendo com HIV, exemplificou, não deveria procurar um serviço para tratamento da infecção, outro para planejamento reprodutivo, outro para saúde mental e outro para atendimento após sofrer violência. “As pessoas não vivem suas vidas em compartimentos. Os sistemas de saúde é que foram organizados dessa maneira.”
Apesar do cenário político preocupante, Winnie afirmou que nunca houve tantos motivos para esperança do ponto de vista científico.
Ela destacou o desenvolvimento de medicamentos de longa duração, novas tecnologias de prevenção e outras inovações capazes de reduzir drasticamente o número de novas infecções.
Mas fez um alerta que sintetizou boa parte do debate da sessão. “Inovação sem acesso equitativo não é inovação. É injustiça. A África esperou quase uma década pelos antirretrovirais e perdeu milhões de vidas. Não podemos repetir esse erro.”
“Nomear quem sempre foi invisibilizado também é uma forma de fazer justiça”

Se Winnie Byanyima falou sobre a necessidade de reconstruir a resposta global ao HIV, a ativista indígena zapoteca e defensora dos direitos das pessoas trans Amaranta Gómez Regalado, do México, lembrou que essa reconstrução só será possível se incluir aqueles que historicamente permaneceram à margem das políticas públicas.
Falando em espanhol e traduzida durante a sessão, Amaranta propôs um exercício de reflexão sobre o futuro da resposta latino-americana ao HIV. Para ela, antes de imaginar novos caminhos, é preciso reconhecer aquilo que a epidemia ensinou ao longo das últimas quatro décadas. “Para reimaginar a resposta ao HIV, primeiro precisamos reconhecer as lições que aprendemos nesta região.”
Segundo a ativista, um dos maiores legados do movimento de luta contra a aids foi tornar visíveis pessoas que, durante décadas, sequer eram reconhecidas nas políticas públicas.
“O movimento do HIV nos ensinou a nomear comunidades que antes permaneciam invisíveis: pessoas vivendo com HIV, mulheres, profissionais do sexo, povos indígenas, migrantes, pessoas com deficiência.”
Para Amaranta, em um cenário marcado pelo avanço do conservadorismo e por ataques à democracia, reconhecer essas identidades tornou-se um ato político. “Hoje, nomear essas pessoas é um gesto de coragem.”
Ela afirmou que o objetivo de acabar com a aids até 2030 permanece essencial, mas advertiu que isso, por si só, não resolverá outras formas de violência que atingem essas populações.
Mesmo com o controle da epidemia, disse, continuarão existindo outras infecções sexualmente transmissíveis, feminicídios, crimes de ódio, racismo, violência contra pessoas LGBTQIA+, impactos das mudanças climáticas e desigualdades que atravessam a vida das populações mais vulnerabilizadas.
“Temos de aprender a reconhecer a riqueza da diversidade e enfrentar todas as formas de violência que atingem nossas comunidades.”
Comunidades no centro — e nos espaços de decisão
Ao final do painel, os participantes responderam a uma mesma pergunta: qual deve ser o primeiro passo para integrar definitivamente HIV, saúde sexual e reprodutiva e direitos humanos na nova resposta global?
As respostas convergiram para um ponto comum: colocar as comunidades no centro das decisões.
Thiago Jerohan, da Gestos, defendeu maior articulação entre organizações e movimentos sociais. Segundo ele, nenhuma instituição conseguirá responder sozinha aos desafios atuais. “Precisamos trabalhar juntos. Compartilhar conhecimento, experiências e construir respostas coletivas. As mudanças acontecem rápido demais para que cada organização caminhe isoladamente.”
Amaranta foi além. Ela afirmou que colocar comunidades no centro não significa apenas consultá-las ou convidá-las para eventos. Significa dividir poder.
“Queremos instituições dirigidas por pessoas trans, trabalhadores do sexo, pessoas indígenas, pessoas negras, pessoas com deficiência. Não basta dizer que as comunidades estão no centro. Elas precisam ocupar os espaços onde as decisões são tomadas.”
A ativista também questionou se os recursos financeiros acompanharão esse discurso. “Quando dizemos que as comunidades estão no centro, os recursos também irão para elas? Ou continuarão aparecendo apenas nas fotografias?”
Uma resposta construída pelas comunidades
Encerrando o debate, Winnie Byanyima voltou a defender que organizações comunitárias sejam reconhecidas como parte integrante dos sistemas nacionais de saúde. “As comunidades precisam deixar de ser vistas apenas como executoras de projetos. Elas fazem parte do sistema de saúde e precisam ser reconhecidas como tal.”
Se, por um lado, a ciência oferece hoje medicamentos de longa duração, novas estratégias de prevenção e tecnologias capazes de reduzir drasticamente as infecções pelo HIV, por outro, o avanço dessas ferramentas dependerá da capacidade dos países de proteger direitos humanos, fortalecer sistemas públicos de saúde e garantir financiamento sustentável para as organizações comunitárias.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



